Capítulo 5.1

Dentro de casa, o ar parecia mais pesado. Ela o sentou no sofá. Correu até a cozinha, pegou um copo d’água, um comprimido pra dor de cabeça e voltou rápido.

— Toma. — pediu, oferecendo o remédio.

Ele obedeceu sem dizer nada. O copo tremia levemente na mão dele.

— Foi tudo muito rápido. — falou depois de engolir o remédio — Eu vi aquele carro… e… — levou a mão à cabeça de novo — é como se eu tivesse visto isso antes. Muitas vezes. Não aquele carro… — corrigiu-se, confuso — mas aquela sensação. Como se alguém me vigiasse. Como se eu estivesse esperando um ataque.

Alya sentou-se ao lado dele, o coração apertado.

— Todo mundo tem lembranças ruins que aparecem de vez em quando. — disse, tentando manter a voz calma — Pode ser coisa da sua vida de antes. Alguma situação violenta, sei lá. Você mesmo disse que sente que já passou por muita coisa.

— Mas eu não estou falando de um empurrão de bar. — retrucou, com o olhar distante. — As imagens… eram pesadas. Eu ouvi… gritos. Um som de tiro. E… — a voz falhou — eu tenho quase certeza que era eu que estava segurando a arma.

Ela engoliu em seco, sentindo a garganta fechar por um instante.

— Foi só um pesadelo, Paolo. — insistiu, acariciando o braço dele — O cérebro confunde as coisas. Junta medo com imaginação.

Ele olhou pra ela, como se tentasse agarrar aquelas palavras e torná-las verdade.

— Você tem medo de mim? — perguntou de repente.

A pergunta pegou Alya de surpresa. Seus olhos se arregalaram por um segundo.

— Claro que não. — respondeu rápido demais.

— Não mente pra mim. — ele falou, desviando o olhar — Se eu… se eu realmente fiz alguma coisa ruim no passado… você tem todo direito de ter medo.

Ela respirou fundo. Sabia que, no fundo, algo nela realmente temia o desconhecido. Mas ao olhar para aquele homem, sentado ali, tremendo, com a testa suada e o olhar perdido, outra coisa falou mais alto.

— Eu não tenho medo de você. — repetiu, mais firme dessa vez — Tenho medo do que pode ter acontecido com você. É diferente.

Ele absorveu aquilo calado, como se fossem palavras que ele precisava ouvir, mas não se achasse digno de acreditar.

O resto da tarde se arrastou num clima estranho.

Paolo ficou mais quieto, mexendo em objetos sem muito foco, como se tivesse medo de ficar sozinho com os próprios pensamentos. De vez em quando, levava a mão à cabeça, como se procurasse algo que não conseguia alcançar.

Alya fingia normalidade, lavando louça, dobrando roupa, mas o olhar vivia indo até ele, atento a qualquer sinal de outra crise.

Quando anoiteceu, a casa parecia ainda menor. O escuro lá fora colava nas janelas como se quisesse entrar.

— Quer que eu durma no sofá hoje? — ele perguntou de repente, enquanto ela apagava a luz da sala.

Ela se virou, surpresa.

— Por quê?

— Porque… — ele hesitou — se eu tiver outro desses… desses surtos… não quero te assustar.

Alya o encarou por alguns segundos. Depois caminhou até ele e cruzou os braços.

— Paolo. — chamou, séria — Você tem crise, eu tenho insônia, a conta de luz atrasou mês passado e a porta do banheiro range. Eu já estou acostumada a me assustar aqui dentro. — deu de ombros — Vem dormir. É mais fácil cuidar de você se você estiver perto.

Um sorriso fraco nasceu no canto da boca dele, se abrindo devagar.

— Você fala como se eu fosse um cachorro grande que você adotou.

— Não foi exatamente você que apareceu atropelado na estrada, todo machucado, sem dono, sem coleira e sem memória? — ela rebateu, erguendo uma sobrancelha.

Ele riu de leve.

— Golden Retriever. — lembrou.

— Exatamente. — ela assentiu. — Meu Golden.

Os dois foram juntos para o quarto. O simples ato de compartilhar aquele espaço agora parecia ainda mais significativo. Não era apenas desejo, nem apenas carinho. Era uma decisão de permanecer.

Mais tarde, quando o silêncio tomou conta da casa e Alya finalmente adormeceu, o mundo pareceu diminuir até caber no quarto pequeno. Paolo, no entanto, demorou a pegar no sono.

Ficou deitado de lado, olhando o teto, sentindo o coração bater num ritmo estranho. Fechou os olhos algumas vezes, tentando empurrar as imagens do carro preto, dos gritos, do sangue, da arma. Mas elas teimavam em voltar, como se alguém, lá no fundo de sua mente, insistisse em girar um filme antigo e danificado.

Ele se virou devagar, até ficar de frente para Alya. Ela dormia tranquila, de lado, uma mão estendida sobre o lençol. O rosto suave, os cabelos um pouco bagunçados. Nada nela parecia combinar com o mundo escuro que ele havia visto atrás dos olhos horas antes. E foi exatamente isso que o assustou.

— “E se eu fizer parte daquele mundo? E se eles vierem atrás de mim? E se machucarem ela?”

O peito dele apertou. A garganta também. Com cuidado, para não acordá-la, Paolo entrelaçou seus dedos nos dela. A mão dela era pequena comparada à dele, mas o encaixe pareceu perfeito.

Ficou assim por alguns segundos, só sentindo o calor da pele dela.

As palavras saíram num sussurro, quase sem som, como se tivessem medo de existir demais.

— Alya… — sussurrou.

Ela não respondeu. Um suspiro leve escapou dos lábios dela, mas o sono permaneceu.

Ele se aproximou um pouco mais, o rosto perto da mão dela, os olhos presos no contorno sereno daquele rosto que, de algum modo, tinha se tornado o centro do mundo dele.

— Se um dia eu esquecer você… — continuou, a voz embargada — me faça lembrar, por favor.

Engoliu em seco.

— Me faça lembrar.

Era um pedido simples, mas carregado de tudo o que ele não sabia como organizar dentro de si. Medo, amor, culpa, esperança. Tudo misturado.

Apertou um pouco mais a mão dela, como se quisesse firmar um pacto ali.

Lá fora, o vento mexia nas árvores da pequena floresta. Em algum lugar distante, talvez, um carro preto rodava por outra estrada, levando consigo mistérios que logo chegariam àquela casa simples.

Por enquanto, porém, só existia o quarto pequeno, o som da respiração calma de Alya e o coração inquieto de um homem que começava a entender que seu passado não era apenas vazio.

E, mesmo sem lembrar de nada, Paolo já sabia de uma coisa com absoluta certeza:

Entre todas as memórias que ainda poderiam voltar, havia uma que ele não suportaria perder. O rosto dela. O toque dela. A vida que haviam começado a construir juntos naquele lugar.

Ele fechou os olhos, ainda segurando a mão dela, e deixou o sono chegar devagar, carregando consigo o último pensamento da noite:

— “Que, aconteça o que acontecer… ela seja a parte que fique.”

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