Cap 8

Hoje

Dona Olívia me viu chegando e enxugou os olhos. Seu

rosto está abatido, e percebo que ela emagreceu bastante.

― Oi, Iara. Você está bem?

― Na medida do possível. Fui até a clínica, apliquei

algumas vacinas, fui à igreja e conversei com um padre. Depois

disso me senti melhor...

― Foi à igreja? Que bom... ― responde ela, com

surpresa.

O senhor Artur também estava lá e ele me parece mais

velho e mais magro. Acho que está comendo menos e fumando

mais.

― O médico deu alguma notícia? ― pergunto, temendo a

resposta.

― Estamos esperando. Ele está fazendo alguns exames,

mas está demorando para voltar.

Ficamos em silêncio, ouvindo os barulhos de pessoas

andando de um lado para o outro. Fico analisando o piso cinza, as

madeiras do corrimão, as paredes descascadas e macas largadas

nos corredores. O cheiro começa a me enjoar, respiro fundo e fico

me segurando para não vomitar. Sinto uma leve tontura.

Definitivamente o estresse está me atingindo em cheio.

O médico chega e nos chama para o quarto de Lucas.

Levantamo-nos e dona Olívia segura meu braço. Sinto-me grata,

pois não me sinto muito firme, e o enjoo está mais forte. Quando

entramos, meu coração dispara, e sinto as pernas bambearem. Se a

dona Olívia não tivesse me segurando, eu teria caído. Lucas está

sem o tubo na boca, mas ainda tem os adesivos colados no peito e

o oxímetro em seu dedo. O soro pinga lentamente. Há um

curativo em sua testa, e outro na lateral da cabeça, onde o cabelo

foi raspado, bem ao lado onde o caminhão nos pegou. Ele parece

mais magro. Quatro dias e já havia uma diferença.

― Bem, chamei vocês aqui para passar as últimas

atualizações. O Lucas está respondendo muito bem. Como podem

ver, ele está respirando sozinho, e o inchaço já diminuiu

completamente, o que é muito bom! Mas agora vem a parte mais

difícil. Temos que esperar ele acordar, e não podemos prever

quando isso irá acontecer. O que nos resta é monitorizá-lo e

aguardar.

― Sabe se ele ficou com sequelas? ― pergunto.

― Aparentemente, não. Pelos exames, não houve

nenhuma alteração, mas só teremos certeza quando ele acordar.

É aí que o dia fica ainda mais longo. Dona Olívia, senhor

Artur e eu ficamos nos revezando no quarto. Primeiro, dona

Olívia ficou mais de uma hora, depois o senhor Artur, e gostei de

ser a última, pois me deu tempo de vomitar bastante o que já não

tinha mais na barriga.

Quando entro no quarto, sinto novamente a náusea me

invadir, mas fecho os olhos e logo a sensação passa. Pego na mão

de Lucas, que está fria. Sento-me ao seu lado e suspiro, olhando

seu rosto. Queria que os olhos dele estivessem abertos. Eles eram

tão quentes, cheios de vida e com um brilho que lembrava a

alegria. Queria ver o seu sorriso, ouvir a sua risada. Parecia que

fazia tanto tempo.

― Acorda, Luli, cansei de te ver dormindo! Temos que

planejar nosso casamento, você tem que me dar o anel de noivado

― falo, esperando que a lembrança do casamento funcione. No

entanto, Lucas nem se mexe. Deito a cabeça na mão dele, e fico

pedindo a Deus, como o padre me ensinou.

Mas parece que Ele não me ouviu. Após um tempo, a

enfermeira vem até o quarto e pede para que eu vá para casa, pois

não é permitido acompanhantes no período da noite.

― Mas se ele acordar, estará sozinho...

― Não se preocupe. Nós vamos avisar a vocês. Quando

ele acordar, será transferido para o quarto. A visita então será

liberada.

― Você não me entendeu. Quero estar aqui quando ele

acordar.

― Iara, nós já estamos quebrando regras deixando você

entrar aqui fora de horário não sendo oficialmente da família.

― Entendo, vocês vão me ligar, né?

― Tem a minha palavra! ― responde prontamente.

Agradeço, e saio do quarto. Despeço-me de dona Olívia,

que estava ocupando meu lugar.

― Eu também queria ficar ao lado dele, mas a enfermeira

tem razão, não adianta ficar a noite inteira aqui. Vamos acabar

adoecendo. Vou me despedir e vou para casa.

― Sim, mas não vou conseguir dormir ― respondo, ela

me dá um beijo e entra com o marido.

Saio do hospital e vou para casa. Ao entrar na sala, vejo

meu pai sentado no sofá com seu controle do Playstation 5 na

mão. No jogo, ele está no meio de uma investigação, um homem

de cavalo anda na estrada. Adoro vê-lo assim, de shorts, descalço,

com camiseta, bem despojado. Geralmente seus trajes são mais

sérios, como se estivesse sempre pronto para salvar alguém.

― Cadê todo mundo? ― pergunto.

Vejo um copo grande de coca e uma tigela só com grãos

de pipoca, indicando que ele está sozinho há algum tempo.

― Sua mãe está no hospital com uma mulher que pode

dar a luz a qualquer momento, sua irmã foi para a faculdade. E

você? Estava no hospital?

― Sim ― respondo, sentando-me no sofá e tirando meus

tênis para pôr os pés em cima do estofado.

Bruce vem correndo e sobe, começando a me cheirar. Meu

pai me observa com seus olhos castanhos, analíticos, buscando

todas as respostas.

― Eu estava de folga hoje.

― Percebi. Está sem sua armadura ― respondo, rindo, e

logo emendo: ― Tiraram o tubo da garganta dele. Lucas está

respirando sozinho. Falaram que é um bom sinal, mas agora só

depende dele. Eu queria ter ficado lá, mas não permitem

acompanhantes à noite.

Meu pai me observa, suspira e me puxa para acariciar meu

cabelo, como quando eu era pequena e não conseguia fazer

alguma coisa.

Mas também acho que tudo isso está afetando ele de

alguma forma. Meu pai é chefe da emergência e um dos cirurgiões

de ortopedia mais renomados da cidade. Pessoas de outro estado

vêm se operar com ele. Acredito que ele se sente impotente em

não poder salvar o Lucas. Não o deixaram nem assistir às

cirurgias por ele ter laços com o paciente. O Dr. Felipe era muito

ético.

― Vou tentar buscar mais informações e ter certeza de

que ele está bem ― fala, e me dá um beijo no cabelo. ― Que tal

me ajudar a desvendar o mistério do jogo? Não entendo como o

Geralt vai sair dessa.

Meu pai adora jogos de RPG, e quando eu era pequena

sempre jogávamos juntos. Eu o ajudava com os jogos,

especialmente aqueles que tinham livros, lendo as histórias para

ele.

― Posso tomar banho e comer antes?

Entro no quarto em busca de uma roupa confortável para

vestir, tomo um banho relaxante, como algo, e então vou fazer

companhia para papai.

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