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Capítulo 3 — O Pedido de Perdão

Dante voltou para casa quase de madrugada.

Helena não estava mais à mesa.

As velas haviam sido apagadas por dona Lídia, a comida retirada, o vinho guardado. A sala de jantar, horas antes preparada com tanto cuidado, parecia agora um cenário abandonado depois de uma peça ruim. A única coisa que permanecia sobre a mesa era a pequena caixa branca, fechada, ao lado do prato que ele nem chegou a usar.

Ele parou ao vê-la.

Por alguns segundos, ficou imóvel, com o paletó sobre um dos braços e a gravata frouxa no pescoço. Havia um cansaço real em seu rosto, mas não era apenas cansaço. Havia também culpa. Não a culpa devastadora de quem entende o tamanho do erro, mas aquela culpa incômoda, superficial, que alguns homens sentem quando sabem que falharam e ainda assim procuram uma forma de justificar a própria falha.

Dante tocou a tampa da caixa.

Não abriu.

Talvez por medo. Talvez por pressa. Talvez porque, no fundo, soubesse que alguns presentes exigiam presença, e ele já havia destruído a noite em que deveria recebê-lo.

Subiu as escadas em silêncio.

Encontrou Helena no quarto, deitada de lado, com as costas voltadas para a porta. A luz do abajur estava acesa, mas fraca. Ela usava um robe claro sobre a camisola e parecia dormir, embora Dante conhecesse bem demais aquela rigidez nos ombros. Helena não dormia daquela forma. Quando dormia de verdade, relaxava como se o mundo finalmente a soltasse. Naquela noite, seu corpo inteiro parecia se proteger.

Ele ficou parado no batente.

“Helena.”

Ela não respondeu.

Dante entrou devagar, pousou o paletó na poltrona e retirou os sapatos antes de se aproximar da cama. Sentou-se ao lado dela com cuidado, como se o menor movimento pudesse fazer a esposa se afastar ainda mais.

“Eu sei que você está acordada.”

Helena abriu os olhos, mas continuou sem virar o rosto.

“Você disse para eu não esperar acordada.”

A frase foi baixa. Sem grito. Sem acusação escancarada. E talvez por isso tenha atingido Dante com mais força do que se ela tivesse jogado algo contra a parede.

Ele passou a mão pelo rosto.

“Eu errei.”

Ela soltou uma risada curta, sem humor.

“Errou?”

“Não faz isso comigo.”

Helena se virou lentamente. Os olhos dela estavam secos, mas vermelhos. A ausência de lágrimas parecia pior. Dante preferiria vê-la chorando, porque o choro ainda era uma forma de pedir algo. Aquela calma, não. Aquela calma parecia uma porta fechada.

“Fazer o quê, Dante?”

“Falar comigo como se eu tivesse cometido um crime.”

“Você cometeu uma escolha.”

Ele ficou em silêncio.

Helena se sentou na cama, puxando o robe contra o corpo.

“Você prometeu que ontem seria nosso. Não era uma promessa qualquer. Você repetiu isso durante sete anos.”

“Eu sei.”

“Sabe mesmo?”

Dante desviou o olhar.

A imagem da noite anterior ainda estava recente demais em sua mente. O jantar interrompido. A ligação. A voz do outro lado, doce e impaciente, dizendo que precisava vê-lo, que estava mal, que não suportava passar aquela noite sozinha depois do que havia acontecido entre eles. Dante sabia que deveria ter desligado. Sabia que deveria ter ficado em casa. Sabia que uma mulher adulta, jovem e mimada, não morreria por esperar até o dia seguinte.

Mas ele foi.

E, durante horas, esqueceu a mesa posta, esqueceu a caixa branca, esqueceu a esposa esperando. Ou fingiu esquecer, porque era mais fácil.

“Eu vou compensar”, disse, segurando a mão de Helena.

Ela olhou para os dedos dele envolvendo os seus. Ainda usava a aliança. Ele também. A mesma aliança que havia brilhado na mão dele enquanto tocava outra pele, enquanto aceitava outro perfume no colarinho, enquanto ouvia outra mulher chamá-lo pelo nome como se tivesse direito.

Helena não sabia disso.

Mas alguma coisa dentro dela recuou.

“Não precisa.”

“Precisa, sim.” Dante aproximou-se. “Eu estraguei a nossa noite. Então vou fazer algo à altura. Hoje à noite.”

“Hoje?”

“Uma festa.”

Helena franziu a testa.

“Dante, eu não quero uma festa.”

“Você não quer porque está magoada.”

“Eu não quero porque ontem era para ser nosso. E você acha que pode substituir intimidade por convidados, música e champanhe.”

A crítica passou pelo rosto dele como um corte.

“Não é isso.”

“Então o que é?”

Ele apertou a mão dela.

“É uma forma de mostrar para você, e para todo mundo, que eu sei honrar a mulher que tenho.”

Helena sustentou o olhar dele.

Por dentro, sentiu a frase se partir em duas. A mulher que tenho. Não a mulher que amo. Não a mulher que escolho. Não a mulher que me espera com uma notícia que pode mudar minha vida. Apenas a mulher que tenho.

Mesmo assim, uma parte dela, cansada e ainda presa ao amor construído em sete anos, quis acreditar que aquilo fosse o jeito desajeitado de Dante pedir perdão. Talvez ele realmente quisesse compensar. Talvez aquela noite tivesse sido apenas um erro de prioridades. Talvez a inquietação em seu peito fosse fruto da humilhação de ter sido deixada sozinha.

Helena queria muito que fosse só isso.

“Eu estou cansada”, disse.

“Então não faça nada. Eu organizo tudo. Você só precisa aparecer linda, como sempre.”

Ela respirou fundo.

“Dante…”

Ele tocou o rosto dela.

“Por favor. Deixa eu tentar consertar.”

Helena olhou para ele por alguns segundos. Havia algo desesperador em amar alguém que ainda sabia parecer sincero. Dante tinha esse talento cruel. Quando queria, transformava a própria culpa em ternura. E Helena, que passara anos conhecendo suas melhores versões, ainda tinha dificuldade em aceitar que talvez existisse nele uma versão capaz de machucá-la sem se despedaçar junto.

“Está bem”, ela murmurou.

Dante sorriu, aliviado, e beijou a testa dela.

“Eu prometo que hoje vai ser diferente.”

Helena fechou os olhos.

Não respondeu.

Mais tarde, quando ele saiu para resolver os preparativos, ela desceu sozinha até a sala de jantar. A caixa branca continuava sobre a mesa. Ninguém havia tocado. Helena a pegou com cuidado e a levou de volta para o quarto, guardando-a no fundo da gaveta de roupas íntimas, sob tecidos delicados e sachês de lavanda.

Ainda não.

Ela não contaria nada naquela manhã.

Havia algo errado no ar. Algo que ela ainda não sabia nomear, mas que agora respirava junto dela dentro da casa.

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