Mundo de ficçãoIniciar sessãoCAPÍTULO 7
O Primeiro Encontro O trem já havia percorrido alguns quilômetros quando Lucien deixou o corredor entre os vagões e entrou na ala das cabines. O movimento era menor ali. As conversas ficavam abafadas pelas portas fechadas, misturando-se ao ruído constante das rodas deslizando sobre os trilhos. De vez em quando, o vagão balançava um pouco mais forte, obrigando os passageiros a diminuir o passo. Lucien retirou a passagem do bolso do casaco. Conferiu o número. Caminhou mais alguns metros. Parou diante de uma porta de madeira escura. Olhou novamente para o papel. Depois para a pequena placa de metal presa acima da maçaneta. Era a cabine correta. Mesmo assim, permaneceu imóvel por um instante. Sabia que dificilmente viajaria sozinho. Ainda assim, a ideia de dividir aquele espaço com um desconhecido lhe causava um desconforto silencioso. Respirou fundo antes de erguer a mão. Bateu duas vezes, sem força. Do lado de dentro, a resposta demorou alguns segundos. — Pode entrar. A voz era baixa. Calma. Lucien girou a maçaneta com cuidado. A porta se abriu sem fazer barulho. A cabine era pequena, iluminada pela luz cinzenta que atravessava a janela. Havia apenas dois bancos estofados, um de frente para o outro, um bagageiro acima das janelas e uma pequena mesa dobrável presa à parede. A única passageira já estava ali. Sentada junto à janela, mantinha o olhar voltado para a paisagem que passava depressa do lado de fora. Nem sequer levantou a cabeça quando ele entrou. Lucien permaneceu parado perto da porta. Não queria interromper aquele silêncio, mas também não fazia sentido continuar ali. — Com licença... A jovem finalmente desviou os olhos da janela. O olhar encontrou o dele por apenas um instante. Não havia surpresa. Nem simpatia. Era apenas a reação natural de quem fora interrompida durante uma viagem. Lucien mostrou discretamente a passagem. — Acho que este é o meu lugar. Ela observou o bilhete por um momento e fez um leve gesto afirmativo. — É, sim. A resposta foi educada, mas breve. Ela voltou a olhar pela janela. Lucien entrou de vez na cabine e fechou a porta atrás de si. Por um momento, teve a impressão de que qualquer movimento faria mais barulho do que deveria. Sem dizer outra palavra, caminhou até o bagageiro, segurando a mala com ambas as mãos. O trem balançou levemente. Ele esperou o movimento diminuir antes de tentar acomodá-la. Naquele instante, os dois ainda eram apenas estranhos dividindo o mesmo espaço. E nenhum deles imaginava que aquela viagem seria lembrada pelo resto da vida. Lucien ergueu a mala com cuidado. Por um instante, pensou que conseguiria acomodá-la sem dificuldade, mas o trem entrou em uma curva mais fechada e o vagão balançou de repente. A mala escorregou de suas mãos. Ele conseguiu segurá-la antes que caísse no chão, embora a quina tivesse batido de leve na estrutura do bagageiro. O ruído ecoou pela cabine. — Desculpe. As palavras escaparam quase por reflexo. A jovem voltou o rosto na direção dele. — Não tem problema. Lucien respirou discretamente, ajeitou a mala no compartimento e certificou-se de que ela estava firme antes de se sentar. A cabine voltou ao silêncio. Do lado de fora, os campos passavam depressa pela janela, interrompidos de vez em quando por pequenos bosques e cercas de madeira que desapareciam tão rápido quanto surgiam. Lucien apoiou os braços sobre as pernas. Não era um homem de iniciar conversas com desconhecidos, mas permanecer completamente calado também lhe parecia estranho. Olhou rapidamente para a janela à sua frente. O reflexo do vidro mostrava a silhueta da jovem do outro lado da cabine. Ela continuava observando a paisagem, completamente absorta. Talvez estivesse cansada. Ou simplesmente não tivesse vontade de conversar. Lucien decidiu respeitar aquele silêncio. Elara, por sua vez, percebeu que o rapaz havia desistido de dizer qualquer coisa. Achou curioso. A maioria das pessoas tentava preencher viagens longas com perguntas sem importância ou comentários sobre o tempo. Ele não. Limitava-se a permanecer sentado, como se entendesse que algumas companhias não precisavam de palavras o tempo todo. Aquilo lhe pareceu inesperado. O trem voltou a balançar. Desta vez com mais suavidade. Lucien tirou um livro da pasta de couro e o colocou sobre o colo, mas não o abriu. Ficou alguns segundos olhando para a capa, distraído. Elara acompanhou o movimento apenas pelo canto dos olhos. Depois voltou a encarar a janela. Os dois permaneceram em silêncio. Não havia constrangimento. Também não existia intimidade. Apenas duas pessoas que, por razões completamente diferentes, viajavam em direção ao mesmo lugar sem imaginar que suas histórias começavam a se aproximar naquele instante. Os minutos passaram sem que nenhum dos dois dissesse uma palavra. O balanço constante do trem acabava impondo um ritmo próprio à viagem. Em alguns trechos, os vagões deslizavam suavemente pelos trilhos; em outros, pequenas vibrações percorriam o assoalho e faziam as janelas estremecerem por um instante. Lucien abriu o livro que trazia consigo. Leu a mesma linha duas vezes. Na terceira, percebeu que não fazia ideia do que estava escrito. Fechou-o novamente. A paisagem chamava mais atenção do que qualquer página. Do lado de fora, o céu permanecia encoberto. A chuva fina voltara a cair, desenhando pequenos caminhos sobre o vidro da janela. Foi Elara quem rompeu o silêncio, quase sem perceber. — Parece que vai chover o caminho inteiro. Lucien voltou o rosto na direção dela. Olhou rapidamente para a janela antes de responder. — Também tive essa impressão. A conversa poderia ter terminado ali. E talvez terminasse, se o vendedor que atravessava o corredor não tivesse parado diante da cabine naquele exato momento. — Café... chá... biscoitos... A porta foi aberta apenas o suficiente para que a voz entrasse. Lucien agradeceu com um gesto discreto. Elara recusou da mesma forma. O vendedor seguiu adiante, repetindo o anúncio pelas outras cabines. Quando a porta tornou a se fechar, o silêncio voltou. Mas já não era exatamente o mesmo. Lucien apoiou o cotovelo na janela. — Essa viagem é longa? Elara demorou um instante para responder. — Nunca fiz esse percurso. Ele fez um leve aceno com a cabeça. — Eu também não. As palavras foram poucas. Ainda assim, bastaram para desfazer parte da distância que existia entre os dois. Nenhum deles perguntou o nome do outro. Nenhum quis saber de onde vinham. Havia uma espécie de acordo silencioso em respeitar o espaço que dividiam. Do lado de fora, o trem atravessou uma pequena ponte de ferro. O som das rodas mudou por alguns segundos, tornando-se mais alto antes de voltar ao ritmo habitual. Elara acompanhou o rio que desaparecia sob a estrutura. Lucien voltou a abrir o livro. Dessa vez conseguiu ler algumas páginas. A cabine permaneceu tranquila. E, pela primeira vez desde que embarcaram, a presença um do outro deixou de parecer um incômodo para se tornar apenas parte da viagem. O tempo avançava sem pressa. A chuva aumentou aos poucos, transformando a paisagem do lado de fora em manchas esverdeadas que desapareciam atrás do vidro molhado. Em alguns trechos, o trem diminuía a velocidade para vencer as curvas; em outros, retomava o ritmo constante, embalando os passageiros num movimento quase hipnótico. Lucien fechou o livro mais uma vez. Dessa vez não por falta de concentração. Os olhos estavam cansados de acompanhar as mesmas linhas. Levantou-se discretamente. — Com licença. Elara recolheu os pés para lhe dar passagem. Ele atravessou o corredor estreito da cabine e saiu por alguns minutos. Quando voltou, trazia duas canecas de metal. Parou por um instante, parecendo hesitar. — Trouxe café... mas acho que exagerei. Se você quiser... Estendeu uma das canecas. Elara olhou para o café fumegante. Depois para ele. — Obrigada. Aceitou a caneca com cuidado, segurando-a entre as duas mãos para aproveitar o calor. — Estava começando a sentir frio. Lucien sorriu de leve. — Eu também. Sentou-se novamente no lugar de antes. Os dois beberam em silêncio. O café não era dos melhores. Tinha um gosto forte demais e um leve amargor que permanecia na boca, mas, naquela tarde chuvosa, parecia suficiente. Elara aproximou a caneca da janela. O vidro estava frio. A diferença de temperatura fez surgir uma fina camada de vapor. Ela desenhou uma pequena linha com a ponta do dedo, apenas para observar a chuva do outro lado com mais nitidez. Lucien acompanhou o gesto por um instante. Lembrou-se de fazer a mesma coisa quando era criança, durante viagens curtas com Richard e Helena. Sorriu sem perceber. Elara notou. — O que foi? Ele pareceu voltar de um pensamento distante. — Nada... só lembrei de uma coisa. Ela não insistiu. Sabia que algumas lembranças pertenciam apenas a quem as carregava. Voltou a olhar para a janela. Por alguns minutos, dividiram novamente o silêncio. Mas agora ele tinha outra qualidade. Já não era o silêncio desconfortável de dois estranhos. Era o de duas pessoas que começavam, aos poucos, a aceitar a presença uma da outra. Do lado de fora, o trem avançava em direção às montanhas. A primeira placa indicando a região de Grinvale surgiu à margem dos trilhos e desapareceu quase no mesmo instante. Nenhum dos dois percebeu. Ainda não. O café terminou antes que percebessem. Lucien colocou a caneca vazia sobre a pequena mesa dobrável entre os bancos. Elara fez o mesmo. Durante alguns minutos, nenhum dos dois voltou a falar. A chuva continuava acompanhando o trem, batendo de leve contra os vidros enquanto a paisagem se transformava pouco a pouco. Os campos ficaram para trás, dando lugar a uma vegetação mais fechada. Árvores altas se aproximavam dos trilhos, formando corredores escuros que escondiam boa parte do céu. O vagão balançou ao passar por um trecho mais irregular. Lucien inclinou-se para segurar a mala no bagageiro. Foi então que um pequeno objeto deslizou entre suas roupas. A caixa de madeira. Ela caiu sobre o banco ao lado dele com um ruído seco. Antes que pudesse pegá-la, o trem fez outra curva. A caixa escorregou lentamente pelo assento. Elara estendeu a mão por instinto. Conseguiu segurá-la antes que caísse no chão. Por alguns segundos, observou apenas o objeto. A madeira era antiga, marcada pelo tempo, mas muito bem conservada. Não havia fechadura nem qualquer inscrição na tampa. Parecia algo guardado com cuidado durante muitos anos. Ela a estendeu na direção de Lucien. — Acho que isto é seu. Ele recebeu a caixa com um leve aceno de cabeça. — Obrigado. — De nada. Lucien permaneceu segurando a caixa por alguns instantes antes de acomodá-la cuidadosamente ao lado da mala. Houve um breve silêncio. Elara voltou os olhos para a janela. Lucien também. Nenhum dos dois comentou o ocorrido. Mas, sem perceber, ambos haviam prestado atenção um no outro pela primeira vez. Não por curiosidade. Apenas por um gesto simples de gentileza. Do lado de fora, a locomotiva diminuiu a velocidade. Um longo apito cortou o ar úmido da tarde. Mais adiante, escondida entre a neblina e as montanhas, a pequena estação de Grinvale começava a surgir. Nenhum dos passageiros da cabine sabia o que os aguardava depois do desembarque. Mas a viagem que os colocara frente a frente estava prestes a terminar. E outra, muito mais difícil, acabava de começar......






