Mundo de ficçãoIniciar sessãoA caminhada pela mata desconhecida pareceu uma jornada interminável e tortuosa.
— Ilunara estava terrivelmente enfraquecida pelo parto recente, pelo desgaste severo da transmutação e pelo impacto da travessia entre as dimensões. — Algumas vezes precisou apoiar-se no tronco das árvores para não ceder à tontura e cair desacordada. — A chuva começou a cair de forma fina e fria, prendendo os fios de cabelos ao seu rosto desgastado e tornando o caminho escorregadio. — Mesmo enfrentando todas as adversidades físicas e emocionais, ela continuou avançando sem pausar. Quando finalmente reconheceu os sinais territoriais que Cálix havia descrito no passado, a princesa quase não pôde acreditar que conseguira. — As árvores eram notavelmente diferentes naquela parte específica da floresta. Eram visivelmente mais antigas, imponentes e misteriosamente silenciosas. — Havia uma aura mística pulsando ali, embora não fosse exatamente igual à magia refinada de Lórandhriel. —Era uma força terrestre, selvagem, profundamente ligada às fases da lua, ao sangue das alcateias e aos animais que habitavam aquelas terras antigas. Ilunara caminhou mais um pouco e finalmente encontrou a humilde cabana. —Parou diante do construto de madeira com o coração disparado. E exatamente naquele momento compreendeu que havia chegado à parte mais difícil de toda a sua jornada. — Durante toda a fuga desesperada, ela pensara apenas em alcançar aquele lugar em segurança. — Jamais se permitiria focar no que aconteceria depois que chegasse ao destino. — Agora não havia mais floresta para atravessar, inimigo imediato do qual fugir ou portal pelo qual passar, restava a dolorosa tarefa de entregar sua filha para estranhos. Ilunara olhou profundamente para a menina e sentiu que suas pernas finalmente perdem a força para mantê-la de pé. — Sentou-se com cuidado diante da soleira da porta e afastou delicadamente o tecido que cobria o rosto da criança. — Os cabelos prateados da recém-nascida estavam ainda mais luminosos sob a luz da lua que cortava as nuvens. — A menina abriu os olhos por alguns segundos, encarando a mãe, e Ilunara levou a mão livre à boca para conter um soluço desesperado de dor. — Como eu queria ver você crescer lamentou a princesa feérica em um sussurro sentido. Acariciou delicadamente a pequena face da bebê, gravando cada detalhe daquele rosto em sua memória para sempre. — Queria ouvir sua primeira palavra, ver seus primeiros passos e contar quem foi seu pai, e que você soubesse o quanto ele amou você antes mesmo de conhecer seu rosto declarou a mãe com o peito sufocado de dor. — As lágrimas quentes caíram ininterruptamente sobre o tecido que envolvia a recém-nascida. — Ilunara retirou de junto ao seu próprio corpo um pequeno colar lunar trabalhado em prata e pedras místicas. A joia possuía uma pedra preciosa que pulsava suavemente com uma luz própria, guardando em seu interior uma parcela valiosa da magia ancestral de sua linhagem real. — Colocou-o cuidadosamente junto ao corpo da criança, garantindo que o amuleto permanecesse protegido nos panos, e em seguida, retirou a carta que havia preparado previamente para aquela ocasião fatídica. Havia escrito aquelas palavras com o próprio punho sabendo que talvez elas fossem a única voz e a única herança que sua filha teria dela ao longo da vida. — Depositou a menina suavemente sobre a soleira da madeira. — Tentou se levantar para ir embora de vez, mas não conseguiu mover os membros enfraquecidos. Ajoelhou-se novamente e tomou a filha nos braços para um abraço final desesperado. — Perdoe-me, pediu a mãe em um sussurro dilacerante. Beijou a testa da recém-nascida de forma demorada e carinhosa. — Eu não estou deixando você porque não a amo, estou deixando você porque amo mais a sua vida do que a minha própria felicidade, explicou a princesa, derramando suas últimas lágrimas sobre a pequena. A menina moveu instintivamente a pequena mãozinha e seus dedos minúsculos tocaram suavemente o rosto banhado de lágrimas da mãe. — Ilunara fechou os olhos ao sentir aquele toque tão puro e cheio de inocência. — Por um único e perigoso segundo, ela quase desistiu de seu plano inicial. — Quase decidiu pegar a bebê e fugir novamente sem rumo, levando-a consigo para qualquer canto esquecido daquele mundo mortal. Mas então lembrou-se vividamente da imagem terrível da espada atravessando o peito de Cálix e ouviu o eco de suas últimas palavras implorando para que protegesse a filha. — Com uma força sobrenatural que não sabia que ainda possuía, Ilunara colocou a criança novamente na soleira da porta. — Seja a Lua onde só houver trevas, que seu nome ecoe entre as matas e atravesse a eternidade, e que, quando chegar o momento, você compreenda aquilo que sua mãe precisou sacrificar para que pudesse viver — declarou a feérica em uma bênção solene. De repente, a floresta ao redor estremeceu violentamente, Ilunara ficou completamente imóvel no lugar, reconhecendo o sinal. — Não era a força do vento mortal que causava aquilo. As árvores se curvaram em uma reverência forçada e assustadora. — A magia feérica pura atravessou a vegetação como uma onda de choque congelante, e ela soube da verdade antes mesmo de se virar para confirmar com os próprios olhos. — Priel, o Rei da Corte da Luz, finalmente a encontrara naquele mundo remoto. O Rei atravessou a fenda entre os mundos de forma majestosa, totalmente envolvido pela luz fria e intimidadora da Corte da Luz. — Sua simples presença naquele plano mortal obrigou a própria floresta a reagir de maneira errática e defensiva. — Folhas se desprenderam abruptamente das árvores, raízes grossas se moveram com estrondo sob a terra e o ar ao redor pareceu comprimir-se rapidamente. Ilunara se levantou com dificuldade e imediatamente colocou-se de pé entre seu pai e a porta da cabana onde a bebê repousava. — Priel olhou duramente para ela, analisando a aparência decadente da filha transmutada. Em seguida, desviou o olhar frio para a porta fechada da habitação. — Onde está a criança? — questionou o soberano com uma voz desprovida de qualquer afeto paternal. Ilunara manteve-se em silêncio absoluto, encarando-o com firmeza. — Entregue-a, ordenou o rei em um tom imperioso. — Não — respondeu a princesa sem vacilar por um segundo sequer. O rosto aristocrático e belo do rei endureceu instantaneamente diante da recusa insolente. — Você já destruiu o suficiente por causa daquele lobo — acusou Priel com profundo desprezo. A dor da menção ao seu falecido amor atravessou o peito de Ilunara como uma lâmina, mas ela recusou-se veementemente a recuar um passo que fosse. — Não pronuncie Cálix como se ele fosse indigno. O homem que você chama de lobo morreu protegendo sua filha. — O senhor, que se chama rei, tentou condená-la pelo crime de ter nascido — confrontou ela com veneno na voz. — Ela carrega um sangue que jamais deveria ter sido unido ao nosso declarou o soberano com repulsa. — Ela carrega o meu sangue — rebateu Ilunara, erguendo a cabeça com orgulho. Priel avançou um passo ameaçador na direção da filha rebelde. — Ilunara permaneceu firme diante dele, bloqueando seu caminho. — E carrega o sangue do Supremo Alpha, é filha de dois mundos, quer o senhor aceite ou não, afirmou ela com plena convicção de suas palavras, a Herdeira de dois mundos. — Onde ela está? — exigiu o rei pela última vez, perdendo a paciência. Dessa vez, Ilunara sorriu para o monarca, não há a menor ponta de alegria naquele sorriso rasgado. — Havia apenas um desafio puro e inabalável contra a autoridade do pai. — Longe do seu alcance, provocou a princesa com triunfo velado. A ira incontida modificou terrivelmente o rosto perfeito do rei feérico. — Ilunara ergueu o queixo com imponência, aceitando qualquer punição que estivesse por vir. — Ela não é mais sua, não pertence à sua Corte, à sua coroa nem ao seu orgulho. — Ela pertence ao destino decretou a mãe em tom definitivo. As correntes mágicas surgiram no ar antes mesmo que Ilunara pudesse tentar qualquer reação defensiva. — Feitas de prata viva e reluzente, elas se enrolaram com força brutal ao redor de seus pulsos, braços e cintura. — A pouca magia feérica que ainda restava dentro dela tentou desesperadamente despertar para libertá-la, mas o processo penoso da transmutação a havia enfraquecido demais para conseguir romper tais amarras. Ilunara lutou bravamente contra a contenção, ainda assim, até sentir a prata mística queimar impiedosamente sua pele transmutada. Priel aproximou-se da filha aprisionada com passos lentos e calculados. — Você voltará comigo, declarou o monarca, selando a sentença dela. — Pode aprisionar meu corpo respondeu a princesa sem demonstrar fraqueza diante dele. Ela encarou o pai diretamente nos olhos com um olhar que queimava de determinação. — Mas jamais encontrará minha filha concluiu ela com firmeza absoluta. Sem dizer mais nenhuma palavra, Priel abriu um portal brilhante para a dimensão feérica. — Quando Ilunara começou a ser implacavelmente arrastada para dentro da fenda luminosa, ela olhou uma última vez na direção da cabana de madeira. — Dessa vez, contrariando todas as ordens anteriores, ela se permitiu olhar para trás com carinho. — E sorriu lindamente no meio das lágrimas que lavavam seu rosto, sorriu porque sabia que, independentemente do seu próprio fim amargo, sua querida filha estava viva e em segurança. Poucos instantes depois da passagem dos feéricos, o portal mágico desapareceu completamente sem deixar rastros. — O castigo reservado a Ilunara por sua rebeldia seria infinitamente pior do que uma simples sentença de morte rápida. — Priel a aprisiona perpetuamente entre os espelhos frios das Montanhas Cristalinas, onde sua magia ancestral permaneceria totalmente selada e sua existência seria reduzida à triste contemplação de um céu que jamais poderia alcançar. — Naquele cativeiro eterno, ela carregaria a dor de duas ausências devastadoras: o companheiro que perdera na guerra e a filha amada que jamais veria crescer.






