Capítulo 4.1

Aquele homem grande, de olhar cinza, cicatrizes no corpo e nenhuma memória do passado… falava com uma honestidade que ela não via há muito tempo em ninguém. E era exatamente isso que a apavorava.

Mais tarde, durante o café da manhã na cozinha, ela tentou fingir que nada tinha mudado. Colocou o pão na mesa, passou manteiga, comentou sobre o tempo.

— Parece que hoje não chove, graças a Deus. — disse, encarando a janela.

— Que bom. — respondeu ele — Você odeia dirigir com frio e chuva atrapalhando a visão.

Ela ergueu uma sobrancelha.

— E como você sabe disso?

— Você reclama todo dia. — ele respondeu, dando de ombros — Eu presto atenção.

Ela não soube se ria ou se chorava. Em vez disso, mordeu o pão e deixou o silêncio se alongar por alguns segundos.

Mas era impossível manter a normalidade por muito tempo. Não quando, toda vez que esticava o braço, esbarrava nele. Ou quando, ao passar atrás da cadeira dele, sentia a mão dele encostar de leve em sua cintura, como se confirmasse para si mesmo que ela estava ali de verdade.

Em um desses toques, ela perdeu o foco.

— Você faz isso de propósito? — perguntou, meio rindo, meio séria.

— O quê?

— Encostar em mim toda hora. — explicou, cruzando os braços.

Paolo parou, pensou por um momento e então sorriu, sem vergonha.

— Faço. — respondeu, direto — Porque eu ainda não acredito totalmente que ontem foi real. Então… eu fico checando.

Ela o encarou, surpresa com a resposta tão simples.

— Você é sincero demais.

— E você é muito mais corajosa do que parece. — retrucou — Me deixar ficar aqui, cuida de mim, me deixa tocar… — fez uma pausa, procurando a palavra certa — tão perto.

O clima voltou a pesar de leve. Ele apoiou os cotovelos na mesa, entrelaçando os dedos.

— Alya, o que significa o amor pra você?

A pergunta veio do nada, mas carregada de verdade. Ela engoliu em seco.

— Amor? — repetiu, como se fosse uma palavra estranha.

— É. — ele confirmou. — Eu não lembro se já amei alguém. Não lembro se alguém já me amou. Mas… — fez uma careta, encostando na mesa com o queixo — se eu tiver que aprender agora, eu queria saber o que isso significa pra você.

Ela ficou alguns segundos calada, olhando para as próprias mãos. Passou o polegar por uma marquinha antiga na pele, lembrança de outro tempo, outra pessoa, outras dores.

— Amor, pra mim… — começou, com cuidado — é algo que eu deixei de acreditar.

As palavras saíram mais duras do que ela esperava. Paolo a observava, atento, respeitando o momento.

— Dói demais. — continuou. — As pessoas falam de amor como se fosse sempre bonito, como se valesse qualquer coisa. Mas… — respirou fundo — amar, pra mim, foi sempre sinônimo de perder. Abrir mão. Doer sozinha enquanto o outro seguia em frente.

Ela riu, mas não havia alegria naquele som.

— Então… em algum momento, eu decidi que bastava. Que eu ia viver só com o necessário. Trabalho, um teto, um pouco de paz. Sem amor. Sem expectativa. — ergueu os olhos até encontrar os dele — É mais seguro assim.

Paolo não respondeu de imediato. Levantou-se devagar, contornou a mesa e parou ao lado da cadeira dela. Se abaixou um pouco, ficando na altura do rosto dela.

— Então me deixa te ensinar outro tipo de amor. — disse, com a voz baixa, sério como raramente ficava.

Ela engoliu em seco.

— Paolo…

— Um amor que não te peça pra se diminuir pra caber em ninguém. — continuou. — Que não vá embora quando você mais precisar. Que não te faça duvidar de quem você é.

Ela sentiu algo estremecer por dentro.

— E como você sabe que consegue me ensinar isso, se nem lembra da sua própria vida?

Ele sorriu de canto, inclinando um pouco a cabeça.

— Justamente por isso. — respondeu — Porque com você eu não tenho passado. Só futuro. Dá menos vontade de estragar.

Ela soltou uma risada fraca, mas os olhos brilhavam. Paolo ergueu a mão e segurou o rosto dela com delicadeza, o polegar acariciando de leve a pele quente. Alya fechou os olhos por um instante, quase sem perceber.

— Eu não posso prometer que vou ser perfeito. — confessou — Mas posso prometer que… enquanto estiver aqui, enquanto for esse “Paolo” que você batizou… vou te olhar como se fosse a coisa mais importante que já me aconteceu. Porque é isso que parece.

Ela abriu os olhos, e o que viu ali a desarmou por completo. Não havia joguinho, não havia medo de parecer fraco. Havia só a verdade.

Ela respirou fundo.

— Você fala como se… — começou, mas a voz falhou. — Como se fosse fácil acreditar de novo.

— Não é fácil. — ele respondeu, sem hesitar — Mas eu posso ir tentando, todos os dias. — aproximou-se um pouco mais — A gente pode ir tentando junto.

Alya sentiu as defesas caírem, uma a uma, como castelos de areia levados pela maré.

Naquele dia, nada grandioso aconteceu de fora pra dentro. Não houve tempestade, não houve gritos, não houve drama. Houve apenas um acordo, firmado entre olhares e toques.

A partir desse dia, as paredes daquele pequeno lar se tornaram testemunhas de algo novo. Beijos profundos começavam na cozinha, entre o cheiro de comida e o barulho da chaleira.

Continuavam na sala, entre risadas, almofadas jogadas e comentários bobos sobre programas de TV que nenhum dos dois prestava atenção de verdade. Terminavam, quase sempre, no quarto, onde o mundo parecia se resumir a dois corpos cansados do dia, mas famintos um do outro.

As noites de entrega não eram só físicas. Eram feitas de conversas baixas no escuro, confissões sussurradas com medo de acordar o passado, promessas ditas sem perceber.

— Eu estou aqui, estrela. — ele sussurrava às vezes, com o rosto colado ao pescoço dela.

— Eu também, gigante. — ela respondia, segurando a mão dele com força.

E, a cada dia que passava, o sentimento que crescia entre eles ganhava raízes mais profundas, mesmo que ainda não tivesse nome.

Ali, naquele lar simples, com móveis usados e velas guardadas em potes de vidro, Alya e Paolo construíam algo que nenhum dos dois planejou. Algo que nascia entre um toque e outro, uma palavra e um momento, um medo e uma coragem nova. Era frágil. Era intenso. Era real. E, sem que percebessem, já era amor.

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