Capítulo 2
A voz animada de Renata veio imediatamente do outro lado da linha.

— Que ótimo, Ju! Então vamos começar a cuidar da documentação. Quando estiver tudo pronto… não vai ter mais como voltar atrás.

Juliana apertou o celular com força. As pontas dos dedos tremiam levemente, mas mesmo assim respondeu com firmeza:

— Eu não vou voltar atrás.

Renata já estava prestes a desligar quando pareceu se lembrar de algo. Com cautela, perguntou:

— Ah, Ju… E aquele seu namorado? Você não disse que correu atrás dele por tanto tempo? Que gostava muito dele?

As palavras "seu namorado" foram como um espinho cravado diretamente em seu coração.

Num instante, a mente de Juliana foi invadida por lembranças.

As gargalhadas cruéis ecoando no quarto do hospital.

Leonardo recostado na cama, mexendo no celular com aquela expressão preguiçosa.

Os amigos dele zombando sem qualquer pudor.

E a verdade mais cruel de todas…

Ele tinha desperdiçado três anos inteiros apenas para se vingar dela por causa de Cecília.

O coração de Juliana se contraiu violentamente, como se uma mão invisível o apertasse com toda a força. A dor foi tão intensa que quase a deixou sem ar.

— Não gosto mais dele. — Ela ouviu a própria voz sair rouca, mas estranhamente calma. — Nunca mais vou gostar.

Depois de desligar, Juliana ficou parada à beira da rua, deixando o vento frio bagunçar seus cabelos.

Ergueu os olhos para o céu acinzentado. Respirou fundo.

Então se virou e caminhou em direção ao lugar que ainda chamava de casa.

No instante em que abriu a porta, um cheiro familiar a envolveu.

Juliana parou na entrada e olhou para a sala.

Cada detalhe ali lhe era familiar demais.

Aquele era o apartamento de Leonardo.

Foi ele quem lhe deu a chave depois de aceitar sua confissão.

Naquele dia, encostado casualmente no batente da porta, ele dissera com naturalidade:

— Vamos morar juntos.

Na época, ela ficou envergonhada e feliz ao mesmo tempo, acreditando que aquele era o verdadeiro começo da história deles.

Chegou até a imaginar, em segredo, que um dia…

Eles se casariam ali.

Teriam filhos.

E passariam juntos uma vida inteira.

Agora, porém…

Tudo aquilo parecia apenas uma ironia cruel.

Morar juntos?

Agora Juliana entendia.

Aquilo nunca foi amor.

Era apenas a forma mais conveniente de continuar se vingando dela.

Ela não sabia o quanto Leonardo gostava de Cecília para ser capaz de fazer tudo aquilo.

Três anos.

Três anos desperdiçados ao lado dela.

Dividindo a mesma casa.

E até fazendo amor com ela tantas vezes.

Tudo isso apenas para fazê-la acreditar que ele realmente gostava dela.

Nos três dias seguintes, Juliana não voltou ao hospital uma única vez para ver Leonardo.

Ela se trancou em casa.

E começou a juntar tudo o que tivesse qualquer relação com ele.

Primeiro encontrou o diário que havia escrito na época em que o amava em segredo.

Era um caderno grosso.

Cada página estava cheia de pensamentos e sentimentos que ela jamais tinha contado a ninguém.

"Hoje encontrei ele de novo na biblioteca.

Ele estava usando uma camisa branca… E estava tão bonito."

"Hoje ele falou comigo.

Foi só para pedir que eu passasse um livro, por educação…

Mas mesmo assim eu fiquei feliz o dia inteiro."

"Ele aceitou ficar comigo…

Será que eu estou sonhando?"

Juliana foi virando as páginas uma a uma.

As lágrimas escorriam silenciosamente.

Então ela fechou o diário.

E o jogou dentro de um saco de lixo.

Era como se estivesse arrancando de si mesma, pouco a pouco, todo o amor que um dia sentiu por ele.

Depois vieram os presentes que ela tinha dado a Leonardo.

Um colar.

Um relógio.

Um casaco.

Cada objeto carregava a alegria e a expectativa que ela havia sentido naquela época.

Por último…

Vieram todas as fotos que ela tinha tirado dele escondida.

Nas fotos, Leonardo aparecia em diferentes momentos.

Às vezes discursando no palco.

Às vezes jogando basquete.

Às vezes encostado no corredor, conversando com alguém.

E em cada uma delas…

Ele fazia o coração dela disparar.

Ela jogou tudo no lixo.

Como se, ao fazer aquilo, estivesse se despedindo da garota que um dia foi.

No final da tarde do terceiro dia, Juliana finalmente terminou de organizar a última coisa.

Ficou parada no meio da sala, olhando para o apartamento agora quase vazio.

Estranhamente…

Sentia uma leveza parecida com libertação.

Foi nesse momento que a porta se abriu.

Leonardo entrou.

O olhar dele percorreu o apartamento, agora muito mais vazio do que antes. Suas sobrancelhas se franziram.

— O que você jogou fora?

Juliana levantou a cabeça. Seu olhar estava calmo.

— Nada demais. Só algumas coisas desnecessárias.

Leonardo deu alguns passos na direção dela. Havia um leve traço de irritação em sua voz.

— Eu me machuquei daquele jeito… E você nem foi me ver no hospital?

Juliana puxou levemente o canto dos lábios. O tom saiu frio.

— Você não já recebeu alta? Se estivesse tão gravemente ferido assim, não teria voltado tão rápido.

Leonardo ficou momentaneamente surpreso.

Então explicou:

— Ouvi dizer que você doou bastante sangue para mim. Fiquei preocupado com você, então voltei para ver como estava.

Depois de falar, o olhar dele caiu sobre o braço dela.

Sua voz, raramente, soou mais suave.

— Está doendo?

Juliana recolheu o braço.

— Não.

Leonardo percebeu a frieza dela. Suas sobrancelhas se cerraram ainda mais.

— Aconteceu alguma coisa nesses dias? Foi só eu ficar internado que você mudou desse jeito?

Juliana curvou levemente os lábios, formando um sorriso fraco.

— Mudei como?

Leonardo não respondeu.

Mas os dois sabiam.

A Juliana de antes olhava para ele com os olhos cheios de amor.

Mesmo quando ele pegava um simples resfriado, ela entrava em pânico, como se fosse algo gravíssimo. Queria ficar ao lado dele o tempo todo.

Mas agora…

Ele ficou três dias no hospital.

E ela não fez nem uma ligação.

O olhar de Leonardo permaneceu alguns segundos no rosto dela, como se tentasse encontrar algum indício em sua expressão.

Então ele falou de repente, com a voz baixa e suave:

— Você anda cansada ultimamente?

Fez uma pequena pausa antes de continuar:

— Meus amigos organizaram uma festa de boas-vindas para mim. Que tal ir comigo?
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