Mundo de ficçãoIniciar sessãoKaleb
No começo, era apenas sobrevivência. Eu estava quebrado, sangrando, caído à beira de uma morte lenta. Quando a filha do Rei Lobo apareceu, pensei que fosse meu fim, bastava um grito, e o clã inteiro teria minha cabeça enfeitada no portão da fortaleza. Mas ela não gritou. Trouxe água. Depois comida. Depois tempo. E ali estava a ironia da lua… a herdeira do homem que meu pai odiava me oferecia vida. O sangue dela corria como promessa em minha mente desde criança. Cresci ouvindo que, um dia, a filha do Alfa inimigo seria moeda para pagar nossas dívidas de guerra. Agora, ferido e à beira do abismo, o destino a colocava diante de mim. Selene. Era o nome que ela me ofereceu como quem entrega uma chave. Eu pretendia usar aquela chave apenas para manter a porta da vida aberta por mais um dia e, quando chegasse a hora certa, para abri-la em direção à ruína do clã dela. Mas cada vez que ela voltava, com a luz no olhar e as mãos trêmulas tentando me curar, a chave virou lâmina. E comecei a sentir cortes onde não devia. Ela falava demais para alguém que devia temer. Contava histórias da fortaleza, dos vestidos que odiava, das broncas do pai, do jeito que a loba dela resmungava dentro da mente. E eu… ouvia. Pior, gostava de ouvir. Eu, Kaleb, filho amaldiçoado de um Alfa que me jogou às sombras, estava sendo enfeitiçado pela pureza de uma princesa. E essa era a primeira falha do meu plano: eu devia apenas aproximar-me, ganhar sua confiança, e depois traí-la. Mas em vez de uma armadilha, encontrei um abrigo. — Não olhe assim pra mim. — ela disse um dia, segurando meu braço firme para trocar a faixa. — Assim como? — Como se eu fosse um enigma que você quer decifrar. Sorri, mas não respondi. Porque ela tinha razão. Eu queria decifrar. Queria traduzir cada traço da boca dela. E, quando percebi, já estava perdido. Foi numa noite de chuva que a fronteira se rompeu. O trovão sacudiu a caverna, e Selene pulou de susto, o rosto iluminado pelo clarão. A chama da lamparina tremia com o vento que entrava pela fenda da rocha. Ela vinha molhada, o manto colado ao corpo, o cheiro de floresta grudado na pele. Eu deveria ter mandado embora, porque cada vez que ela se aproximava, meu lobo lembrava: — “Ela é filha do seu inimigo.” — Mas o “vá” nunca passou da garganta. — Trouxe pão, mas ele se molhou. — disse, mostrando a trouxa encharcada. Riu, sem graça — Acho que hoje não temos jantar. — Não preciso de pão. — respondi — Já trouxe o suficiente. Ela ergueu o olhar, confusa, até perceber a intensidade no meu tom. As bochechas coraram. Eu não aguentei mais. Puxei-a contra mim. O choque fez o pão cair e espalhar migalhas úmidas no chão. Meus braços a prenderam, e senti o corpo pequeno estremecer. Ela deveria ter me empurrado. Mas não empurrou. — Kaleb… — o sussurro dela se perdeu entre o barulho da tempestade. Minha boca encontrou a dela. Não houve delicadeza, só fome acumulada. O beijo foi duro, mas Selene respondeu com doçura que quebrou minha fúria no meio. Um gemido escapou, e soube que não era só meu. Minhas mãos deslizaram pelo corpo dela, encontrando o calor escondido sob o vestido. O tecido úmido grudava na pele, e eu a toquei como quem tateia fogo. Os dedos subiram pelas coxas, e ela arqueou, o som da respiração dela misturado ao rugido da chuva. — Eu não devia… — ela sussurrou, mas o quadril buscou o meu. — Então não me peça pra parar. — pedi, a voz rouca. Ela gemeu baixo quando deslizei a mão mais alto, sentindo a maciez proibida. Minha boca desceu para o pescoço, saboreando o sal da pele misturado à água da tempestade. Selene agarrou meus ombros, os dedos afundando como garras. Não fomos até o fim. Parte de mim sabia que se a tomasse por completo, não haveria volta. E parte de mim, mais cruel, sabia que quanto mais ela se entregasse, mais fácil seria quebrá-la no futuro. Mas naquele instante, nos perdemos. O gemido dela, abafado contra meus lábios, foi o som mais verdadeiro que já ouvi. Quando o cansaço venceu, Selene adormeceu aninhada no meu peito, o vestido amarrotado, os lábios inchados. Afaguei os fios de cabelo grudados na testa dela, e pela primeira vez em anos, desejei parar o tempo. Olhei-a dormindo e sussurrei: — Perdão, pequena loba… você não sabe a verdade. E meu mundo cobra dívidas. O trovão respondeu por mim, como se a própria lua registrasse meu crime. A respiração dela era calma, quente contra meu peito. Minha mão ainda repousava em sua cintura, mas meus olhos estavam abertos, fixos na escuridão da caverna. Foi então que ouvi, dentro de mim, a voz grave e feroz que sempre me acompanhava. — “Você enlouqueceu, Kaleb.” — A voz de meu lobo, Raegar, era acusatória — “Ela é a filha do Rei. A herdeira.” — Eu sei quem ela é. — Apertei os dentes, para não acordá-la — Sei melhor do que ninguém. — “Então por que a toca como se fosse sua? Por que deixa a marca do seu cheiro nela?” Fechei os olhos. O cheiro dela já estava entranhado em mim: mel, bosque, luar. — Porque eu não consigo evitar. Ela me salvou, Raegar. Quando devia me deixar sangrar até morrer, me deu vida. O lobo rosnou dentro de mim, inquieto. — “Vida ou fraqueza? Não enxerga? Cada vez que aceita o pão dela, cada vez que respira esse perfume, está se acorrentando.” — Talvez eu precise dessas correntes. — admiti, a voz baixa — Pela primeira vez em anos, sinto algo que não é raiva. — “Raiva mantém você vivo. Amor mata.” Olhei o rosto adormecido de Selene, iluminado de leve pelo clarão distante dos relâmpagos. Beijei sua testa com um cuidado que eu não reconhecia em mim. — Se isso for morrer… que seja. Raegar silenciou, mas a sensação de garras arranhando minha alma ficou. Eu sabia que meu lobo tinha razão, o destino que carregava era de sangue, não de ternura. Mas, ao mesmo tempo, o peso dela em meus braços parecia mais forte que qualquer maldição. Suspirei, derrotado e rendido: — Perdão, pequena loba. Perdão a você… e a mim. Deixei Selene adormecida na caverna e caminhei até a borda do bosque, deixando a chuva lavar meu rosto. O ar da noite trouxe comigo o cheiro de sangue velho, lembrança dos últimos homens que atravessei sem piedade. Eles eram apenas caçadores, mas ousaram zombar do nome que eu carrego. Parti seus ossos um a um, ouvindo os gritos ecoarem como música. A cada uivo de dor, Raegar rugia satisfeito dentro de mim. Eu não hesitei. Nunca hesito quando se trata de mostrar força. — “Você esqueceu quem é? E o que veio fazer?” — meu lobo me provocou — “Acha que a princesa apagará o predador em você?” Sorri, lembrando dos olhos de Selene brilhando de inocência. — Ela não sabe. Não pode saber. — sussurrei — Se descobrisse o que minhas mãos pretendem fazer, jamais me olharia como olha agora. Minha crueldade é meu escudo, meu legado. Não peço perdão por ela. Sou filho do Alfa inimigo, criado entre açoites e sangue. Não conheço ternura sem custo. Voltei à caverna com a mesma boca que um dia arrancou súplicas e agora beijava a princesa adormecida. Esse era meu pecado, eu sabia que podia destruí-la… e ainda assim desejava ser o único a tê-la.






