cap-02

— A CARTA

Por alguns instantes, Elara permaneceu imóvel.

O envelope descansava sobre suas mãos, pesado demais para conter apenas algumas folhas de papel. Passou os dedos pelo lacre de cera escura, observando o desenho gravado nele. Não reconheceu o símbolo. Também não havia remetente.

Respirou fundo.

Com cuidado, rompeu o lacre.

O papel cedeu sem dificuldade.

Dentro havia uma única folha, dobrada três vezes.

Ela a retirou lentamente e começou a ler.

«À senhorita Elara Noctravayne,

Se esta carta chegou até você, significa que o tempo já não está ao meu lado.

Meu nome é Margaret Noctravayne.

Talvez nunca tenha ouvido falar de mim.

Ainda assim, sou a última pessoa de sua família.»

Elara interrompeu a leitura.

Voltou ao início da página e releu aquelas últimas palavras.

A última pessoa de sua família.

Sentiu um aperto estranho no peito.

Durante dezoito anos, acreditara que estava sozinha no mundo.

Nunca imaginou que alguém ainda carregasse o mesmo sobrenome.

Continuou lendo.

«Durante muito tempo procurei uma maneira de encontrá-la.

Quando finalmente consegui, meu estado de saúde já não me permitia fazer a viagem até Asmevil.

Por isso escrevo esta carta.»

Os olhos de Elara percorriam cada linha com atenção crescente.

Pela primeira vez desde que deixara o orfanato, alguém parecia conhecer sua existência.

E isso, por si só, já era difícil de acreditar.

Elara respirou fundo antes de continuar.

«Talvez você tenha passado boa parte da vida acreditando que foi esquecida.

Se isso aconteceu, peço que me perdoe.

Houve um tempo em que procurei por você, mas pessoas muito mais poderosas do que eu impediram que a encontrasse. Quando finalmente descobri onde estava, os anos já haviam cobrado um preço alto demais.

Não tive a oportunidade de vê-la crescer.

Também não estive presente nos momentos em que você mais precisou de alguém.

Esse é um arrependimento que levarei comigo até o fim.»

As mãos de Elara tremiam discretamente.

Ela precisou interromper a leitura outra vez.

Não porque não entendesse as palavras.

Mas porque nunca imaginou que alguém pudesse lamentar sua ausência.

Desde criança, aprendera a conviver com a ideia de que ninguém sentia sua falta. Cresceu vendo outras crianças deixarem o orfanato ao lado de famílias que sorriam ao reencontrá-las, enquanto ela permanecia observando tudo de longe, tentando convencer a si mesma de que aquilo já não importava.

Agora, uma mulher que nunca conhecera dizia exatamente o contrário.

Piscou algumas vezes antes de voltar os olhos para a carta.

«Talvez eu já não esteja viva quando esta carta chegar às suas mãos.

Se isso aconteceu, não chore por mim.

Chore apenas pelo tempo que nos foi roubado.

Há coisas que nem mesmo uma vida inteira consegue devolver.»

Elara abaixou lentamente a folha.

O quarto parecia menor do que alguns minutos antes.

Do lado de fora, o movimento da taberna continuava como sempre. Alguém arrastava um barril pelo corredor, vozes atravessavam as paredes e o som de copos se chocando anunciava o início de mais uma noite de trabalho.

Ali dentro, porém, o tempo parecia ter parado.

Ela levou a mão ao próprio sobrenome, escrito no alto da carta.

Noctravayne.

Durante dezoito anos, aquele nome não significara nada além de algumas letras em um documento.

Pela primeira vez, ele parecia carregar uma história.

E Elara queria conhecê-la.

Elara voltou a erguer a carta.

A tinta já estava um pouco apagada em alguns trechos, como se o tempo também tivesse deixado suas marcas naquele papel. Ainda assim, a letra permanecia firme.

«Sei que, neste momento, você deve estar se perguntando por que nunca apareci.

Também deve estar tentando entender por que passou tantos anos acreditando que não havia mais ninguém da sua família.

Gostaria de poder responder a todas essas perguntas.

Infelizmente, algumas verdades não cabem em uma carta.»

Elara sentiu um leve aperto no peito.

Era exatamente isso que queria.

Respostas.

Durante toda a vida aprendera a conviver com perguntas sem solução. Não sabia quem haviam sido seus pais antes do acidente. Nunca soube por que ninguém aparecera para buscá-la no orfanato. Em alguns momentos chegou até a imaginar que talvez fosse a única Noctravayne que ainda existia.

Continuou lendo.

«Houve um tempo em que acreditei estar protegendo você ao permanecer distante.

Hoje compreendo que o silêncio também machuca.

Se pudesse voltar atrás, faria muitas escolhas diferentes.»

Os olhos de Elara permaneceram presos àquelas palavras.

Não havia como saber se Margaret dizia a verdade.

Também não havia motivo para imaginar que estivesse mentindo.

Aquela mulher não lhe pedia dinheiro, favores ou qualquer coisa em troca.

Escrevia apenas para lhe deixar algo que parecia carregar durante muitos anos.

«Ainda existe um lugar onde o nome Noctravayne continua vivo.

Esse lugar se chama Grinvale.»

Elara repetiu o nome em silêncio.

Grinvale.

Jamais o ouvira antes.

Procurou na memória alguma lembrança das aulas de geografia, algum mapa pendurado na sala de aula ou uma conversa qualquer na taberna.

Nada.

Era como se aquela cidade jamais tivesse existido.

Então seus olhos encontraram a última parte daquela página.

«Se decidir ir até lá, encontrará muito mais do que uma casa.

Encontrará a história que lhe foi tirada antes mesmo que tivesse idade para compreendê-la.»

Elara baixou lentamente a carta.

Pela primeira vez desde que deixara o orfanato, a ideia de possuir um passado deixava de parecer um sonho impossível.

Talvez, em algum lugar além das montanhas que cercavam Asmevil, existisse alguém capaz de responder às perguntas que a acompanharam por toda a vida.

Elara permaneceu alguns instantes em silêncio antes de voltar à leitura.

As últimas linhas ocupavam quase toda a metade inferior da folha. A caligrafia continuava firme, mas havia pequenos borrões de tinta que denunciavam as pausas feitas durante a escrita.

«Se você decidir ignorar esta carta, compreenderei.

Passei tempo demais longe para ter o direito de exigir qualquer coisa de você.

Mas, se ainda existir em seu coração a vontade de descobrir quem realmente é, peço que venha até Grinvale.

A Mansão Noctravayne pertence à nossa família há muitas gerações.

Agora, ela pertence a você.»

Elara leu aquela frase duas vezes.

Depois uma terceira.

A palavra mansão lhe pareceu completamente deslocada da realidade que conhecia.

Ela morava em um quarto pequeno nos fundos de uma taberna.

Nunca atravessara os portões de uma propriedade daquele tamanho, nem conhecera alguém que pudesse dizer que era dono de uma.

Continuou lendo.

«Quando chegar, procure pela biblioteca.

Há uma pequena chave junto a esta carta.

Guarde-a com cuidado.

Ela abrirá a primeira porta da nossa história.»

Elara olhou novamente para o envelope.

Com delicadeza, passou os dedos por dentro dele.

Sentiu algo metálico tocar sua mão.

Retirou uma pequena chave de bronze.

Era antiga, um pouco mais pesada do que imaginava e trazia uma única palavra gravada no arco.

Biblioteca.

Ela permaneceu observando a chave durante alguns segundos.

Não era um objeto valioso.

Também não parecia especial.

Ainda assim, por algum motivo, teve a impressão de que alguém a segurara durante muitos anos antes de chegar até suas mãos.

Voltou a guardá-la sobre a cama e retomou a leitura da carta.

Restavam apenas algumas linhas.

Sem perceber, respirou mais fundo.

Já não sabia se desejava que aquela carta terminasse ou continuasse por mais algumas páginas.

Pela primeira vez na vida, alguém parecia conhecê-la antes mesmo de vê-la.Elara voltou os olhos para as últimas linhas da carta.

«Não posso prometer que encontrará apenas respostas.

Algumas delas podem ser mais difíceis do que imagina.

Ainda assim, acredito que toda pessoa merece conhecer a própria história.

Se decidir vir, peça uma passagem para Grinvale.

Você será recebida na Mansão Noctravayne.

Espero que, um dia, consiga me perdoar pelo tempo que nos foi roubado.

Com carinho,

Margaret Noctravayne.»

A carta terminou.

Durante alguns minutos, Elara permaneceu sentada na beira da cama, incapaz de desviar os olhos daquela assinatura.

Margaret.

Até poucas horas atrás, aquele nome não significava absolutamente nada.

Agora era a única ligação que possuía com um passado que nunca conhecera.

Dobrou a folha com o mesmo cuidado com que a havia aberto e tornou a guardá-la dentro do envelope. Em seguida, pegou a pequena chave de bronze e a fechou na palma da mão.

Era fria.

Pesada.

Real.

Tudo aquilo parecia grande demais para ser compreendido em uma única tarde.

A batida de alguém na porta a fez erguer a cabeça.

— Elara! — gritou John do outro lado. — Os clientes já estão chegando.

Ela respirou fundo, guardou a carta e a chave dentro da mochila e levantou-se.

Naquela noite, serviu bebidas, recolheu pratos e limpou mesas como fazia todos os dias. Sorriu quando era necessário, respondeu aos pedidos dos clientes e suportou as reclamações de John sem dizer uma palavra.

Mas sua mente permanecia distante.

Entre um pedido e outro, imaginava como seria Grinvale.

Quem teria sido Margaret.

E por que aquela mulher acreditava que a Mansão Noctravayne agora lhe pertencia.

Quando a taberna finalmente fechou e o silêncio voltou a ocupar o salão, Elara retornou ao pequeno quarto.

Sentou-se novamente na cama.

Retirou o envelope da mochila.

Ficou olhando para ele durante alguns instantes.

Pela primeira vez em muitos anos, não pensava apenas em sobreviver ao dia seguinte.

Pensava em partir.

Talvez, além das montanhas que cercavam Asmevil, existisse mais do que uma cidade desconhecida.

Talvez existisse um lugar onde seu sobrenome finalmente significasse alguma coisa.

Naquela noite, antes de apagar a luz, Elara tomou uma decisão.

Ela iria para Grinvale.

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