Mundo de ficçãoIniciar sessãoHoje
Dona Olívia me viu chegando e enxugou os olhos. Seu
rosto está abatido, e percebo que ela emagreceu bastante. ― Oi, Iara. Você está bem? ― Na medida do possível. Fui até a clínica, apliquei algumas vacinas, fui à igreja e conversei com um padre. Depois disso me senti melhor... ― Foi à igreja? Que bom... ― responde ela, com surpresa. O senhor Artur também estava lá e ele me parece mais velho e mais magro. Acho que está comendo menos e fumando mais. ― O médico deu alguma notícia? ― pergunto, temendo a resposta.― Estamos esperando. Ele está fazendo alguns exames,
mas está demorando para voltar. Ficamos em silêncio, ouvindo os barulhos de pessoas andando de um lado para o outro. Fico analisando o piso cinza, as madeiras do corrimão, as paredes descascadas e macas largadas nos corredores. O cheiro começa a me enjoar, respiro fundo e fico me segurando para não vomitar. Sinto uma leve tontura. Definitivamente o estresse está me atingindo em cheio. O médico chega e nos chama para o quarto de Lucas. Levantamo-nos e dona Olívia segura meu braço. Sinto-me grata, pois não me sinto muito firme, e o enjoo está mais forte. Quando entramos, meu coração dispara, e sinto as pernas bambearem. Se a dona Olívia não tivesse me segurando, eu teria caído. Lucas está sem o tubo na boca, mas ainda tem os adesivos colados no peito e o oxímetro em seu dedo. O soro pinga lentamente. Há um curativo em sua testa, e outro na lateral da cabeça, onde o cabelo foi raspado, bem ao lado onde o caminhão nos pegou. Ele parece mais magro. Quatro dias e já havia uma diferença. ― Bem, chamei vocês aqui para passar as últimas atualizações. O Lucas está respondendo muito bem. Como podem ver, ele está respirando sozinho, e o inchaço já diminuiu completamente, o que é muito bom! Mas agora vem a parte mais difícil. Temos que esperar ele acordar, e não podemos preverquando isso irá acontecer. O que nos resta é monitorizá-lo e
aguardar. ― Sabe se ele ficou com sequelas? ― pergunto. ― Aparentemente, não. Pelos exames, não houve nenhuma alteração, mas só teremos certeza quando ele acordar. É aí que o dia fica ainda mais longo. Dona Olívia, senhor Artur e eu ficamos nos revezando no quarto. Primeiro, dona Olívia ficou mais de uma hora, depois o senhor Artur, e gostei de ser a última, pois me deu tempo de vomitar bastante o que já não tinha mais na barriga. Quando entro no quarto, sinto novamente a náusea me invadir, mas fecho os olhos e logo a sensação passa. Pego na mão de Lucas, que está fria. Sento-me ao seu lado e suspiro, olhando seu rosto. Queria que os olhos dele estivessem abertos. Eles eram tão quentes, cheios de vida e com um brilho que lembrava a alegria. Queria ver o seu sorriso, ouvir a sua risada. Parecia que fazia tanto tempo. ― Acorda, Luli, cansei de te ver dormindo! Temos que planejar nosso casamento, você tem que me dar o anel de noivado ― falo, esperando que a lembrança do casamento funcione. No entanto, Lucas nem se mexe. Deito a cabeça na mão dele, e fico pedindo a Deus, como o padre me ensinou.Mas parece que Ele não me ouviu. Após um tempo, a
enfermeira vem até o quarto e pede para que eu vá para casa, pois não é permitido acompanhantes no período da noite. ― Mas se ele acordar, estará sozinho... ― Não se preocupe. Nós vamos avisar a vocês. Quando ele acordar, será transferido para o quarto. A visita então será liberada. ― Você não me entendeu. Quero estar aqui quando ele acordar. ― Iara, nós já estamos quebrando regras deixando você entrar aqui fora de horário não sendo oficialmente da família. ― Entendo, vocês vão me ligar, né? ― Tem a minha palavra! ― responde prontamente. Agradeço, e saio do quarto. Despeço-me de dona Olívia, que estava ocupando meu lugar. ― Eu também queria ficar ao lado dele, mas a enfermeira tem razão, não adianta ficar a noite inteira aqui. Vamos acabar adoecendo. Vou me despedir e vou para casa. ― Sim, mas não vou conseguir dormir ― respondo, ela me dá um beijo e entra com o marido. Saio do hospital e vou para casa. Ao entrar na sala, vejo meu pai sentado no sofá com seu controle do Playstation 5 na mão. No jogo, ele está no meio de uma investigação, um homem de cavalo anda na estrada. Adoro vê-lo assim, de shorts, descalço,com camiseta, bem despojado. Geralmente seus trajes são mais
sérios, como se estivesse sempre pronto para salvar alguém. ― Cadê todo mundo? ― pergunto. Vejo um copo grande de coca e uma tigela só com grãos de pipoca, indicando que ele está sozinho há algum tempo. ― Sua mãe está no hospital com uma mulher que pode dar a luz a qualquer momento, sua irmã foi para a faculdade. E você? Estava no hospital? ― Sim ― respondo, sentando-me no sofá e tirando meus tênis para pôr os pés em cima do estofado. Bruce vem correndo e sobe, começando a me cheirar. Meu pai me observa com seus olhos castanhos, analíticos, buscando todas as respostas. ― Eu estava de folga hoje. ― Percebi. Está sem sua armadura ― respondo, rindo, e logo emendo: ― Tiraram o tubo da garganta dele. Lucas está respirando sozinho. Falaram que é um bom sinal, mas agora só depende dele. Eu queria ter ficado lá, mas não permitem acompanhantes à noite. Meu pai me observa, suspira e me puxa para acariciar meu cabelo, como quando eu era pequena e não conseguia fazer alguma coisa. Mas também acho que tudo isso está afetando ele de alguma forma. Meu pai é chefe da emergência e um dos cirurgiõesde ortopedia mais renomados da cidade. Pessoas de outro estado
vêm se operar com ele. Acredito que ele se sente impotente em não poder salvar o Lucas. Não o deixaram nem assistir às cirurgias por ele ter laços com o paciente. O Dr. Felipe era muito ético. ― Vou tentar buscar mais informações e ter certeza de que ele está bem ― fala, e me dá um beijo no cabelo. ― Que tal me ajudar a desvendar o mistério do jogo? Não entendo como o Geralt vai sair dessa. Meu pai adora jogos de RPG, e quando eu era pequena sempre jogávamos juntos. Eu o ajudava com os jogos, especialmente aqueles que tinham livros, lendo as histórias para ele. ― Posso tomar banho e comer antes? Entro no quarto em busca de uma roupa confortável para vestir, tomo um banho relaxante, como algo, e então vou fazer companhia para papai.






