Mundo de ficçãoIniciar sessão
"Passamos a vida tentando colar os pedaços que a crueldade alheia quebrou, sem perceber que o destino não quer que sejamos consertados pelo passado, mas sim completamente reinventados pelo futuro.”
O silêncio na casa dos Bastos não era um sinônimo de paz, era na verdade, o som da ausência. Para Helena Duarte, aquela casa luxuosa, com grandes janelas de vidro e móveis assinados por designers que cobravam caro pelo desconforto, assemelhava-se a uma galeria de arte abandonada. Bonita, polida, mas irremediavelmente morta. Não era assim que ela sonhou, aquilo não parecia um lar para ela. Aos trinta anos, Helena acreditava que o amor exigia sacrifícios. O que ela não sabia era que, em seu casamento com Ricardo Bastos, o sacrifício exigido seria a sua própria identidade. Durante oito anos, ela moldou-se para caber nas expectativas dele. Vinda de uma vida humilde, criada apenas pela avó materna, conheceu Ricardo na universidade, quando ela fazia administração e ele engenharia. E então ela descobriu o que era amor à primeira vista. Quando a empresa de engenharia de Ricardo enfrentou a crise, foi Helena quem segurou as pontas, administrando a empresa e esticando o salário de assistente editorial para cobrir as contas e engolindo o próprio cansaço para ser o porto seguro de um homem inconformado com a realidade decadente de sua família. Ela aceitou as longas horas de isolamento, as desculpas esfarrapadas e a frieza gradual porque acreditava na promessa do "depois". — Depois que a empresa se estabilizar, nós teremos nossos momentos a sós. Mas o "depois" chegou trazendo a prosperidade financeira e, com ela, a verdadeira face de Ricardo. O sucesso o tornou soberbo. E a falta de um herdeiro o tornou cruel. — Minha mãe ligou de novo, Helena. Perguntando quando vai dar um neto para ela. É engraçado como o silêncio do seu útero grita mais alto na família do que a sua presença nesta casa. — disse ele certa vez durante o jantar. As consultas médicas que se seguiram foram humilhações parceladas. Ricardo recusava-se a fazer exames detalhados, pois sua virilidade era inquestionável diante de seu próprio ego. O diagnóstico de infertilidade, jogado informalmente sobre os ombros de Helena por um médico que mal olhou em seus olhos, virou a sentença de morte de sua dignidade. Ela aceitou o veredicto da esterilidade com as costas curvadas pelo peso da culpa. --- Helena Duarte olhava para o próprio reflexo no vidro fumê da janela de seu escritório no décimo andar do edifício da Mode. O terninho de alfaiataria preto, cortado sob medida, servia como uma armadura impecável. O coque baixo e alinhado não deixava um único fio de cabelo fora do lugar. Seus olhos castanhos, outrora expressivos e fáceis de decifrar, transformaram-se em duas pedras polidas. O mercado editorial a conhecia como uma mulher fria, insensível e cirúrgica em suas decisões. Ricardo costumava usar esses mesmos adjetivos para insultá-la. Hoje, Helena os carregava como medalhas de honra. Dois anos atrás, após uma reestruturação interna misteriosa promovida pelo conselho de administração do novo dono da editora, Helena foi promovida a Editora-Chefe da Mode. Foi uma ascensão meteórica que surpreendeu até a ela mesma. O antigo editor havia sido sumariamente demitido após uma auditoria secreta, e o nome de Helena surgiu no topo da lista para o cargo. Ela nunca questionou a sorte, apenas trabalhou dezesseis horas por dia para provar que merecia o cargo. E enquanto sua carreira se estabilizava, seu casamento se arruinava. A cada dia, Ricardo se mostrava mais distante e frio. Se preocupava apenas com sua imagem e desejos. Os momentos a sós nunca mais foram divertidos e leves. A intimidade se tornou incômoda, o sexo era esporádico e mecânico. Ricardo se mostrava cada vez mais incomodado enquanto Helena fazia de tudo para que fossem felizes juntos. Afinal ele era seu primeiro e único amor… era isso que ela acreditava até então.






