Mundo de ficçãoIniciar sessãoContudo, apesar de todo o seu poder e de sua crueldade, o Rei Priel havia falhado miseravelmente em seu objetivo principal.
Um choro miúdo e agudo rompeu o silêncio denso daquela madrugada na floresta. — Dentro da cabana de madeira, Raven abriu os olhos de sobressalto ao ouvir o som vindo da entrada. — A curandeira respeitada permaneceu completamente imóvel na cama por alguns segundos, tentando compreender com clareza o que havia despertado seus sentidos aguçados de metamorfo. — Foi então que ouviu o som distintivo novamente, não deixando espaço para dúvidas. Era o choro inequívoco de um bebê recém-nascido abandonado na noite. Ela levantou-se rapidamente da cama, tomada por uma urgência maternal e protetora. — Zephyr despertou imediatamente com o movimento brusco de sua companheira e a acompanhou em alerta até a entrada principal. — Quando Raven abriu a porta de madeira, ambos os metamorfos ficaram em absoluto silêncio diante da cena. — Uma menina recém-nascida estava repousando sobre a soleira fria da casa. Raven ajoelhou-se imediatamente no chão e tomou a pequena criança nos braços com extrema delicadeza. — Assim que seus dedos curandeiros tocaram o pequeno corpo da bebê, uma vibração mágica e intensa percorreu suas mãos e subiu rapidamente por seus braços. — A loba arregalou os olhos em puro espanto diante do que sentia emanar daquele pequeno ser. — Zephyr... — a curandeira chama, com a voz falhando diante da descoberta. O sábio Beta do clã já havia percebido a gravidade e a raridade daquela situação incomum. — O colar lunar magnífico brilhava com uma luz mística entre os panos que cobriam a criança. — Ao lado do amuleto, havia uma carta dobrada com cuidado. — Antes que Raven pudesse estender a mão para pegá-la, o pergaminho antigo se abriu sozinho por força da magia nele contida. — Símbolos antigos e intrincados surgiram brilhando sobre sua superfície amarelada. Erão runas raras e palavras pertencentes a um tempo esquecido que pouquíssimos seres no mundo ainda conseguiam compreender. Zephyr aproximou-se devagar da companheira e observou a criança mantida no colo dela. —:Os cabelos distintamente prateados da bebê brilhavam sob a luz suave da lua, enquanto uma magia profunda e ancestral parecia respirar e pulsar adormecida dentro daquele corpo tão pequeno. — É uma criança da Lua, murmurou o experiente Beta com um tom de profundo respeito e reverência. Raven passou os dedos com extremo carinho pelos cabelos reluzentes da menina. — Ela sentiu uma quantidade impressionante de poder reprimido ali — . Contudo, sentiu também algo de densidade muito maior, algo que a perturbou e impressionou em escala muito mais profunda. — Ela sentiu o peso do Destino moldando aquela vida recém-chegada. Aquela criança extraordinária não havia sido simplesmente abandonada à própria sorte por uma mãe irresponsável. — Ela fora intencionalmente confiada à proteção deles. Raven olhou nos olhos de Zephyr, buscando a confirmação de seus pensamentos. — Nenhum dos dois precisou pronunciar uma única palavra para discutir o que fariam a partir daquele momento decisivo. — A decisão já estava tomada em seus corações de lobos. A curandeira voltou os olhos transbordando afeto para a menina e a acomodou confortavelmente contra o peito quente. — A partir desta noite, você será nossa filha, declarou a loba com a autoridade de uma mãe adotiva. — A pequena criança abriu os olhos luminosos naquele instante, encarando o novo rosto, Raven sorriu com imensa ternura para o bebê. — E seu nome será Shira, batizou a curandeira com doçura. O vento soprou forte e atravessou toda a extensão das árvores ancestrais ao redor. — As folhas das Florestas Sagradas dançaram harmoniosamente sob o brilho da lua cheia, e uma luz prateada e mágica percorreu silenciosamente cada um dos galhos da mata. — Por um breve e eterno instante, a própria floresta pareceu reconhecer e saudar a criança especial que acabara de receber em seu seio. Naquela madrugada fria, devidamente escondida entre os metamorfos do clã e totalmente protegida pelo sacrifício supremo de seus pais biológicos, a lendária filha de dois mundos finalmente encontrou um lar seguro para crescer. — E, nas sombras mais profundas daquilo que o Rei Priel acreditava piamente ter destruído para sempre, uma antiga e poderosa profecia começava a cumprir de forma inexorável o seu primeiro ciclo na terra. A PROFECIA ANTIGA “No vigésimo ciclo de luz, sob o véu da lua prateada, a Filha do Vento e da Névoa despertará. Se seu coração tocar o de um lobo puro, aquele que carregue força, honra e a marca do domínio, então a centelha do sangue antigo acenderá. Não será qualquer lobo. Será aquele forjado no ventre da guerra, moldado pelas sombras e silencioso como a noite, destinado a liderar não pelo medo, mas pelo destino: o Supremo Alpha. E no acasalamento sagrado, quando alma e instinto se fundirem, os dons adormecidos de Shira emergiram. A magia se quebrará. A linhagem revelará. E o clã que a tiver como fêmea Alpha será imbatível entre todos os reinos. Mas cuidado. Onde houver luz, haverá sombra. Onde houver poder, nascerá a inveja. Onde houver profecia, haverá olhos que desejarão possuí-la. Porque a traição nem sempre virá de um inimigo. Às vezes, vestirá a máscara da devoção.”






