Ela fez uma pausa, permitindo que suas palavras penetraram no espaço, e em um tom excessivamente sério para ser verdadeiramente engraçado, acrescentou: — Garanto que ela age como uma criança às vezes, fazendo da tarefa de cuidar dela um desafio constante e fascinante.
Brigar com ela é mais complicado do que convencer o vento a mudar de direção, como tentar domar uma tempestade.
— E, como qualquer tempestade, ela tem sua própria força e vontade, e há dias em que isso pode ser bastante exaustivo.
— Justamente nesse momento, Lorenzo soltou uma risada alta, a sonoridade dele trazendo uma luz inesperada a um ambiente que poderia facilmente ter se tornado pesado.
Matteo, que estava observando tudo com atenção, levantou uma sobrancelha, sua mente curiosa se perguntando sobre as nuances daquela interação.
— Você é muito malcriada, não é? — indagou, intrigado pela ousadia dela.
— Não — respondeu Paloma com uma calma admirável, um brilho ousado em seus olhos que refletia sua determinação.
— Não sou malcriada, apenas não tolero abuso, todos merecem respeito, certo? Assim como espero ser respeitada, como um espelho que reflete o que recebe de volta.
— Sou grata por cada pequena interação e espero que o mesmo aconteça com os outros.
Ele a encarou intensamente, admirando sua força e a maneira como suas palavras carregavam um peso significativo.
— Eu respeito as pessoas quando elas me respeitam. — É como uma dança: se você não se importa em seguir o ritmo, não pode esperar que os outros dancem com você.
Se falarem direito comigo, eu falo direito com elas, até agora, porém, o senhor só me deu ordens.
— O senhor nem sequer agradeceu por eu ter ligado pra vir buscar o pequeno Lorenzo.
O que eu recebi foi apenas acusações, isso, meu caro, não se chama respeito, se chama descaso. — E se você se colocar no meu lugar por um instante, talvez consiga ver o quanto isso é frustrante.
— No momento, Matteo parecia surpreso, como se a verdade nua o atingisse com força inesperada.
A intensidade do olhar dela, a paixão em suas palavras, o despojar de qualquer fachada, tudo isso parecia desarmá-lo.
— Um sorriso brotou em seu rosto — rápido, controlado, mas genuíno, um reconhecimento silencioso de seu caráter e da sua postura firme que o desafiava a ser melhor, a ver além de suas próprias limitações.
Ali, naquela pequena troca, uma nova dinâmica estava se desenrolando, uma espécie de dança entre a vulnerabilidade e a força, entre o comando e a resistência.
— Você é muito atrevida — disse ele, sua voz carregada de uma mistura de admiração e reprovação, como se estivesse tentando entender se essa ousadia era uma fraqueza ou uma força.
— Não sou atrevida — corrigiu ela, calmamente desafiadora, a confiança em sua voz inabalável. — Sou apenas alguém que aprendeu a não abaixar a cabeça diante das adversidades. Imagine uma palmeira que resiste aos ventos fortes; ela se curva, mas não quebra.
— Nós, brasileiras, tendemos a ser diretas, a defender o que é nosso com fervor, e isso não é apenas uma questão de atitude, mas uma questão de sobrevivência.
— Não — respondeu ele, sincero, enquanto a curiosidade começava a despertar dentro dele como um farol na névoa.
— Todas são assim? — provocou, tentando entender o que tornava Paloma tão diferente de todas as mulheres que havia conhecido, que pareciam se adaptar às regras que a sociedade impunha.
— Não sei — Paloma deu de ombros, um leve sorriso brincando em seus lábios, um gesto que contrabalançou a seriedade de sua fala.
— Mas uma coisa é certa: eu não me rebaixo,
aprendi com minha avó que nossa dignidade é tão preciosa quanto uma joia, e nunca deve ser negociada ou sacrificada em prol de expectativas alheias.
— Cada desafio que enfrentei moldou quem sou, e eu valorizo essa força que eleva minha voz em momentos de necessidade.
Matteo soltou um breve riso nasal, admirando a autenticidade dela — uma qualidade rara que ele não esperava encontrar.
— Era como se suas palavras ecoa em algum lugar profundo dentro dele, um chamado à reflexão.
— Então está bem, você será contratada, pois Lorenzo precisa de alguém que eu possa confiar.
Enquanto estivermos no hospital, vou enviar meus homens para buscar sua avó, ela vai direto para nossa casa.
— Quero conhecer essa mulher que criou uma filha tão destemida.
— Negativo, mas não vão mesmo...— Paloma respondeu rapidamente, sua voz firme como aço, como se estivesse fechando uma porta que não poderia ser reaberta, um verdadeiro manifesto de seu compromisso.
— Tá pensando que ela vai fazer o que você quer? Ah, não vai mesmo, eu vou com voces.
— Quando sairmos do hospital, vamos até lá, e eu vou explicar tudo pra ela. Sem isso, ela não vem.
A decisão de mudá-la para cá não pode ser uma simples questão de conveniência; é preciso que ela entenda a importância disso, e eu não vou abrir mão desse diálogo.
— É assim que as coisas funcionam nas nossas vidas.
Matteo encarou Paloma por longos segundos, o silêncio intenso entre eles criando um campo de forças que parecia palpável, como se o ar estivesse carregado de energia elétrica.
— A determinação dela, expressa em cada linha de seu rosto, não deixava espaço para dúvidas.
Ele finalmente suspirou, resignado, sua mente passando rapidamente por todas as opções que tinha e reconhecendo que nenhuma delas era mais poderosa do que a firmeza dela.
— Ok. Você venceu — disse ele, sua voz agora mais suave, quase como um acordo silencioso entre os dois.
Assim que as palavras saíram de seus lábios, Lorenzo vibrou no banco de trás, a alegria do garoto quebrando a atmosfera pesada que antes envolvia o carro.
— Viu, papai? — exclamou ele, seu rosto iluminado por um sorriso radiante que poderia derreter até mesmo o mais denso dos obstáculos.
— Era como se a decisão de Paloma não apenas mudasse a dinâmica entre os adultos, mas também acendesse um novo brilho de esperança nas crianças, que mereciam esse momento de união.
Paloma sorriu para o menino, deixando o calor da infância envolvidos como um cobertor suave e acolhedor, simultaneamente reconfortante e libertador.
— Agora, pequeno, eu vou ser sua babá e você vai ter que seguir as minhas instruções — informou ela com um tom que misturava autoridade e carinho, como se estivesse anunciando que uma nova aventura estava prestes a começar.
— Naquele instante, Paloma não era apenas uma figura maternal, mas uma nova heroína na vida de Lorenzo.
Lorenzo arregalou os olhos, divertindo-se e, no calor daquele momento, desafiou: — Você já está ficando mandona — sua voz cheia de um travesso espírito infantil, como se aquela muda rivalidade fosse um convite para uma nova fase de brincadeiras.
— A interação entre eles era primeiramente uma expressão de amor inocente, um prenúncio de muitas brincadeiras e aventuras por vir.
Ela riu, e a leveza de sua risada foi contagiante, como um remédio que cura as feridas invisíveis. — Não, eu estou brincando com você.
— Na verdade, estou elaborando um texto sobre a nossa nova relação, um manual de instruções que nem precisa de papel, mas que quero que você guarde no coração — explicou Paloma, piscando os olhos com um brilho jovial que iluminou a conversa como uma chama viva.
— Mandão mesmo… só o seu pai — adicionou ela, com um toque de humor que fez a tensão se dissipar como névoa ao sol.
Matteo balançou a cabeça, sorrindo de canto, enquanto reconhecia uma verdade latente, incutida em cada riso compartilhado.
Paloma De Lucca Fernandes não havia entrado em suas vidas como uma refém ou um favor, mas sim como uma presença definitiva que desafiaria as normas que ele tinha estabelecido.
— E à medida que a simplicidade das coisas se desenrolava diante deles, como uma luz que se acende em um quarto escuro, ele entendia que a vida, deste momento em diante, transformara-se para sempre — tinha se tornado uma tapeçaria rica em novas cores, experiências e amor, tecida com os fios da esperança e da redescoberta.