cap-03

— A PARTIDA

Na manhã seguinte, Elara despertou antes mesmo do despertador tocar.

Dormira pouco. Sempre que fechava os olhos, lembrava-se da carta dobrada dentro da mochila e da pequena chave de bronze repousando sobre a mesa ao lado da cama. Em mais de uma ocasião teve vontade de acender a lamparina e reler tudo outra vez, apenas para ter certeza de que não havia imaginado aquelas palavras.

Mas a carta continuava ali.

E a decisão também.

Vestiu-se em silêncio e guardou a chave no bolso do casaco antes de dobrar cuidadosamente o envelope. Pela primeira vez, arrumou seus poucos pertences pensando que não voltaria a usá-los naquele quarto por muito tempo.

Olhou ao redor.

Havia tão pouco que pudesse chamar de seu que a arrumação terminou em poucos minutos.

Algumas peças de roupa.

Dois cadernos da escola.

Um livro de gramática já bastante gasto.

Uma fotografia antiga dos pais, tão desbotada que seus rostos quase desapareciam.

Segurou a fotografia por alguns instantes.

Era a única lembrança concreta que possuía deles.

Não sabia quem haviam sido antes do acidente. Não conhecia suas vozes, suas histórias ou o lugar onde estavam enterrados. Às vezes se perguntava se ainda seria capaz de reconhecê-los caso encontrasse um retrato mais nítido.

Guardou a fotografia entre as páginas do caderno e fechou a mochila.

Antes de sair, lançou um último olhar ao pequeno quarto.

Durante quatro anos, aquele espaço apertado fora o único lugar que pudera chamar de casa.

Nunca gostou dele.

Mas era onde terminavam todos os seus dias.

Respirou fundo, apagou a lamparina e abriu a porta.

Ainda havia muito a fazer antes de deixar Asmevil para trás.

O salão da Taberna Ascaban ainda estava vazio quando Elara atravessou a porta.

John já organizava algumas garrafas atrás do balcão. Ao ouvir os passos, levantou os olhos por um instante e voltou ao trabalho.

— Hoje acordou cedo.

— Precisava conversar com o senhor.

Ele continuou alinhando as garrafas na prateleira.

— Pode falar.

Elara respirou fundo.

Ensaiara aquelas palavras durante boa parte da madrugada, mas agora pareciam muito mais difíceis de dizer.

— Vou deixar a taberna.

As mãos de John pararam por um instante.

Ele voltou o rosto para ela, como se tentasse entender se havia ouvido direito.

— Vai embora?

— Vou.

— Arrumou outro trabalho?

Ela hesitou por um segundo.

— Não exatamente.

John permaneceu em silêncio. Pegou um pano sobre o balcão e começou a limpar uma caneca que já estava limpa.

— E para onde pretende ir?

— Uma cidade chamada Grinvale.

O nome pareceu não lhe dizer muita coisa.

— Fica longe?

— Acho que sim.

Ele soltou um breve suspiro.

— Quando pretende partir?

— Hoje, se conseguir comprar a passagem.

John apoiou a caneca sobre o balcão.

Durante alguns segundos, observou a jovem que trabalhava ali desde os quatorze anos. Parecia a mesma menina magra que chegara carregando uma mochila surrada, mas havia algo diferente em seu olhar.

Pela primeira vez, ela parecia saber para onde estava indo.

— Então termine de arrumar suas coisas.

Elara o encarou surpresa.

Esperava perguntas.

Talvez uma reclamação.

Ou até que ele descontasse aquele dia do salário.

John abriu a gaveta do caixa, contou algumas moedas e estendeu a mão.

— Ainda estou devendo parte da semana passada.

Ela olhou para o dinheiro sem reagir.

— Pode pegar.

Com cuidado, recolheu as moedas.

Agradeceu em voz baixa.

John apenas fez um gesto com a cabeça.

— Espero que encontre o que está procurando.

Elara sorriu de maneira discreta.

— Eu também.

Sem mais palavras, voltou para o quarto nos fundos da taberna.

Enquanto dobrava as poucas roupas que ainda restavam no armário, percebeu que, pela primeira vez desde que chegara àquele lugar, estava arrumando as malas porque queria partir.

E isso fazia toda a diferença.Elara levou a mochila até a cama e começou a guardar o pouco que ainda restava no quarto.

Não demorou muito.

Algumas peças de roupa, dois cadernos, um livro que comprara usado na escola e uma fotografia antiga dos pais. O porta-retrato de madeira já estava desgastado pelo tempo, e a imagem havia perdido parte das cores. Mesmo assim, ela o envolveu com cuidado em um pedaço de tecido antes de colocá-lo entre as roupas.

Parou por um instante e olhou ao redor.

Durante quatro anos, aquele quarto fora o único lugar onde podia ficar sozinha. Era pequeno, frio durante o inverno e quente demais no verão. Quando chovia, a água encontrava um jeito de atravessar o telhado, e ela precisava colocar uma bacia ao lado da cama para não acordar com o colchão molhado.

Ainda assim, aprendera a chamar aquele espaço de lar.

Talvez porque não tivesse outro.

Fechou o armário, passou a mão sobre a madeira da porta e soltou um sorriso quase imperceptível.

Não sentiria saudade do quarto.

Mas lembraria da menina que chegara ali aos quatorze anos, assustada, sem saber como sobreviver sozinha. Aquela menina aceitava qualquer coisa porque acreditava não merecer mais do que aquilo.

A jovem que agora fechava a mochila já não pensava da mesma forma.

Pegou a chave do quarto e caminhou até o balcão.

John levantou os olhos quando ela estendeu a pequena chave de ferro.

— Não vai mais precisar dela.

Ele a recebeu sem dizer nada.

Guardou-a na gaveta e tornou a fechá-la.

— A estação fica cheia no fim da tarde. Se pretende viajar hoje, é melhor não demorar.

Elara assentiu.

Ajustou a mochila nos ombros e lançou um último olhar para o salão da taberna. As mesas continuavam nos mesmos lugares, o balcão conservava as marcas deixadas pelos anos e o cheiro de café recém-passado misturava-se ao da madeira antiga.

Tudo permaneceria igual depois que ela fosse embora.

Só ela seguiria outro caminho.

Empurrou a porta de entrada.

O vento da tarde encontrou seu rosto assim que colocou os pés na rua.

Sem olhar para trás, começou a caminhar em direção à estação.

Pela primeira vez, não estava indo para a escola nem voltando para o trabalho.

Estava caminhando ao encontro de um lugar que conhecia apenas pelo nome.

Grinvale.

A estação ficava do outro lado da cidade.

Elara seguiu pelas ruas no mesmo ritmo tranquilo de sempre, embora soubesse que aquela seria a última vez que faria aquele caminho. O movimento da tarde começava a aumentar. Comerciantes anunciavam mercadorias na porta das lojas, crianças corriam pela praça e algumas carroças dividiam espaço com as poucas carruagens que cruzavam Asmevil.

Tudo permanecia igual.

Era estranho pensar que a vida de uma cidade continuava sem se importar com quem chegava ou partia.

Ao passar pela escola, diminuiu o passo.

Os portões já estavam fechados e o pátio permanecia vazio. Durante anos, aquele lugar representara muito mais do que um espaço de estudos. Era onde ela podia esquecer, por algumas horas, o cheiro constante da cerveja, o barulho da taberna e o cansaço que carregava desde a adolescência.

Apoiou a mão sobre o velho portão de ferro.

Sorriu discretamente.

Talvez nunca mais voltasse ali.

Continuou caminhando.

Mais adiante, a pequena biblioteca apareceu entre as árvores da praça. A bibliotecária organizava alguns livros perto da janela e acenou ao reconhecê-la.

Elara respondeu ao gesto com um sorriso.

Não entrou.

Se o fizesse, provavelmente perderia a coragem de partir.

Seguiu em frente.

A estação já podia ser vista ao final da avenida. A antiga construção de tijolos avermelhados parecia maior do que ela se lembrava, e a fumaça escura da locomotiva subia lentamente, espalhando-se pelo céu.

O apito do trem ecoou pela cidade.

Elara apertou involuntariamente a alça da mochila.O funcionário conferiu a passagem mais uma vez antes de devolvê-la.

— Terceiro vagão. Pode embarcar.

Elara agradeceu com um leve movimento de cabeça e segurou a mochila junto ao corpo. À medida que se aproximava da locomotiva, o coração parecia bater um pouco mais forte. Nunca havia viajado de trem. Até então, o mundo que conhecia terminava nos limites de Asmevil.

Subiu os degraus devagar.

O cheiro de madeira envernizada misturado ao vapor da locomotiva tomou conta do ambiente. Passageiros caminhavam pelo corredor procurando seus lugares, alguns acomodavam malas nas prateleiras, outros se despediam pela janela antes do último apito.

Ela observava tudo com curiosidade.

Era a primeira vez, em muitos anos, que se sentia completamente perdida.

E, estranhamente, aquilo não lhe causava medo.

Seguiu pelo corredor procurando o número indicado em sua passagem. Quando finalmente encontrou seu assento, acomodou a mochila ao lado das pernas e sentou-se perto da janela.

Do lado de fora, Asmevil continuava seguindo sua rotina.

As carroças cruzavam as ruas.

Os comerciantes atendiam seus primeiros clientes.

As pessoas caminhavam apressadas sem imaginar que, para uma jovem de dezoito anos, aquela manhã marcava o fim de uma vida inteira.

Elara apoiou a testa contra o vidro frio da janela.

Pensou no orfanato.

Pensou na taberna.

Pensou em John.

Pensou na escola que talvez nunca mais visse.

Depois levou a mão ao bolso do casaco.

A pequena chave de bronze continuava ali.

Fechou os dedos ao redor dela por alguns instantes, como se aquele simples gesto fosse suficiente para lhe dar coragem.

O apito da locomotiva ecoou pela estação.

Lentamente, o trem começou a se mover.

Asmevil foi ficando para trás.

Pela primeira vez desde que perdera os pais, Elara não caminhava em direção ao que conhecia.

Seguia ao encontro de um passado que nunca lhe pertencerá... e de um futuro que ainda não fazia ideia de como mudaria sua vida.

A carta de Margaret permanecia guardada em segurança, junto da pequena chave de bronze.

Respirou fundo.

Faltavam apenas alguns passos.

Depois deles, não haveria mais caminho de volta.

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