Dante
O Rio de Janeiro jamais adormece; apenas se transforma.
Ao cair da noite, a cidade troca o calor implacável do dia por uma umidade densa que se cola à pele. Lâminas brilhantes de carros cortam a avenida, e as luzes invadem os quartos. Sons de vozes em esquinas distantes flutuam no ar. Tudo vibra, tudo distrai. Contudo, não estou aqui para me perder neste espetáculo.
Vim por Alexandra.
E, ainda assim, era Donatella quem ocupava cada espaço entre uma respiração e outra.
Eu a odiava. Odiava a maneira como ela se instalava em mim, sem a minha permissão. No meu mundo, só o que é útil tem direito de existir. Sentimentos são fraqueza, uma vulnerabilidade. São a brecha que faz homens fortes se curvarem diante daqueles que não conhecem a piedade.
Donatella, por outro lado, sempre se destacou. Não era só a beleza ou aquela maneira de falar que sugeria segredos não ditos. O que a definia era a vulnerabilidade velada por uma fachada de orgulho. Havia uma tristeza sutil em seu olhar quando e