Mundo de ficçãoIniciar sessãoO carro avançava silenciosamente pelas ruas em direção ao hospital, atravessando a cidade com uma rapidez proporcionada pela escolta natural dos veículos ao redor, que pareciam se abrir como um rio para permitir a passagem daquela pequena embarcação fugindo das tempestades.
Ao lado, Paloma entrelaça sua mão delicadamente à de Lorenzo, um gesto que oferecia um refúgio quente em meio ao caos que surgira em poucas horas. —Ela sentia o calor da inocência dele, um bálsamo que a ancorava, tentando equilibrar o turbilhão de emoções que a invadia. Mesmo com um curativo improvisado na testa, o menino exibia uma calma inesperada, sua expressão cheia de uma curiosidade que desafiava a gravidade do momento, observando ao redor com olhos grandes e inocentes, como se tentasse compreender como sua vida havia mudado do normal para o extraordinário em questão de horas, com cada batida do motor do carro ecoando como um lembrete do que estava em jogo. — Paloma… — ele chamou suavemente, puxando levemente a mão dela, seu gesto pequeno mas significativo, como se buscasse mais do que conforto, mas uma âncora em meio à tempestade. Seu tom de voz suave contrastava com a tensão do momento, criando um espaço de tranquilidade em um mundo que parecia ter perdido seu equilíbrio. — Você tem nonna? A pergunta, simples e inocente, ressoou em meio ao estresse daquele cenário caótico, como um raio de sol atravessando nuvens escuras. Surpresa, Paloma sorriu de lado, uma expressão que aliviou um pouco da pressão em seu peito. — Tenho, sim, minha nonna é bem brava, aliás, mas de um jeito que você acaba adorando. — O jeito dela de ser é como uma tempestade em um copo d’água — intensa, mas cheia de amor. O semblante de Lorenzo mudou instantaneamente, e seus olhos brilharam como se tivesse descoberto um tesouro escondido. — E você ama a sua nonna? — ele perguntou, cheio de curiosidade e um brilho genuíno que destacava a pureza de sua infância. — Amo, mais que tudo nessa vida. — respondeu ela sem hesitar, a sinceridade soando como uma promessa clara e forte entre as incertezas que os cercavam. Minha nona cuida de mim, faz as melhores comidas e sempre tem histórias incríveis para contar, como uma biblioteca viva cheia de aventuras que nos transportam a mundos distantes, onde a magia e a realidade dançam juntas. — Ela me ensina que cada história é um pedacinho da vida, um ensinamento que devemos levar por onde quisermos. — Quantos anos ela tem? — Lorenzo indagou, claramente interessado em saber mais, seus olhos grandes focados em Paloma como se estivesse esperando que ela revelasse o segredo do universo através da resposta. — Sessenta e cinco… queria dizer, meia cinco — corrigiu Paloma, um hábito que tinha em casa, uma forma carinhosa de manter viva a essência da tradição familiar, onde detalhes como esses eram sempre meticulosamente discutidos à mesa. Lorenzo franziu a testa, tentando fazer as contas de uma maneira infantil, como se estivesse contando os anos de um jogo, quase imaginando que os números dançavam diante dele, formando uma dimensão lúdica onde o tempo não tinha peso. — Mas ela é nova, mesmo assim, é como se sua vitalidade se manifestasse em cada história que conta. — É verdade, mas ficou doente — Paloma concordou, sua expressão se tornando um pouco mais séria, como se o peso da verdade estivesse sendo compartilhado e os filhos não conseguiram cuidar dela. O ritmo frenético da vida moderna parece ter feito com que muitos perdessem o contato com suas raízes, estou aqui para ajudar no que puder. — Por exemplo, gosto de fazer companhia e ler para ela quando está triste, como se eu fosse um raio de sol que ilumina um dia nublado, trazendo calor e conforto em momentos de dificuldade, como um bálsamo para a alma. As palavras de Paloma carregavam um peso de entendimento profundo, como se ressoassem as experiências de muitos, ecoando através do tempo e do espaço em busca de conexão aí você veio? — Lorenzo perguntou, curioso, sua mente ainda cercada por questões que giravam em torno da relação entre eles. — Vim. Meu pai me mandou pra cá — respondeu Paloma, a lembrança do passado pesando em suas palavras como um livro bem conhecido, cujas páginas estavam cheias de aprendizados e desafios. — Moro com ela há cinco anos, e a cada dia é como se eu estivesse redescobrindo o que significa amar e cuidar. — É um processo de crescimento mútuo, onde aprendemos uma com a outra. Ele fez as contas à sua maneira, olhando primeiro para Paloma e depois para o pai no banco da frente, imerso em pensamentos. — Então você mora com a sua nonna todo esse tempo? — indagou Lorenzo, tentando entender a dinâmica familiar, como se estivesse montando um quebra-cabeça, onde cada peça revelava uma nova faceta das relações humanas. — Moro — confirmou Paloma, seu sorriso refletindo um orgulho sutil, como se tivesse revelado um tesouro importante, um vínculo que transcende gerações e simboliza a interdependência do amor familiar. — Ela é minha bússola, sempre me guiando mesmo nos momentos mais desafiadores. — Eu era bem pequenininho, né, papai, quando ela veio? — perguntou Lorenzo, misturando curiosidade infantil com suas memórias, como se estivesse desenhando um mural colorido com as experiências vividas ao lado da nona, buscando entender como essa presença moldou sua infância. Matteo, mantendo os olhos fixos na estrada, respondeu com uma voz firme, como se estivesse contando uma história que transcendia o tempo e as gerações: — Tinha apenas um ano — suas palavras carregavam um peso emocional, como se cada sílaba fosse um fragmento de lembrança de um passado que ele desejava que Lorenzo pudesse entender. — Era uma época em que a inocência do menino se entrelaçava com o amor incondicional que ele sentia pela mãe, embora aqueles momentos parecessem tão distantes quanto as estrelas no céu claro. — Viu? — Lorenzo olhou para Paloma com um brilho de triunfo nos olhos, iluminando seu rosto com um sorriso que parecia iluminar a própria sala. — Eu tinha um ano — completou, como se as peças do quebra-cabeça de sua própria história finalmente se alinhassem em um quadro coerente e significativo. — A curiosidade infantil pulsava em suas veias, enquanto ele tentava, com fervor e ardor, conectar-se a uma bagagem que não lhe pertencia, mas que de alguma forma o definia. Paloma riu suavemente, gostando de compartilhar aquele momento leve com a criança que, mesmo em meio ao caos que os cercava, encontrava encanto nas pequenas coisas da vida. Ele se divertia observando os pássaros que dançavam pelo céu e na maneira como os raios de sol brincavam entre as folhas das árvores, criando sombras cintilantes que pareciam saltar para a sua imaginação. — Era um momento raro, um lembrete de que era possível encontrar beleza mesmo nos dias mais nublados. — E agora você tem cinco anos? — Paloma perguntou, sua voz transbordando uma mistura de carinho e curiosidade. — Cinco, vou completar seis mês que vem— respondeu Lorenzo, a determinação em sua voz mostrando que, mesmo em sua tenra idade, ele compreendia a importância do tempo e das transições que a vida trazia consigo. — É… já está crescendo — ela assentiu, esforçando-se para manter uma expressão séria, mas seu coração estava levemente aquecido pela inocência e pelas novas descobertas de Lorenzo. — Você está se tornando um rapazinho, prestes a desbravar o mundo ao seu redor, um pouco como quando você brinca de construir castelos na areia, criando e destruindo, moldando suas próprias realidades. A expressão de Lorenzo se iluminou brevemente com a alegria daquele comentário, mas logo uma sombra de preocupação se instalou em seu semblante. — Ele parecia estar lutando contra um turbilhão emocional, as nuvens de suas incertezas cobrindo o rosto de uma criança que deveria estar apenas preocupada em se divertir. — E você… tem avó? Ele olhou de relance para o pai e, em seguida, para Paloma, sua voz diminuindo, carregada de uma vulnerabilidade que parecia tão pesada quanto seu pequeno corpo poderia suportar. — Tenho uma nonna… mas a nonna não é… ela não é legal, briga muito comigo. As palavras hesitaram em sua garganta, sentindo-se como pedras, pesadas e difíceis de engolir. — Lorenzo sabia que havia algo diferente em sua avó, mas ainda estava tentando descobrir como isso se encaixava em sua compreensão do amor e da família, sentimentos que ele mal começara a entender. — Não diga isso, filho — interveio Matteo, sua voz firme, como um manto protetor envolvendo o coração de Lorenzo. — Sua avó é apenas… diferente, como uma peça de um quebra-cabeça que, apesar de não se encaixar perfeitamente, ainda possui seu valor e sua beleza. Todos nós temos nossas particularidades, e é isso que nos torna únicos. — Não importa como ela se apresenta, o que importa é o amor que você sente, que é sempre verdadeiro e inestimável. Lorenzo balançou a cabeça, triste, como se o peso do mundo estivesse sobre seus pequenos ombros. — Não, papai, ela não gosta de mim, só briga comigo, e diz que tenho que ser forte. O silêncio que se seguiu foi breve, mas intenso, como uma tempestade emocional à espreita, pronta para desabar a qualquer momento. Paloma apertou a mão do menino com mais força, um gesto discreto de apoio que dizia, com um simples toque, que ele não estava sozinho. — Matteo respirou fundo, tentando acalmar o turbilhão de sentimentos que borbulhavam dentro dele, guardando suas preocupações e inseguranças para um momento mais adequado, como se estivesse se preparando para enfrentar uma batalha em que ele não queria prejudicar o filho. Logo, Lorenzo quebrou a tensão, como alguém que abre a janela em um dia escuro, trazendo um pouco de luz para a situação pesada. — Papai… já que a Paloma estava lá no restaurante pra arranjar trabalho… e eu preciso de uma babá… Matteo virou o rosto, despertando de seu próprio mar de pensamentos, a curiosidade surgindo como uma bolha em água fervente. — Você precisa de uma babá? — Preciso, e quero você como minha babá— confirmou Lorenzo, com a seriedade de um adulto, como se estivesse apresentando um projeto importante em uma reunião de negócios. — O senhor poderia contratar a Paloma pra ser minha babá papai? Paloma arregalou os olhos, a surpresa deixando sua expressão semelhante a uma criança recebendo um presente inesperado, seu coração aquecendo-se com a ousadia do menino. — O pedido era tão direto e sincero que ela não podia deixar de admirar a confiança de Lorenzo, sua habilidade inexplicável de transformar uma situação tensa em uma proposta esperançosa. — A nona dela vem morar com a gente também, não vem? — continuou Lorenzo, animado, como se estivesse traçando um plano meticulosamente elaborado que uniria suas vidas como peças de um quebra-cabeça. — Assim, a Paloma tem trabalho, fica perto da nona dela, e eu fico perto da nona dela enquanto ela cuida da gente, como uma família em que cada um tem seu lugar e função — disse Lorenzo, com um brilho nos olhos, ansioso com a perspectiva de contar com uma rede de apoio que o fizesse sentir-se mais seguro e amado, como as raízes de uma árvore que sustentam seu crescimento. A ideia de reunir toda essa gente em um lar trouxe um sorriso ao rosto de Paloma, e uma nova esperança para Matteo, que percebeu que talvez, só talvez, sua família pudesse encontrar uma maneira de se juntar nessa busca pelo amor e compreensão. — Matteo observou seu filho com uma atenção rara, o coração amolecendo diante da pureza da proposta. O brilho nos olhos de Lorenzo, repleto de confiança e esperança, era como um reflexo da inocência que por vezes parecia desvanecer-se neste mundo cheio de incertezas. — E quando eu for pra escola — Lorenzo prosseguiu com a cadência de quem traz a solução para um problema simples — ela não fica sozinha, ela fica com a babá. — A visão de uma rotina mais harmoniosa, onde eles poderiam estar juntos, mesmo em separado, trouxe um conforto às palavras de Lorenzo. — Você não vai mais para aquela escola Lorenzo — Matteo interrompeu, a voz endurecendo como uma medida de proteção. As memórias da situação traumática, em que seu filho foi sequestrado sob a fachada de uma autorização familiar, em reviravolta em sua mente como uma tempestade de pensamentos. — Eles deixaram você ser sequestrado, e isso é imperdoável. — Sinto um nó na garganta só de pensar que, por um momento, aqueles rostos desconhecidos puderam se aproximar de você sem resistência. Lorenzo franziu a testa, sua confusão e tristeza visíveis. — O que, para ele, era apenas a inocente tentativa de estabelecer uma nova rotina, soava como um eco distante de um passado amargo. — Mas… eles disseram que eram parentes. —Eles tinham documento de autorização, e parecia que tudo estava em ordem. As palavras saíam de sua boca, mas ele mal conseguia processar a gravidade da situação. — Para Lorenzo, a lógica da criança lutava contra a dura realidade que seu pai tentava articulá-la. O olhar de Matteo escureceu, determinado e embutido em uma sombra de raiva. Vendo a vulnerabilidade do filho, um instinto protetor aflorou, mais forte do que nunca. — Eu vou averiguar isso, não se preocupe. — E quem colocou a mão em você vai se arrepender do dia em que nasceu. Isso não pode ficar assim; precisamos proteger você a qualquer custo. — Em seus olhos, Lorenzo via a chamas de determinação e um amor incondicional que sempre lhe assegurava que nada poderia realmente prejudicá-lo. Lorenzo parecia satisfeito com a promessa, mas rapidamente voltou ao que realmente importava, como se a preocupação com a segurança fosse apenas uma nuvem passageira. — Papai… tô perguntando sobre a Paloma. Ele se virou para ela, um sorriso esperto iluminando o rosto, como se tivesse descoberto um segredo que poderia mudar tudo. — Paloma, você quer ser minha babá, acha que pode cuidar de mim, eu gostaria ? — O seu olhar confiante e infantil refletia não apenas uma simples proposta, mas a esperança de um novo laço que poderia unir suas vidas de maneira mais harmoniosa. Ela respirou fundo antes de responder, ponderando as implicações daquela nova relação. — Com um ligeiro sorriso, que misturava entusiasmo e apreensão, ela reconhecia que essa proposta poderia significar a oportunidade de se conectar profundamente com o garoto. — Se o seu pai me contratar… eu aceito, mas saiba que isso significa responsabilidade, não brincadeira. — As palavras saíam de sua boca carregadas de um novo peso, uma promessa silenciosa de que ela não seria apenas uma figura de apoio, mas sim uma aliada, disposta a enfrentar os desafios da infância junto àquele menino. Matteo inclinou a cabeça, avaliando a proposta com uma expressão indecifrável, como se estivesse pesando cada palavra na balança da segurança e da confiança. — Você já tomou conta de crianças? O que você faria em situações difíceis? A sua voz era firme, mas havia uma pitada de curiosidade no modo como ele sondava a capacidade de Paloma, desejando assegurar que não apenas seu filho, mas também a nova babá que entraria em suas vidas, seriam capazes de lidar com as complexidades que a vida poderia lançar em seu caminho. — Não — respondeu ela, sua voz firme ecoando um princípio que valorizava a honestidade acima de tudo. — A única criança que cuido é da minha avó. Ela pode não ter muitos anos de vida, mas enfrenta cada dia como se fosse uma nova aventura, e isso me ensinou muito. — Enfrentar situações difíceis em casa é como ser um marinheiro em um barco que se fortalece em meio a tempestades; é desafiador, mas traz um crescimento inestimável.






