A TRAIÇÃO

Era apenas seis horas da noite, mas todos já haviam ido embora.

O salto alto de Helena ecoava pelo corredor vazio do prédio da Mode. Cada passo era pesado, cansado, arrastado. O dia tinha sido longo demais, reuniões intermináveis, prazos apertados, decisões que ninguém mais parecia capaz de tomar além dela. A editora Chefe.

Dirigiu para casa no automático, no silêncio, sua cabeça latejava de dor. Tudo o que queria era um banho quente, silêncio e talvez fingir que sua vida ainda fazia sentido.

Estacionou seu carro na garagem, saiu devagar enquanto procurava a chave na bolsa.

Quando encontrou a chave, girou na fechadura com um movimento automático.

A porta se abriu. E, por um instante, tudo pareceu normal.

Mas a luz da sala estava acesa. Isto era estranho, Ricardo deveria estar trabalhando até mais tarde, como fazia todos os dias.

— Ricardo? — chamou, fechando a porta atrás de si.

Nenhuma resposta.

Helena franziu levemente o cenho, deixando a bolsa sobre o aparador.

Talvez ele estivesse no quarto, ou no banho, talvez tivesse chagado mais cedo, o que deu uma leve sensação de felicidade em Helena que há muito tempo, não via o marido cedo em casa.

Ela caminhou pela casa, tirando os sapatos no meio do caminho, aliviando um pouco a pressão nos pés. Soltou seus cabelos, começou a retirar seu casaco, mas algo estava estranho, o clima dentro da casa estava diferente.

Então ela ouviu, vindo de seu quarto, um som baixo, abafado. Havia vozes.

Helena parou ainda no corredor.

Sentiu seu coração desacelerar por um segundo só para disparar logo em seguida.

Não. Não podia ser. Ela não estava acreditando no que ouvia.

Então deu mais um passo e outro.

A cada metro, mais perto do quarto o som ficava mais claro.

Uma respiração, um gemido, um murmúrio.

Uma presença que não deveria estar ali.

— Ricardo…? — chamou novamente, agora mais baixo.

Mas sua voz já não tinha firmeza. Sua mão tremia levemente quando tocou a maçaneta do quarto.

E, por um instante ela hesitou. Com medo do que veria. Como se, no fundo, já soubesse.

Como se abrir aquela porta fosse destruir algo que não poderia ser reconstruído.

Mas ela abriu. E o seu mundo acabou ali.

O quarto estava iluminado pela luz suave do abajur.

Os lençóis bagunçados. O ar quente cheirando a sexo, e no centro de tudo estava Ricardo com outra mulher.

Ela de quatro, totalmente nua, com os cabelos enrolados na mao de Ricardo, gemendo a cada estocada que recebia, ele ajoelhado atras dela com o corpo suado, com a voz rouca gemendo o nome dela … Laura.

Na mesma cama que ele e Helena dormiam juntos há oito anos.

Helena não gritou, não reagiu, não fez escândalo.

Só silêncio.

Um silêncio brutal, sufocante, que tomou conta de tudo.

Ricardo foi o primeiro a perceber a sua presença. Se virou para a porta e a viu. Por um segundo pareceu surpreso, mas não o suficiente.

— Helena…

O nome dela saiu como um inconveniente. Como algo fora de hora.

A mulher à frente dele se deitou, puxou o lençol, tentando se cobrir, com os olhos arregalados.

Helena não a conhecia, e naquele momento, também não queria conhecer.

Seus olhos estavam presos nele. Ricardo, o homem que jurou-lhe fidelidade perante o juiz de paz.

— Há quanto tempo? — a voz dela saiu calma. Até demais.

Ricardo passou a mão pelo rosto, irritado.

— Não é o que você está pensando. — disse ele sem muito esforço.

Helena soltou uma pequena risada sem humor.

— Então me explica — ela respondeu, inclinando levemente a cabeça com uma lágrima solitária escapando de seu olho. — Porque parece exatamente o que eu estou pensando.

Silêncio.

Ricardo suspirou, como se estivesse cansado, mas não havia arrependimento em sua expressão.

Aquilo fez algo dentro dela quebrar de vez.

— Você não devia ter chegado tão cedo, querida.

A frase foi simples e direta.

Helena piscava lentamente, tentando processar tudo o que viu e ouviu.

— Eu moro aqui Ricardo — disse, quase em um sussurro — há oito anos.

— Eu sei — ele respondeu, seco, colocando uma bermuda — Mas isso já tinha acontecido e você nunca nos viu.

Ouvir aquilo foi o pior, não era um erro, não era um momento de fraqueza. Era uma escolha, uma rotina. Uma vida paralela.

Helena deu um passo para trás.

O ar parecia mais pesado agora.

Difícil de respirar.

— Quem é ela?

Ricardo olhou rapidamente para a mulher enrolada no lençol encostada na parede.

Depois voltou o olhar para Helena.

— Isso não importa.

Claro.

Ela não se importava. Nada ali importava mais.

Helena passou a mão pelos cabelos, tentando se manter de pé.

Tentando manter qualquer resquício de dignidade.

— Oito anos, Ricardo.

A voz dela falhou dessa vez.

— Oito anos… e você faz isso?

Ele não respondeu de imediato. E quando respondeu, foi pior do que qualquer mentira que tivesse dito.

— Eu cansei, Helena.

Ele disse de forma simples, seco. Apenas uma constatação.

— Cansei de tentar construir uma família que nunca vai existir.

A frase atingiu Helena em cheio. Como uma lâmina cravada em suas costas.

— Não faz isso… — ela sussurrou, a dor finalmente aparecendo.

— É a verdade.

Ele se levantou da cama, pegando a camisa no chão, vestindo sem pressa.

Como se aquilo fosse apenas uma conversa inconveniente.

— Eu quero filhos.

Helena sentiu as lágrimas arderem nos olhos.

— E você sabe que com você … isso não vai acontecer. Eu cansei de fingir, cansei de seu controle, de suas manias, de sua insegurança.

Helena ficou sem reação as palavras ditas por Ricardo, porque ela sabia que um dia isso iria acontecer.

Mas ouvir aquilo naquele momento, foi destrutivo.

— Então você me traiu por isso? — perguntou, a voz quebrando.

Ricardo a encarou.

— Eu procurei o que você não pode me dar.

A frase caiu entre eles como uma sentença e Helena não conseguiu responder.

— Voce é fria, metódica, o sexo é sempre na mesma posição, papai e mamãe, você não dá uma gemidinha… é chato demais!

Não havia o que dizer. Não havia defesa. Apenas um diagnóstico dado por seu marido.

Estéril e frígida.

Ela assentiu devagar. Como se aceitasse algo que não podia mudar.

— Entendi.

Mas não tinha entendido, não completamente.

Então Helena deu mais um passo para trás. Depois outro e se virou, se afastando de seu quarto, se afastando da cena de traição, se afastando da própria vida.

Mas antes de sair, parou na porta.

Sem olhar para ele, com lágrimas nos olhos.

— Você podia ter sido honesto!

Ricardo não respondeu, e isso disse tudo.

Helena saiu e fechou a porta atrás de si.

Dentro do carro ela parou, seu corpo tremia por inteiro, sua respiração estava pesada.

Ela olhou ao redor.

Sua linda casa, a vida que ela construiu, tudo o que possuíam juntos.

E que, naquele instante, deixava de existir.

Ela levou a mão à boca, tentando conter o som de sua dor. Mas não conseguiu.

O choro veio forte, desesperado, doloroso.

E então ali, dentro de seu carro Helena finalmente desmoronou.

Do outro lado da rua, dentro de um carro preto estacionado sob a sombra, alguém observava.

Sem emoção aparente.

Sem surpresa.

O observador apoiava o cotovelo na janela, os olhos fixos na casa e no movimento.

Ele não precisava ver exatamente o que estava acontecendo lá dentro.

Ele já sabia.

A amante não estava ali por acaso.

E Ricardo… era apenas previsível demais.

Ele sorriu de leve observando o caos.

— Que os jogos comecem — murmurou para si mesmo.

Ligou o carro e partiu.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App