O FIM

Dois meses depois.

Helena havia se mudado para um apartamento longe de sua antiga casa depois que Ricardo pediu o divórcio.

Estava morando sozinha, tentando se recompor depois de tudo o que viveu.

Havia aprendido a sobreviver. Não mais a viver, apenas sobreviver.

Existir de forma funcional o suficiente para que ninguém percebesse que algo dentro dela havia sido completamente destruído.

Dentro da editora Mode, a postura se mantinha a mesma, sempre firme, séria, tentando ao máximo ser forte.

Suas vestes continuavam sendo as mesmas, clássicas e modestas. Apesar de ser uma editora de moda, Helena não gostava de chamar a atenção.

Ninguém ali diria que ela havia encontrado o marido na própria cama com outra mulher.

Ninguém imaginaria o som daquela porta se fechando.

Nem o vazio que ficou depois.

Seu foco agora era única e exclusivamente para seu trabalho, seu coração havia se fechado e ela não acreditava que seria feliz novamente.

E assim, mais um dia ela se dedicou a Mode.

Helena entrou na sala de reuniões sem hesitar, colocando a pasta sobre a mesa.

— Vamos começar.

As vozes ao redor cessaram imediatamente.

Ela conduziu a reunião como sempre fazia: precisa, objetiva, impecável.

A Mode era seu refúgio, uma editora de moda responsável por publicações que cobrem tendências, editoriais, alta costura e notícias do mercado de luxo e beleza.

Helena havia se tornado editora chefe somente há dois anos, depois que a empresa foi comprada por alguém que ela nunca conheceu pessoalmente.

E por todo o seu empenho, foi nomeada chefe, pois sua postura era perfeita, sem falhas, sem muitas emoções, sem espaço para fraqueza.

Quando a reunião terminou, as pessoas começaram a sair, uma a uma, deixando apenas o eco das cadeiras sendo arrastadas.

Helena permaneceu sentada por alguns segundos sozinha, e por um instante sua mente voltou para o passado.

Os lençóis bagunçados. A voz de Ricardo tão taxativa:

“Eu procurei o que você não pode me dar.”

Seu estômago revirou.

Helena fechou os olhos com força.

Não, não ali, não agora.

Ela se levantou rapidamente, pegando seus documentos e saindo da sala antes que a memória se tornasse mais forte do que o seu autocontrole.

O escritório parecia mais frio naquele dia. Ou talvez fosse apenas ela. Tentando se manter em pé.

Helena entrou em sua sala e fechou a porta atrás de si. Apoiando as mãos na mesa, respirou fundo sentindo o ar gelado daquela manhã.

— Você vai ficar bem Helena. Tudo vai passar. De tempo ao tempo e tudo vai se ajeitar.

As palavras saíram automaticamente de sua boca. Como se a razão falasse ao seu coração.

Uma batida leve na porta interrompeu o momento.

— Pode entrar.

Alice apareceu, cautelosa.

— Helena… o advogado ligou. Os papéis do divórcio estão prontos. Ele quer saber se você pode ir hoje.

O coração dela falhou por um segundo.

Era isso.

O fim oficial.

Helena assentiu, sem demonstrar.

— Marque para o fim da tarde, por favor Alice.

Alice hesitou. Parada na porta, olhava para sua chefe.

— Tem certeza?

Helena a encarou.

E, por trás do olhar firme, havia algo quebrado.

— Quanto mais rápido resolvermos isso, melhor.

Alice assentiu e saiu.

Helena ficou sozinha novamente com seus pensamentos e lembranças. No fundo ela tinha a esperança de Ricardo desistir do divórcio e reatar o casamento, afinal foram oito anos de casamento.

Muitas coisas foram construídas, uma empresa reerguida e uma fortuna adquirida através de seus esforços e conhecimentos.

Mas isso não aconteceu.

O escritório do advogado era no centro da cidade, um prédio comercial imponente e glamuroso. Mas dentro era silencioso demais. Organizado demais. Impessoal e frio.

Como combinado, no fim da tarde ela estava lá.

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