Capítulo 03

Jady

O sino tocou antes do amanhecer, cruel como sempre.

Eu dormia profundamente no meu quartinho minúsculo atrás das cozinhas, enrolada num cobertor fino que mal afastava o frio.

Sonhava com minha mãe de novo.

Ela sorria, estendia a mão para mim e sussurrava algo que eu nunca conseguia ouvir por completo, era o único lugar onde eu ainda me sentia segura.

Splash!

A água gelada misturada com cinzas caiu como um tapa gelado no meu corpo.

Acordei em choque, engasgando, o coração disparado.

A mistura suja escorria pelos meus cabelos, entrava nos olhos e deixava um rastro escuro na minha pele.

Seraphine estava na porta, linda e impecável mesmo àquela hora, com um sorriso venenoso nos lábios.

Quatro lobas de sua turma estavam atrás dela, todas com a mesma expressão de diversão.

— Dormindo até essa hora, vadia? — perguntou ela, fingindo surpresa.

— Ainda nem amanheceu… — murmurei, limpando o rosto com as costas da mão.

Seraphine arrancou o cobertor da cama e jogou-o no chão lamacento do corredor.

— Então vá lavar isso e use o cobertor para limpar o resto da sujeira que você deixou cair.

Eu levantei devagar, o corpo ainda dolorido da noite anterior com Orion.

Encarei Seraphine diretamente nos olhos.

— Você poderia fazer isso sozinha.

O silêncio foi imediato.

As quatro lobas arregalaram os olhos, chocadas.

Ninguém ousava responder Seraphine daquele jeito.

Ela sorriu ainda mais largo, quase feliz.

— Segurem ela.

As lobas me agarraram pelos braços com força.

Seraphine pegou o balde seguinte, água suja com bastante cinza e despejou lentamente sobre minha cabeça.

A mistura escorreu pelo meu rosto, sujou minha camisola fina, grudou nos cabelos e deixou marcas escuras na minha pele.

Eu tremia de frio e raiva.

— Agora vá cumprir suas tarefas, assim mesmo, quero ver você atravessar o castelo inteiro com essa cara de escrava.

Eu obedeci, caminhei pelos corredores com a cabeça erguida, mesmo sentindo os olhares, os risinhos abafados e o nojo.

Quando cheguei ao corredor principal, a Luna Eleonor vinha na direção contrária.

Ela parou por um segundo.

Seus olhos frios percorreram meu rosto sujo de cinzas, a roupa molhada e imunda.

Eu esperei, idiotamente, que ela dissesse algo.

— Seraphine… não exagere — falou com um suspiro entediado, e continuou andando sem nem olhar para trás.

A indiferença dela foi pior que um tapa.

Mostrava claramente: ninguém aqui me protegeria.

Nem a mãe do homem que jurava me amar.

Passei o resto da manhã limpando o grande salão de festas.

De joelhos no chão de mármore frio, esfregando manchas antigas, as mãos ardendo, foi quando senti seu cheiro.

Orion.

Ele apareceu no salão alto e imponente, como sempre.

Olhou ao redor rapidamente, certificando-se de que estávamos sozinhos, e se aproximou.

Ajoelhou-se ao meu lado, como se fosse um simples ajudante, e segurou minha mão por baixo do pano de chão, escondido.

— O que ela fez dessa vez? — perguntou baixinho, a voz carregada de preocupação.

Tentei rir, mas meus olhos estavam vermelhos e inchados.

— O de sempre… só que pior.

Ele soltou um suspiro pesado, com o polegar, limpou gentilmente uma mancha de cinza do meu rosto.

O toque foi tão carinhoso que quase quebrei ali mesmo.

— Quando eu assumir como Alfa — murmurou, olhando nos meus olhos — ninguém mais vai mandar em você.

Eu assenti, engolindo o choro.

Queria tanto acreditar nele.

Depois da noite anterior, quando ele me tomou com tanta força e paixão no depósito abandonado, suas promessas pareciam reais, mas enquanto ele se levantava e se afastava antes que alguém nos visse, uma sensação ruim apertou meu peito.

Quanto tempo mais eu conseguiria aguentar?

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