Mundo de ficçãoIniciar sessãoAos olhos dos convidados, era uma celebração romântica.
Para Helena, era uma reparação exposta.
Ela entrou ao lado de Dante usando um vestido branco perolado, discreto e caro, que caía sobre seu corpo com suavidade. O cabelo estava preso em um coque baixo, algumas mechas soltas emoldurando o rosto. Usava brincos pequenos de diamante, presente de Dante no quarto ano de casamento, e uma maquiagem leve que escondia parte da noite mal dormida.
Quando atravessaram o salão, todos sorriram.
“Que casal lindo.”
“Sete anos e parecem recém-casados.”
“Dante, você se superou.”
“Helena está deslumbrante.”
Ela sorria com educação, recebia abraços, cumprimentos, beijos no rosto. Por dentro, permanecia distante. Sentia-se como uma atriz dentro de uma cena que todos acreditavam ser real, menos ela.
Dante, ao contrário, parecia confortável.
Segurava sua cintura, ria com convidados, beijava sua têmpora quando alguém elogiava o casamento. De tempos em tempos, inclinava-se para dizer algo carinhoso ao ouvido dela.
“Você está perfeita.”
“Todos estão olhando para você.”
“Eu disse que faria algo bonito.”
Helena queria sentir gratidão. Queria mesmo. Mas cada gesto dele parecia cuidadosamente posicionado. Carinhos oferecidos em público têm outro peso quando faltam no privado. E, enquanto sorria para uma esposa que tentava perdoá-lo, Dante olhava o celular com uma frequência que começou a incomodá-la.
Não eram olhadas demoradas.
Eram rápidas.
Secretas.
Mas Helena via.
Por volta das dez da noite, Dante subiu ao pequeno palco improvisado no centro do salão. Um garçom entregou-lhe uma taça, e o burburinho diminuiu.
“Senhoras e senhores”, ele começou, com aquela voz segura que fazia investidores assinarem contratos e jornalistas sorrirem antes mesmo de formular perguntas. “Eu prometi a mim mesmo que não faria discurso, porque minha esposa sabe que sou péssimo quando preciso falar de sentimentos.”
Alguns convidados riram.
Helena permaneceu imóvel, com a taça de água entre os dedos.
Dante olhou para ela.
“Mas ontem eu cometi uma falha. Uma falha grande. Deixei que o trabalho atravessasse uma noite que deveria ser apenas nossa. E, como todos aqui sabem, Helena não é uma mulher que merece migalhas de atenção.”
Um murmúrio aprovador percorreu o salão.
Helena sentiu o rosto aquecer. Não de emoção. De exposição.
“Ela é a mulher que esteve ao meu lado nos últimos sete anos. A mulher que conhece minhas piores fases, meus defeitos, minhas ausências e, mesmo assim, continua sendo a melhor parte da minha vida.”
Aplausos suaves começaram antes mesmo de ele terminar.
Dante ergueu a taça.
“À minha esposa. Ao nosso casamento. E a tudo que ainda vamos viver.”
Todos brindaram.
Helena sorriu porque era isso que se esperava dela.
Dante desceu do palco sob aplausos, aproximou-se e a beijou diante de todos. O beijo foi casto, bonito, fotográfico. Digno de um casal admirado. Digno de comentários no dia seguinte. Digno de alguém que tentava transformar culpa em espetáculo.
Quando ele se afastou, Helena sentiu o cheiro dele.
O perfume habitual estava ali.
Mas havia outro por baixo.
Doce.
Jovem.
Floral demais.
Ela congelou por um instante.
Dante não percebeu, porque alguém o chamou. Um dos diretores da empresa se aproximou, pedindo que ele cumprimentasse um investidor italiano que havia acabado de chegar. Dante apertou a mão de Helena.
“Eu já volto.”
A mesma frase.
O corpo dela reagiu antes da mente.
“Claro”, ela disse.
Ele se afastou.
Helena ficou sozinha perto da mesa de bebidas. Uma das esposas de acionistas começou a falar sobre uma viagem a Capri, mas Helena mal ouviu. Seus olhos seguiram Dante pelo salão. Ele cumprimentou o investidor, trocou algumas palavras, sorriu. Depois, como se buscasse privacidade, caminhou para uma área lateral, próxima ao corredor que levava à varanda interna.
Um homem o acompanhou.
Rafael Conti.
Funcionário de confiança de Dante. Braço direito informal. Um homem discreto, sempre muito bem-vestido, com olhos atentos e uma lealdade quase servil. Helena já o vira em jantares, viagens de trabalho e reuniões sociais. Dante confiava nele para assuntos delicados.
Assuntos delicados.
Helena sentiu o estômago apertar.
Não sabia por que começou a andar. Talvez quisesse apenas respirar longe da festa. Talvez quisesse provar a si mesma que não havia nada. Talvez o perfume no colarinho dele, as mensagens escondidas, a ligação da noite anterior e a frase “não me espera acordada” tivessem se juntado dentro dela formando uma coragem amarga.
Ela deixou a taça sobre uma bandeja e seguiu na direção do corredor.
Não chegou a entrar.
Parou antes, atrás de um painel decorativo coberto por folhagens claras e flores brancas. Dali conseguia ver parte da varanda interna, mas quem estava lá dificilmente a veria sem procurar. Dante e Rafael estavam perto da janela, de costas para o salão. O som da festa chegava abafado, misturado à música baixa.
Rafael falava em italiano.
Helena ficou imóvel.
O idioma entrou em seus ouvidos como uma chave antiga abrindo uma porta que Dante nem sabia existir. Seu pai havia nascido na Sicília. Durante toda a infância, Helena ouvira italiano em casa, nas broncas, nas receitas, nas músicas de domingo. Depois da morte dele, manteve o idioma como uma forma de preservar algo que ninguém podia tirar dela.
Dante sabia que o pai dela era estrangeiro. Sabia histórias soltas. Mas nunca havia prestado atenção o suficiente para descobrir que Helena entendia cada palavra.
“Você está se arriscando demais”, Rafael disse em italiano. “Ontem foi loucura. Abandonar sua esposa no aniversário de casamento por causa da canarinha?”
Canarinha.
A palavra bateu em Helena de forma estranha. Quase ridícula. Quase infantil. E ainda assim havia uma intimidade nojenta no jeito como Rafael a pronunciou.
Dante soltou uma respiração irritada.
“Não chama ela assim aqui.”
“Foi você que deu o apelido.”
“Eu sei o que eu fiz.”
Rafael riu baixo, sem alegria.
“Sabe mesmo? Porque sua esposa não é burra, Dante.”
“Helena não vai descobrir.”
A mão de Helena se fechou na lateral do vestido.
“Todo homem que trai diz isso antes de ser pego”, Rafael respondeu.
Dante virou um pouco o rosto. Helena viu apenas o perfil dele, duro, impaciente.
“Eu controlo a situação.”
“Controla? Ela quase viu as mensagens na semana passada. Você faltou a dois jantares. Cancelou uma viagem com ela. Ontem saiu no meio da comemoração. E hoje faz uma festa enorme para compensar. Isso não é controle. É desespero.”
“Cuidado.”
Rafael ergueu as mãos, mas continuou.
“Estou tentando te proteger. A garota está ficando exigente. Ela quer mais tempo. Quer aparecer. Quer saber quando você vai se separar.”
O ar sumiu dos pulmões de Helena.
Separar.
Dante demorou a responder.
Quando falou, sua voz veio mais baixa.
“Eu nunca prometi isso.”
“Ela acha que prometeu.”
“Ela ouve o que quer.”
Rafael inclinou-se um pouco.
“Então por que continua indo atrás?”
Dante olhou para a cidade do outro lado da janela. Por um instante, pareceu procurar uma resposta que o fizesse parecer menos sujo.
“Porque com ela eu não penso.”
Helena sentiu o mundo ficar silencioso demais.
A festa continuava atrás dela. Pessoas riam, brindavam, comentavam sobre amor e casamento. E a poucos metros, seu marido falava em outro idioma sobre uma mulher que o fazia não pensar.
Rafael insistiu:
“E o que ela tem que Helena não tem?”
Dante riu baixo. Um riso curto, sem leveza.
“Não fala assim.”
“Estou perguntando.”
“Helena é minha esposa.”
“Essa não foi a resposta.”
Dante passou a mão pelo cabelo.
“Ela tem gosto de emoção. De novidade. De perigo. É como se eu respirasse de um jeito diferente quando estou perto dela.”
Helena encostou a mão na parede para não cambalear.
Gosto de emoção.
Gosto de novidade.
Cada palavra dele parecia arrancar uma camada da pele dela.
Rafael ficou quieto por alguns segundos.
“Você está apaixonado?”
Dante virou o rosto, irritado.
“Não seja idiota.”
“Então o que é?”
“Ela me lembra Helena quando era mais jovem.”
Helena fechou os olhos.
A crueldade daquela frase não veio como uma facada. Veio como esmagamento lento. Ele não estava apenas traindo. Ele estava procurando em outra mulher uma versão antiga dela mesma. Uma Helena sem plantões longos, sem responsabilidades, sem maturidade, sem anos de casamento nos ombros. Uma Helena que talvez risse mais alto, reclamasse menos, exigisse menos presença, percebesse menos mentiras.







