SOB A SOMBRA DELE
SOB A SOMBRA DELE
Por: J.Nectravayne
cap-01

CAPÍTULO 1

pov: Elara

Algumas pessoas aprendem, desde muito cedo, que o mundo raramente pede permissão antes de lhes retirar algo.

Elara Noctravayne, aos dezoito anos, fazia parte desse grupo.

Já não recordava com nitidez o rosto dos pais. Conservava apenas fragmentos dispersos da infância: uma voz distante chamando seu nome, uma mão que a conduzia durante uma caminhada e o perfume suave que sua mãe costumava usar. Todo o restante se perdera com o tempo, diluído pelos anos e por lembranças que insistiam em desaparecer.

Disseram-lhe que haviam morrido em um acidente quando ela ainda era criança.

Nunca lhe explicaram, contudo, o que de fato ocorrera.

No início, Elara questionava.

Após ouvir repetidamente a mesma resposta — “você era pequena demais para compreender” —, deixou de insistir.

O orfanato tornou-se sua residência.

Não por oferecer acolhimento, mas por não haver alternativa. Cresceu compartilhando dormitórios, roupas doadas e brinquedos desgastados com dezenas de crianças que, assim como ela, aguardavam por alguém que jamais chegava.

Algumas eram adotadas.

Outras retornavam para parentes distantes.

Elara permanecia.

Com o passar dos anos, deixou de correr até o portão sempre que um carro estacionava do lado de fora. Também abandonou a ideia de que algum parente desconhecido surgiria para corrigir um suposto engano e finalmente levá-la consigo.

Ninguém apareceu.

Ao completar quatorze anos, precisou deixar o orfanato.

Recebeu uma pequena mochila com algumas roupas usadas, um documento de identidade e votos de boa sorte que soavam mais como uma despedida apressada do que como o início de uma nova etapa.

Na mesma semana, conseguiu trabalho na Taberna Ascaban.

John, o proprietário, permitiu que ela ocupasse um pequeno quarto nos fundos do estabelecimento. Em contrapartida, trabalhava até tarde da noite, limpando mesas, atendendo clientes e executando qualquer tarefa necessária.

O salário era baixo.

Frequentemente insuficiente.

Em muitos dias, sua única refeição consistia nas sobras deixadas nos pratos após a saída dos clientes.

Ainda assim, Elara não se queixava.

Aprendera cedo que reclamações não saciam a fome.

Durante o dia, frequentava a escola municipal de Asmevil. À noite, vestia o avental já desgastado pelo uso e dirigia-se à taberna.

A rotina repetia-se quase sem variações.

Escola.

Trabalho.

Quarto.

E então tudo recomeçava.

Havia noites em que, antes de dormir, permanecia observando pela pequena janela do quarto. Dali, era possível ver apenas os telhados da cidade e uma fração do céu, mas ela gostava de imaginar que existia um mundo muito mais vasto além das montanhas que cercavam Asmevil.

Nunca compartilhou esse pensamento com ninguém.

Os habitantes daquela cidade pareciam satisfeitos em nascer, viver e morrer no mesmo lugar.

Elara não.

Não sabia exatamente o que buscava.

Mas tinha plena convicção de que sua vida não poderia se limitar àquele destino.

O despertador improvisado sobre a pequena mesa de madeira marcava cinco horas quando Elara abriu os olhos. O quarto era estreito o bastante para acomodar apenas uma cama de solteiro, uma cadeira antiga e um armário de portas empenadas que insistiam em não fechar direito. As paredes guardavam manchas de umidade e, nos dias mais frios, o vento atravessava as frestas da janela como se também morasse ali.

Ela permaneceu deitada por alguns instantes, observando o teto desgastado. O corpo ainda reclamava do trabalho da noite anterior. As pernas doíam, os braços estavam pesados e havia um pequeno corte na palma da mão, consequência de um copo quebrado que recolhera às pressas antes do fechamento da taberna.

Não havia tempo para descansar.

Vestiu o uniforme da escola, prendeu os cabelos em um coque simples e lavou o rosto com a água fria da pequena bacia ao lado da porta. O espelho rachado devolveu a imagem de uma jovem que parecia mais velha do que realmente era. As olheiras denunciavam noites mal dormidas, mas seus olhos conservavam um brilho discreto que ela mesma não sabia explicar.

Talvez fosse esperança.

Ou apenas teimosia.

Ao sair do quarto, atravessou o corredor estreito que ligava os fundos da taberna ao salão principal. Naquele horário, o lugar estava silencioso. As mesas ainda permaneciam desalinhadas da noite anterior, e o cheiro de cerveja misturado ao da madeira úmida parecia impregnado nas paredes.

John já estava de pé atrás do balcão, conferindo algumas anotações em um caderno de capa gasta.

— Dormiu demais hoje — comentou sem levantar a cabeça.

Elara lançou um rápido olhar para o velho relógio preso à parede.

Ainda faltavam cinco minutos para o horário combinado.

Preferiu não responder.

Pegou um pano limpo e começou a organizar as mesas antes mesmo que ele pedisse. Já conhecia John o suficiente para saber que qualquer tentativa de discussão terminaria com um desconto no salário, e cada moeda fazia falta no fim do mês.

Quando terminou, dirigiu-se à porta.

— Volto depois da aula.

John apenas fez um gesto com a mão, sem desviar a atenção do caderno.

Do lado de fora, Asmevil despertava lentamente. Algumas lojas abriam as portas, padeiros carregavam cestos de pão ainda quente e crianças caminhavam apressadas em direção à escola, acompanhadas pelos pais.

Elara seguiu pelo mesmo caminho de sempre.

Sozinha.

Era uma sensação à qual já estava acostumada.

Mesmo cercada por tantas pessoas, nunca deixava de sentir que caminhava por uma cidade onde ninguém realmente conhecia seu nome.

A escola ficava a quase vinte minutos de caminhada da taberna. Elara conhecia cada rua daquele percurso, cada calçada irregular e cada fachada antiga que parecia resistir ao tempo. Havia dias em que fazia o caminho inteiro sem trocar uma única palavra com ninguém.

Naquela manhã não foi diferente.

Passou pela pequena praça da cidade, onde alguns idosos já ocupavam os bancos de madeira para conversar antes que o movimento aumentasse. Mais adiante, uma florista organizava vasos coloridos na entrada da loja, enquanto o padeiro retirava do forno os primeiros pães do dia. O cheiro se espalhava pela rua e fazia o estômago de Elara reclamar baixinho.

Ela levou a mão ao bolso do casaco.

Encontrou apenas algumas moedas.

Contou uma por uma.

O dinheiro mal seria suficiente para voltar para casa de carruagem em um dia de chuva. Gastá-lo com comida significava correr o risco de precisar fazer todo o caminho a pé quando saísse da taberna naquela noite.

Guardou as moedas novamente e continuou andando.

Já estava acostumada a negociar com a própria fome.

Ao chegar à escola, misturou-se aos outros alunos que atravessavam o portão principal. Conversas animadas preenchiam o pátio. Alguns reclamavam das provas da semana, outros faziam planos para o fim de semana ou comentavam festas das quais Elara nunca ouvira falar.

Ela caminhava entre eles sem realmente fazer parte daquele grupo.

Cumprimentava um ou outro colega quando cruzavam seu caminho, mas as conversas quase sempre terminavam em poucas palavras. Não era por antipatia. A rotina de trabalho deixava pouco espaço para amizades, e a maioria dos alunos parecia viver uma realidade distante da sua.

Enquanto subia a escada para a sala de aula, pensou em como seria a própria vida se tivesse tempo para se preocupar apenas com os estudos.

Talvez fosse um pensamento ingênuo.

Ainda assim, era um dos poucos luxos que ela se permitia.

As aulas passaram devagar.

Elara esforçava-se para prestar atenção, copiando cada anotação que o professor escrevia no quadro. Gostava de estudar. Não porque as matérias fossem fáceis, mas porque, durante aquelas poucas horas, conseguia acreditar que sua vida ainda podia seguir um caminho diferente.

Enquanto muitos colegas reclamavam dos exercícios ou contavam os minutos para o sinal tocar, ela fazia perguntas, anotava explicações e guardava com cuidado as folhas preenchidas ao longo da manhã. Sabia que dificilmente teria dinheiro para ingressar em uma universidade, mas recusava-se a usar isso como desculpa para desistir antes mesmo de tentar.

Quando a última aula terminou, a sala esvaziou rapidamente.

Alguns alunos saíram em grupos, rindo de alguma piada que Elara não ouviu. Outros seguiram para casa, onde provavelmente encontrariam o almoço esperando sobre a mesa.

Ela permaneceu alguns minutos organizando o material.

Não havia ninguém à sua espera.

Ao deixar a escola, caminhou até a pequena biblioteca pública de Asmevil. O prédio era antigo e modesto, mas aquele era, de longe, seu lugar favorito na cidade.

O cheiro dos livros antigos, o silêncio entre as estantes e a luz que atravessava as janelas altas faziam com que o tempo parecesse passar mais devagar ali dentro.

Sempre que podia, passava alguns minutos lendo antes de seguir para a taberna.

Naquela tarde, escolheu um livro sobre universidades da capital. Folheou as páginas com cuidado, observando fotografias de prédios enormes, salas de aula iluminadas e bibliotecas muito maiores do que qualquer coisa que já tivesse visto.

Sorriu sem perceber.

Gostava de imaginar como seria estudar em um lugar daqueles.

Talvez encontrasse um trabalho melhor.

Talvez alugasse um pequeno apartamento.

Talvez, pela primeira vez, pudesse viver sem depender da boa vontade de ninguém.

Fechou o livro devagar.

Sonhar era gratuito.

E, até aquele momento, era a única coisa que ninguém conseguira tirar dela.

O tempo que passava na biblioteca era sempre menor do que gostaria.

Quando o velho relógio preso à parede marcou o início da tarde, Elara fechou o livro com cuidado e o devolveu à estante. Ainda precisava atravessar a cidade antes que John começasse a reclamar do atraso.

Ao deixar a escola, seguiu pelas ruas de Asmevil no mesmo ritmo de todos os dias. Cumprimentou a senhora que vendia flores na esquina, desviou de uma carroça carregada de feno e atravessou a pequena praça onde algumas crianças brincavam despreocupadas.

Nada parecia diferente.

Ao chegar à Taberna Ascaban, encontrou John descarregando algumas caixas perto da entrada.

Assim que a viu, apontou com a cabeça para o balcão.

— Tem uma coisa para você.

Elara franziu a testa.

— Para mim?

— Foi o que disseram.

Sobre o balcão havia um envelope grosso, de papel envelhecido, lacrado com cera escura. Não trazia brasões chamativos nem qualquer detalhe que chamasse atenção à primeira vista. Apenas seu nome, escrito com uma caligrafia firme e elegante.

Elara Noctravayne.

Ela permaneceu alguns segundos olhando para o envelope.

Ninguém lhe escrevia cartas.

Na verdade, não conseguia se lembrar da última vez que alguém havia escrito seu nome daquela forma, com tanto cuidado.

— Vai ficar parada olhando ou pretende abrir isso? — resmungou John enquanto empilhava outra caixa.

Elara pegou o envelope devagar.

O papel era frio ao toque.

Virou-o procurando algum remetente.

Não encontrou.

Apenas o próprio nome.

Levou o envelope consigo até o pequeno quarto nos fundos da taberna.

Fechou a porta.

Sentou-se na beira da cama.

Por alguns instantes, ficou apenas observando aquele objeto estranho repousando entre suas mãos.

Sem saber que, dentro dele, havia uma carta capaz de mudar completamente o rumo da sua vida.

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