Mundo de ficçãoIniciar sessão
QUANDO TUDO COMEÇOU
A noite tinha gosto de sangue e aurora quebrada naquelas terras esquecidas, as copas ancestrais da floresta de Lórandhriel choravam em silêncio, agitadas por um vento sobrenatural que não pertencia àquela noite. — Os galhos das árvores sagradas tremiam como cordas de harpas tocadas por mãos invisíveis, enquanto folhas luminosas se desprendiam das copas e desciam lentamente, consumidas por um brilho rubro antes mesmo de alcançarem o solo. — Durante eras, o véu mágico protegera o reino élfico contra invasores, guerras e criaturas que não deveriam atravessar suas fronteiras, garantindo a paz do povo feérico. — Naquela noite, porém, a proteção milenar havia sido impiedosamente rasgada. A ruptura ainda permanecia aberta no horizonte como uma ferida sangrenta entre os mundos. —Clarões prateados atravessavam a escuridão, misturando-se ao vermelho vivo que tingia as árvores e às sombras daqueles que haviam lutado para impedir uma fuga considerada imperdoável pela alta nobreza. — A floresta, que sempre respondera à presença da família real com música, perfume e luz, parecia agora lamentar profundamente aquilo que acabara de testemunhar. —No meio da devastação, Ilunara corria com todas as forças que ainda lhe restavam no corpo. A princesa da Corte da Luz já não se parecia com a criatura majestosa que poucas horas antes caminhar com altivez pelos salões cristalinos de Lórandhriel. Os longos cabelos estavam desfeitos e embaraçados, enquanto o vestido cerimonial se mostrava rasgado junto à barra e manchado pelo sangue do parto recente. — Os passos dado na terra batida provocavam uma dor profunda em seu ventre, mas ela se recusava categoricamente a diminuir o ritmo de sua fuga. — Apertava contra o peito a pequena criança envolta em panos encantados e avançava pela floresta densa como se a própria vida dependesse daquela corrida desesperada. E a verdade era que dependia. — Não a sua própria vida, mas a da filha recém-nascida que carregava contra o peito. Ilunara baixou os olhos por apenas um instante para encarar o pequeno pacote. A bebê rescem nascida, dormia calmamente apesar dos estrondos distantes e do movimento desesperado da mãe pela mata. — Pequenos fios de cabelos prateados escapavam do tecido que protegia sua cabeça, brilhando suavemente sempre que a luz das árvores tocava seu rosto delicado. — Era tão pequena que parecia impossível acreditar que tamanho ódio pudesse ter sido despertado por seu nascimento. — As lágrimas voltaram a inundar os olhos de Ilunara enquanto ela tentava recuperar o fôlego acumulado na corrida. — Cálix, por favor, aguente — sussurrou a princesa, quase sem voz diante do cansaço. — Por favor. — O nome do companheiro rasgou seu coração de forma devastadora. Ela sabia perfeitamente que não deveria olhar para trás sob nenhuma circunstância. — Cálix havia ordenado expressamente que ela não olhasse, e Ilunara tinha plena consciência de que cada segundo perdido poderia significar a captura definitiva da criança. — Ainda assim, quando chegou ao limite do portal feérico, seus pés se recusaram a continuar o caminho. —'Virou-se lentamente e a visão da batalha quase a fez cair de joelhos sobre a terra fria. Cálix permanecia próximo à passagem, sustentando-se a muito custo e com extrema dificuldade. — O Supremo Alpha das Montanhas do Norte, o grande lobo branco diante de quem tantos guerreiros haviam recuado com terror, estava gravemente ferido. — A espada cravada em seu peito não era uma arma comum criada por ferreiros mortais. Símbolos antigos percorriam toda a extensão da lâmina e pulsavam acompanhando as batidas cada vez mais fracas de seu coração valente. — O sangue manchava suas roupas nobres e escorria lentamente até o chão sagrado de Lórandhriel. Ilunara soube imediatamente que não poderia salvar da morte iminente. — Não... — murmurou ela em um lamento abafado pela dor. Com o coração despedaçado, a princesa deu um passo incerto na direção dele. — Não, fuja agora! — Cálix ordenou com firmeza, travando o avanço da companheira. A força impressionante daquela voz não combinava com o corpo debilitado e ferido. Ilunara parou no mesmo instante, paralisada pela autoridade e pelo amor contidos naquele brado. — Por alguns segundos que pareceram uma eternidade, nada mais existiu no mundo além dos dois. — Nem a guerra devastadora, nem os guerreiros impiedosos que poderiam alcançar a qualquer momento, nem os reinos inteiros que haviam condenado aquela união proibida. —'Não havia a imponente Corte da Luz, tampouco as gélidas Montanhas do Norte. Há apenas os dois amantes separados pelo destino cruel. Cálix ergueu os olhos cansados para a criança mantida nos braços dela. — Toda a dureza do guerreiro lendário desapareceu em um piscar de olhos. Naquele instante sagrado, não havia Supremo Alpha, comandante temido ou inimigo declarado da Corte. —:Havia apenas um pai dedicado olhando para a filha recém-nascida e compreendendo a amarga verdade: provavelmente jamais poderia segurar novamente em seus braços. —: A aceitação do fim transparecia no olhar do grande lobo branco. — Leve-a daqui, disse o guerreiro, concentrando suas últimas forças naquela ordem final. — Eu não vou deixar você, retrucou a princesa, negando-se a aceitar o destino de seu grande amor. — Vai, é uma ordem, salve nossa filha e você mesma, eu te amo. Insistiu ele com o olhar suplicante e irredutível. Ilunara balançou a cabeça em negação, enquanto as lágrimas finalmente escorriam sem controle por seu rosto pálido. — Podemos atravessar juntos, Raven pode ajudá-lo, eu conheço os dons dela, se conseguirmos chegar ao Clã Glacier Heart... — tentou ponderar a feérica, desesperada por uma réstia de esperança. — Ilunara — interrompeu ele gravemente, cortando suas falsas expectativas. A maneira profunda como ele pronunciou seu nome a fez silenciar imediatamente. Cálix respirou com extrema dificuldade antes de continuar o seu raciocínio amargo: — Eu não atravessarei esse portal. Ela já sabia daquela verdade dolorosa no fundo de sua alma. — Talvez soubesse desde o exato instante em que vira a espada amaldiçoada para atravessar o peito dele. Ainda assim, ouvir aquelas palavras saindo da boca do companheiro transformava o medo abstrato em uma realidade avassaladora. — Eu não consigo fazer isso sem você, confessou ela com a voz embargada pelo sofrimento absoluto. O olhar severo dele se suavizou instantaneamente diante da fragilidade da fêmea. — Consegue, e vai fazer — afirmou ele, depositando nela toda a sua confiança restante. Um ruído ameaçador surgiu subitamente entre as árvores próximas. — Havia movimento de tropas inimigas se aproximando rapidamente atrás dele, não restava mais tempo para despedidas longas ou lamentações. — Cálix percebeu a ameaça no mesmo segundo que ela e acelerou seu último pedido. — Escute-me, atravesse o portal, transmute-se assim que chegar ao mundo dos homens. — Esconda sua essência, seu cheiro e magia, seu pai procurará uma princesa feérica. —' Não permita que ele encontre uma instruiu o Alpha com urgência vital. Ilunara apertou a filha ainda mais contra o peito dolorido, buscando forças onde não tinha. — E você? — perguntou ela com o coração apertado pela dor da iminente perda. — Um sorriso triste e resignado tocou os lábios manchados de sangue dele. — Eu já escolhi o meu destino quando escolhi vocês, declarou o lobo sem transparecer qualquer arrependimento. O coração da princesa se partiu em mil pedaços ao ouvir aquela declaração de amor supremo. — Cálix cambaleou visivelmente pela perda de sangue, mas permaneceu firme de pé, atuando como um escudo vivo entre sua família e os perseguidores. — Não olhe para trás, vá e transmute-se! Proteja nossa filha! — gritou ele em seu último ato de liderança e proteção. Dessa vez, Ilunara obedeceu ao comando sem hesitar. — Atravessou o portal com a criança nos braços no mesmo instante em que ouviu, atrás de si, o som aterrador de armas se chocando e vozes furiosas. Seu instinto mais profundo exigiu que voltasse para lutar ao lado dele. — Seu coração destruído implorou para que procurasse Cálix uma última vez com o olhar. Contudo, ela não olhou para trás. — Não olhou porque ele havia pedido com tanta veemência, porque entendia que essa era a única maneira de fazer com que o sacrifício supremo dele tivesse algum significado real. A travessia mágica entre os mundos atingiu seu corpo esgotado como uma onda avassaladora de fogo puro. Ilunara caiu de joelhos do outro lado do véu, usando o próprio corpo para proteger a criança contra o peito. —O ar daquele novo ambiente era completamente diferente do que conhecia. — Era pesado, seco e totalmente desprovido da magia fluida que impregnava cada sopro de ar em Lórandhriel. Ela não teve tempo para tentar compreender a natureza do mundo dos homens. — A prioridade absoluta era desaparecer da vista de qualquer perseguidor. — Ainda ajoelhada sobre a terra úmida daquela floresta desconhecida, Ilunara fechou os olhos e pronunciou com esforço as palavras do antigo encantamento de transmutação. — A magia reagiu de forma extremamente violenta ao ser forçada no mundo mortal. — Seu corpo arqueou-se em dor quando a essência feérica pura começou a ser comprimida e ocultada sob uma frágil forma humana. As asas cristalinas e magníficas que ela nasceu carregando estremeceram uma última vez antes de se desfazerem completamente emmilhares de partículas luminosas que se dispersaram no ar. — Seus olhos, vibrantes e azuis como as manhãs mais límpidas de Lórandhriel, perderam lentamente o brilho místico até assumirem um tom castanho comum e terreno. —A luminosidade dourada que emanava de sua pele desapareceu por completo, e a presença mágica que permitiria que qualquer criatura de seu reino a encontrasse foi sufocada pelo encantamento. — Quando a transformação dolorosa finalmente terminou, Ilunara caiu para a frente, totalmente exausta. Por alguns instantes agoniantes, a feérica permaneceu completamente imóvel, respirando com dificuldade contra o chão frio da floresta. — Foi então que ouviu um pequeno som vindo do embrulho em seus braços. — A filha chorava baixinho, Ilunara ergueu-se imediatamente, reunindo os restos de suas forças para acalmar a bebê. — Estou aqui, meu amor, mamãe está aqui, murmurou ela suavemente, ninando o pequeno ser. A menina se acalmou quase instantaneamente ao reconhecer a voz acolhedora da mãe. — Foi por ela, exclusivamente por ela, que Ilunara encontrou forças para se levantar e tornar a caminhar. Conhecia muito pouco daquele mundo humano, mas sabia exatamente o ponto final onde precisava chegar. — Muito antes daquela noite trágica, Cálix lhe falara em detalhes sobre as Florestas Sagradas do Clã Glacier Heart. — Entre os metamorfos locais vivia uma loba chamada Raven, curandeira respeitada de dons antigos e esposa dedicada de Zephyr, o experiente Beta do clã. — Se existia alguém naquele mundo capaz de reconhecer a verdadeira natureza daquela criança e, ao mesmo tempo, disposta a proteger com a própria vida, essa pessoa era Raven.






