Capítulo 2 — A Ligação

“Desculpa”, ele disse, levantando-se. “Eu preciso atender.”

Helena manteve a mão sobre a caixa.

“Dante.”

“É rápido.”

Ele saiu da sala antes que ela pudesse dizer qualquer coisa.

Helena ficou sentada, imóvel, ouvindo a voz abafada dele no corredor. Não conseguia entender as palavras, apenas o tom baixo, contido. Depois veio o silêncio. Passos. Dante retornou com o celular ainda na mão e uma expressão que ela conhecia bem demais dos últimos meses: a expressão de um homem que já havia decidido ir embora, mas ainda procurava uma forma aceitável de abandonar a cena.

O coração de Helena começou a bater de outro jeito.

“Não”, ela disse, antes que ele falasse.

Dante suspirou.

“Helena…”

“Hoje não.”

Ele passou a mão pelo cabelo.

“Eu sei. Eu sei o que prometi. Mas aconteceu uma emergência.”

“Na empresa?”

Ele hesitou por uma fração de segundo.

“Sim.”

A fração bastou.

Helena sentiu algo dentro dela se contrair. Não era ainda desconfiança completa. Era pior. Era o instinto. Aquele aviso que o corpo dá antes que a mente tenha coragem de aceitar.

“Você prometeu que hoje seria nosso.”

“E é.”

Ela olhou para a mesa, para as velas, para a caixa que ele não abriu.

“Não parece.”

Dante se aproximou, tentando tocar sua mão, mas Helena não correspondeu.

“Eu volto rápido. Uma hora, no máximo. Existe um problema com um contrato, e se eu não resolver agora…”

“Alguém não pode resolver por você?”

“Não.”

“Nem no nosso aniversário?”

A irritação apareceu no rosto dele, pequena, mas clara.

“Não faz isso.”

Helena piscou, atingida.

“Isso o quê?”

“Não transforma uma emergência em prova de amor.”

Ela ficou em silêncio.

A frase entrou nela devagar, como veneno diluído. Não era a pior coisa que Dante poderia dizer, mas havia algo frio ali. Algo impaciente. Como se a decepção dela fosse um obstáculo, não uma dor legítima.

Ele pareceu perceber o peso das próprias palavras. Respirou fundo e suavizou a voz.

“Desculpa. Eu não quis falar assim.”

Helena desviou o olhar. Se olhasse por muito tempo para ele, talvez chorasse. E não queria chorar. Não antes de contar. Não enquanto segurava dentro de si uma notícia que merecia alegria.

Dante se agachou ao lado da cadeira dela.

“Amore, olha para mim.”

Ela olhou.

“Eu volto. Juro. Nós ainda vamos terminar esse jantar, você vai me dar esse presente misterioso, e eu vou passar o resto da noite tentando compensar esses minutos.”

Helena quis acreditar. Quis tanto que sentiu vergonha de si mesma.

“Dante, eu precisava muito que você ficasse.”

Ele beijou a mão dela.

“Eu sei.”

Mas levantou.

Esse foi o detalhe que mais doeu. Ele disse que sabia, mas levantou mesmo assim.

Enquanto ele pegava a pasta no hall, Helena permaneceu à mesa. O som dos passos dele parecia mais alto do que deveria. A porta se abriu. Antes de sair, Dante olhou para trás.

“Não fica triste. Eu volto rápido.”

Helena tentou responder, mas a voz não saiu.

A porta se fechou.

O silêncio que ficou depois não era o mesmo de antes. Antes, a casa parecia guardar expectativa. Agora parecia enorme, fria, quase hostil. As velas continuavam acesas. A comida ainda soltava calor. A taça dele permanecia cheia. A caixa branca estava intacta ao lado do prato, esperando por mãos que tinham escolhido atender outro chamado.

Helena ficou ali por muito tempo.

Não soube dizer quanto.

A luz dourada do fim de tarde desapareceu aos poucos, sendo substituída pela noite refletida nas janelas altas. O jantar esfriou. A música terminou e recomeçou automaticamente em algum ponto da playlist. O celular dela permaneceu sobre a mesa, mudo. Nenhuma mensagem. Nenhum pedido de desculpas. Nenhuma atualização.

Com os dedos trêmulos, Helena puxou a caixa para perto.

Abriu devagar.

Os sapatinhos de bebê pareciam pequenos demais para carregar tanta dor. Ela tocou o tricô macio e sentiu uma lágrima cair sobre a tampa branca.

Não era assim que aquela noite deveria ser.

Ela deveria estar nos braços de Dante. Ele deveria estar sorrindo, assustado, emocionado, talvez ajoelhado diante dela com as mãos sobre seu ventre. Ele deveria estar ali, fazendo planos ruins de pai inexperiente, escolhendo nomes impossíveis, prometendo comprar metade de uma loja infantil antes mesmo de saber se o bebê precisaria de laços ou carrinhos.

Em vez disso, Helena estava sozinha diante de uma mesa posta para dois.

A mão dela pousou sobre o ventre.

“Está tudo bem”, sussurrou, sem saber se falava com o bebê ou consigo mesma. “Nós estamos bem.”

Mas não estavam.

Alguma coisa havia se deslocado dentro dela. Ainda não era certeza. Ainda não era ruptura. Era uma rachadura fina, quase invisível, atravessando uma estrutura que por fora continuava bonita. Sete anos não acabavam em uma ligação. Helena sabia disso. Mas também sabia que algumas ausências não começavam no momento em que a porta se fechava. Algumas ausências vinham sendo construídas há muito tempo, em atrasos, desculpas, mudanças de olhar e promessas quebradas com cada vez menos culpa.

Ela pegou o celular.

Digitou uma mensagem.

“Você vai demorar?”

Ficou encarando a tela.

A resposta não veio.

Minutos depois, a notificação apareceu.

“Mais um pouco. Não me espera acordada.”

Helena leu a frase três vezes.

Não me espera acordada.

No aniversário de casamento deles.

Com a caixa aberta diante de si e o filho dele crescendo em silêncio dentro dela, Helena sentiu o amor doer como uma coisa viva. Não gritou. Não quebrou nada. Não ligou exigindo explicações. Apenas ficou sentada, reta, imóvel, enquanto uma parte inocente de si mesma parecia se despedir sem fazer barulho.

Naquela noite, ela ainda não sabia quem havia ligado para Dante. Ainda não sabia que a voz do outro lado tinha um apelido doce, quase ridículo. Ainda não sabia que a mentira usava perfume jovem, risada leve e um sangue vergonhosamente próximo ao seu.

Mas, olhando para a cadeira vazia do marido, Helena entendeu algo que seu coração tentou negar até o último segundo.

Dante tinha ido embora levando uma promessa.

E talvez voltasse trazendo uma mentira.

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