Juliana ficou parada, atônita, espiando pela fresta da porta entreaberta do quarto.
Num rápido relance, reconheceu o homem de pijama hospitalar no meio do grupo.
Era Leonardo.
Ele estava recostado com displicência na cabeceira da cama, a cabeça baixa enquanto mexia no celular. Parte do rosto estava encoberta por alguém à sua frente, mas ainda era possível ver o nariz alto e o contorno marcado das sobrancelhas.
Aquilo…
Não parecia, nem de longe, o rosto de alguém gravemente ferido.
Juliana piscou várias vezes.
Talvez fosse apenas uma alucinação causada pela dor e pelo choque.
Dentro do quarto, alguém riu.
— Então, rapazes… Deixa eu ver aqui… Em que número da nossa vingança a gente está mesmo?
— A primeira foi quando a gente disse que o colar que o Léo ia dar pra ela tinha sumido. Ela saiu procurando no meio da neve a noite inteira. Ficou com quarenta de febre e mesmo assim se recusou a descansar.
— A segunda foi quando dissemos que o Léo estava em coma. Ela passou a noite inteira subindo novecentos e noventa e nove degraus de joelhos pra conseguir um amuleto de proteção. E no final? O Léo simplesmente jogou o amuleto pra um cachorro.
— A terceira foi quando acusamos ela de colar na prova e acabamos com a formatura dela. Até hoje eu rio lembrando da cara dela tentando provar que era inocente.
— E agora essa de fazer ela doar cinco bolsas de sangue… Já deve ser a nonagésima sexta vingança, né? Mais três e a gente fecha o jogo.
— Pois é. Não foi fácil pro Léo aguentar isso tudo esses anos.
— Fazer o quê? Quem mandou ela não enxergar com quem estava mexendo? Ela roubou o título de campeã de dança da Cê e fez a garota chorar a noite inteira. E a Cê sempre foi o grande amor do Léo. Depois disso, ele nunca ia deixar barato.
— Foi por isso que ele resolveu namorar com ela… Só pra completar as noventa e nove vinganças.
— Uma pena que, quando o jogo acabar, ele vai terminar com ela. Aí a gente perde a diversão.
O zumbido nos ouvidos de Juliana cresceu até virar um estrondo, como se um trovão tivesse explodido bem acima de sua cabeça.
Seu coração se retorceu, como se estivesse sendo rasgado por lâminas. Ela apertou o peito com força e se curvou, puxando o ar em grandes goles.
Doía tanto que parecia que ia sufocar.
Ela não conseguia acreditar em nada do que tinha acabado de ouvir.
Muito menos que Leonardo tivesse começado a namorar com ela apenas para se vingar.
Ele sabia perfeitamente o quanto ela gostava dele.
Leonardo Cardoso.
O jovem herdeiro que fazia toda Horizonte Novo suspirar.
Excelente nos estudos.
De família poderosa.
E bonito de um jeito quase injusto.
Na época, havia até um ditado entre as garotas da cidade:
Qualquer menina que o visse uma única vez acabava se apaixonando.
E Juliana era apenas mais uma entre milhares.
Ela havia deixado o orgulho de lado e corrido atrás dele por três anos inteiros.
Mesmo assim, Leonardo nunca demonstrara o menor interesse.
Até que, um dia, contra todas as expectativas, ele aceitou a confissão dela.
Juliana acreditou que, finalmente, seu desejo tinha se realizado.
Mas agora entendia…
Tudo aquilo não passava de uma vingança cruel.
Então era por isso.
Antes, ele nunca quis ficar com ela.
Porque já havia outra pessoa em seu coração.
E depois aceitou.
Porque ela tinha tirado de Cecília o título de campeã na competição de dança.
Cecília chorou naquela noite.
E por causa disso…
Leonardo decidiu se aproximar dela. Fingir um relacionamento.
Usaria noventa e nove mentiras para empurrá-la, pouco a pouco, para o abismo.
As lágrimas de Juliana não paravam de cair.
Parecia haver algo preso em sua garganta, como se cada respiração exigisse um esforço enorme.
Ela voltou a olhar para dentro do quarto.
O grupo ria sem a menor contenção.
E no meio deles estava Leonardo, com o rosto frio, indiferente.
Naquele instante, Juliana teve a sensação de que ela própria era a maior piada de todas.
Ela tinha entregado a ele um coração inteiro, sincero.
E ele simplesmente o esmagara sem piedade e o jogara fora.
Mais barato.
Mais descartável.
Do que um pedaço de carne estragada.
Nesse momento, alguém dentro do quarto pareceu notar algo e virou a cabeça na direção da porta.
Juliana entrou em pânico.
Virou-se imediatamente e saiu andando.
Cada passo ficava mais rápido.
Até que ela praticamente começou a correr.
Não sabia para onde estava indo.
Só queria fugir.
Fugir daquele lugar.
Fugir de Leonardo.
Fugir daquele pesadelo ridículo.
Quando as pernas finalmente não aguentaram mais, ela se agachou na calçada.
As lágrimas romperam como uma barragem que se parte.
Ela cobriu o rosto com as mãos. Da garganta escaparam soluços sufocados, como se quisesse chorar para fora toda a humilhação e toda a dor.
Que ridículo…
Juliana, você é mesmo uma idiota.
Ela nem sabia quanto tempo ficou ali.
Até que o celular, esquecido em seu colo, começou a tocar.
Com as mãos ainda trêmulas, ela atendeu.
Do outro lado da linha veio a voz gentil e cuidadosa de sua mãe, Renata.
— Ju… Seu pai e eu vamos nos mudar para o exterior muito em breve. — Disse ela, hesitante. — Você tem certeza de que não quer vir com a gente?
Não muito tempo antes, os pais de Juliana haviam recebido uma transferência de trabalho para fora do país.
A ideia inicial era que toda a família se mudasse junta.
Mas Juliana não conseguia se afastar de Leonardo.
Por causa dele, foi adiando a decisão uma e outra vez.
Chegou até a pensar em ficar definitivamente em Horizonte Novo.
Agora, porém…
Tudo aquilo parecia apenas irônico.
— Não.
Ela enxugou as lágrimas e respirou fundo.
Quando falou, a voz ainda estava rouca.
Mas firme.
— Pai, mãe… Eu vou com vocês.