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CAPÍTULO DOIS: Os Valecliff

A notícia se espalharia pela escola antes mesmo do sino das oito.

Os Valecliff.

Até eu — que raramente prestava atenção em fofoca — ouvi o nome três vezes antes de chegar à sala de aula. Uma família inteira. Irmãos. Pai e mãe adotivos, comentou alguém. Vindos de... onde? Ninguém sabia ao certo. Europeus, talvez. Ricos, com certeza. O tipo de riqueza que não precisava se anunciar.

— Alguém disse que são uns cinco — começou Priya Mehta, encostada na minha carteira antes da aula começar, visivelmente animada. — Dois irmãos, uma irmã e os pais. E que são absurdamente bonitos.

— Que relevante — murmurei, abrindo o caderno.

— Ayla. Você é incapaz de se empolgar com qualquer coisa.

— Estou empolgada com a prova de literatura.

Ela fez uma careta e voltou para o lugar dela.

Não sabia dizer o que era exatamente, mas desde que vi a caminhonete preta na noite anterior, alguma coisa dentro de mim estava inquieta. Não era curiosidade. Era aquele senso aguçado que aprendi a ignorar, fazendo barulho de novo.

Eles chegaram perto do intervalo.

Eu estava saindo da biblioteca quando os vi atravessando o corredor principal, e entendi de imediato o que Priya quis dizer. Havia neles algo que escapava ao ordinário. Não era só a beleza, embora fossem perturbadoramente belos. Era o modo como se moviam, como ocupavam o espaço — uma graciosidade calma e precisa que parecia calculada, mas que fluía natural demais para ser ensaiada.

A irmã era alta, de cabelos cor de trigo, com um olhar que varria um cômodo inteiro antes de pousar em qualquer ponto específico. Um dos irmãos ria de alguma coisa, com um sorriso fácil que sugeria que achava tudo levemente entediante. A mulher ao fundo observava os dois com a paciência de quem já viu muito.

E o terceiro.

Ele estava um passo atrás dos outros, e foi o único que não estava olhando para nada em específico — até que olhou para mim.

Parei no meio do corredor sem querer.

Era alto, com ombros que preenchiam o casaco escuro de um jeito que fazia o tecido parecer intencional. Cabelo quase preto, olhos que eu não consegui definir à distância — claros demais, escuros demais, alguma coisa entre os dois que não tinha nome certo. Tinha um rosto que poderia ter sido esculpido por alguém que conhecia muito bem geometria e queria fazer o restante do mundo se sentir mal.

O problema era a expressão.

Não havia nada nela, à primeira vista. Mas enquanto o olhar dele me encontrava e ficava — não varria, não deslizava, ficava — algo mudou naqueles traços. Uma fresta de algo que não consegui nomear. Como se tivesse encontrado alguma coisa que não esperava.

Desviei o olhar primeiro. Por instinto, mais do que por escolha.

Quando levantei os olhos de volta, ele ainda estava me olhando.

— Ayla.

A voz de Kai veio de trás. Ele apareceu ao meu lado em dois passos, e a presença dele era tão familiar e sólida que soltei um ar que nem percebi que estava prendendo.

— Você viu? — perguntei baixinho.

— Vi — disse. Tinha algo na voz dele — quieto, apertado — que fez a inquietação no meu peito dobrar de tamanho. — Fica longe deles, Ayla.

Olhei para o lado.

— O quê?

— Só fica — ele repetiu, e o tom não era pedido. Tinha ali algo que se aproximava de urgência, uma seriedade que raramente aparecia no rosto dele. — Por favor.

Eu não entendi naquele momento. Não perguntei, porque o sino bateu e o corredor se encheu de gente e o momento passou.

Mas na hora do almoço, quando cruzei com o de olhos impossíveis no corredor e ele inclinou levemente a cabeça para o lado — como se eu fosse um enigma que ele já tivesse encontrado antes e ainda não tivesse conseguido resolver — eu soube que era tarde demais para ficar longe de qualquer coisa.

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