Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu não deveria ter saído naquela noite.
Era quase meia-noite quando deixei a janela do quarto entreaberta e desci pela lateral da casa com uma agilidade que provavelmente seria alarmante se eu parasse para pensar nela. Mas não parei. Havia uma inquietação embaixo da minha pele que o quarto fechado tornava insuportável — a mesma sensação de antes de uma tempestade, só que vinda de dentro.
Ravenmoor à noite era uma versão diferente de si mesma. As ruas de pedra brilhavam úmidas sob as lamparinas antigas, e a névoa rastejava pelo chão em mantas baixas que engoliam tornozelos. O frio mordia. Eu enfiei as mãos nos bolsos e andei, sem destino consciente, deixando os pés decidirem.
A floresta começava a dois quarteirões da casa dos Hargrove.
Não era para ter chegado tão perto. Mas os pés me levaram até ali sem que eu pedisse permissão, e quando me dei conta, estava parada na borda da mata olhando para aquela escuridão que se adensava entre as árvores como coisa viva.
— Você não deveria estar aqui.
Não me virei imediatamente. Reconheci a voz antes de precisar.
Kai surgiu da sombra lateral de um carvalho enorme, com aquela capacidade irritante que tinha de aparecer do nada. Estava sem casaco apesar do frio — o que eu já havia parado de achar estranho há muito tempo, porque Kai simplesmente nunca sentia frio, e em algum momento na infância decidi que era alguma condição médica e deixei estar.
— Poderia dizer o mesmo para você — respondi.
Ele parou a dois metros de mim. No rosto dele havia algo que raramente via: não o Kai de todo dia, não o que ria fácil e tinha sempre uma resposta pronta. Era o outro — o que aparecia às vezes em relances rápidos, mais velho e mais pesado do que a nossa idade justificava.
— Eu patrulho aqui — ele disse, simplesmente.
— Patrulha? — repeti.
— Sempre patrulhei. Você só nunca perguntou.
Encarei o rosto dele. As lamparinas da rua não chegavam até ali, mas havia luz suficiente da lua para ver a expressão dele — aberta, pela primeira vez em dias. Vulnerável, quase.
— Kai — disse, devagar. — O que você está escondendo de mim?
Ele não desviou o olhar.
— Juro que te conto tudo — disse. — Em breve. Só precisa confiar em mim um pouco mais.
— Eu confio em você. Sempre confiei.
— Eu sei.
Ficamos assim por um segundo — a floresta atrás de mim respirando, Ravenmoor dormindo ao longe, e algo entre nós que nunca tinha sido nomeado e que, naquele momento, parecia maior do que o usual.
Kai deu um passo em minha direção. Devagar, como se me desse tempo para recuar.
Não recuei.
Ele colocou a mão no meu rosto com um cuidado que me desarmou completamente — o polegar deslizando pelo meu rosto como se eu fosse algo que podia quebrar. A proximidade dele era quente demais para a temperatura da noite. Sempre foi.
— Entra em casa, Ayla — disse, com uma voz que tinha descido duas oitavas. — Por favor.
Eu teria obedecido.
Mas foi então que uma figura surgiu da floresta, vinte metros à nossa direita — silenciosa, com aquela graça que eu reconhecia de um corredor de escola às dez da manhã — e Kai recuou imediatamente, o corpo inteiro mudando em meio segundo. Não em postura, não em expressão. Em algo mais fundo, como se outra versão dele tivesse assumido o controle.
Dorian parou quando nos viu.
Olhou de Kai para mim, depois de volta para Kai, com a expressão de quem está calculando probabilidades em tempo real.
— Interessante hora para um passeio — disse, com uma leveza que não chegava aos olhos.
— Sai daqui — Kai disse. Não havia absolutamente nada de leve no tom dele.
— Poderia — Dorian respondeu. Fez uma pausa de dois segundos. — Mas ela está na borda de uma floresta onde alguém morreu há três dias. Então não vou.
O ar entre os dois virou.
Eu estava no meio deles — literalmente, geograficamente, e de um jeito que de repente ficou claro para mim que ia além da posição física. Havia ali um território sendo demarcado em tempo real, invisível e inegável, e eu era o centro do mapa.
— Chega — disse, e as duas cabeças giraram para mim ao mesmo tempo. — Vou entrar em casa. Vocês dois resolvem o que quiserem resolver.
Virei as costas e fui embora sem correr.
Mas quando cheguei no quarto e fechei a janela, fiquei parada por um longo minuto ouvindo o próprio coração bater mais rápido do que deveria.
E soube, com aquela certeza que vinha de lugares sem nome, que aquela noite tinha sido um limiar.
Que depois dela, nada ia voltar a ser o que era antes.







