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Capítulo 5 - Camadas de verniz

Cássio ficou por um longo tempo olhando para a porta por onde Helena havia saído.

O som das vozes ao redor parecia distante, abafado, como se o mundo houvesse se recolhido.

Não se lembrava de já ter se sentido tão exposto — não diante de um público, mas diante de si mesmo.

O que o assustava não era a vergonha, e sim aquele aperto inexplicável no peito, um desconforto que ele não sabia nomear.

O castelo de aparências que construiu com tanto zelo tremia por dentro.

A fachada de sucesso, o respeito, os olhares admirados — tudo o que sempre quis, de repente, parecia um pouco sem cor.

E o que o desarmou não foi as acusações veladas de Helena, foi a indiferença.

Aquela frieza calma no olhar de dela, como se ela tivesse, enfim, deixando de sentir...

Durante os últimos anos, o amor dela fora seu vício mais intenso — mais embriagante que qualquer conquista, mais doce que qualquer vitória.

E agora, imaginar vê-lo sequer estremecer era como perder a própria gravidade.

Mas Cássio não estava pronto para admitir isso.

Balançou a cabeça, como quem espanta um pensamento inoportuno.

Não, não podia ser.

Helena sempre o amara, sempre amaria.

Era só uma fase, um rompante de orgulho.

Ele a conhecia melhor do que ninguém — bastava um gesto de afeto, uma atenção calculada, e ela voltaria.

Ela sempre voltava.

Endireitou o corpo, forçou o velho sorriso ensaiado de homem vitorioso e, mesmo sem convicção, voltou-se aos convidados, fingindo interesse nas conversas que continuavam.

O som dos risos soava oco.

Então sentiu uma presença a seu lado.

Silvia se aproximou, tocando-lhe com uma naturalidade ensaiada.

As unhas vermelhas, longas e pontiagudas, arranharam-lhe levemente o pulso — uma carícia mais próxima de uma marcação de território.

Por um segundo, ele fechou os olhos, e o que viu não foi Silvia, mas sim as mãos de Helena.

Mãos simples, delicadas, sem verniz colorido — apenas uma fina camada transparente que parecia proteger a pureza de quem não precisava de adereços para ser notada.

A lembrança o arrastou de volta a uma viagem antiga.

Estavam diante de uma plantação de girassóis, o vento balançando as flores douradas sob o pôr do sol.

Helena ria — aquela risada solta, despretensiosa —, e os olhos dela pareciam capturar a própria luz do fim da tarde.

Sem maquiagem, sem adornos, e ainda assim mais linda do que qualquer pintura que um artista ousasse imaginar.

Naquele instante, ele a amou com uma intensidade quase dolorosa.

E a odiou também.

Odiou sua leveza, sua alegria genuína, a forma como ela parecia encontrar sentido nas pequenas coisas que para ele não significavam nada.

Odiou o fato de que ela era tudo o que ele gostaria de ser — inteiro, luminoso, livre —, e ele, um homem moldado por ambição e vaidade.

Amava-a e odiava-a com a mesma força.

E se colocasse esses dois sentimentos em uma balança, não saberia dizer qual deles pesaria mais.

Silvia o chamava de volta à realidade, com sua voz doce e ensaiada:

— Cássio, está tudo bem? — perguntou, inclinando a cabeça, os olhos cheios de falsa preocupação.

Ele sorriu, automático.

— Claro, só estava... pensando em algumas coisas do trabalho.

Conversou por mais algum tempo, tentando se concentrar nas palavras e nos sorrisos educados que restavam, mas cada frase soava como um eco distante.

O riso dos outros parecia atravessá-lo sem deixá-lo parte de nada.

Quando os convidados começaram a se despedir, sentiu um alívio estranho — como quem finalmente respira depois de muito tempo submerso.

Estava cansado. Cansado de encenar, de sustentar um papel que já não sabia onde terminava e onde ele começava.

Diante da porta do carro, Silvia apareceu ao seu lado, os olhos úmidos de expectativa, o mesmo olhar de uma criança quando quer alguma coisa.

— Você vai me levar, não é? — disse em tom meloso, apoiando a mão em seu braço.

Ele olhou para ela por um instante.

O vestido dourado ainda cintilava sob a luz fria do estacionamento, mas o brilho não lhe causava mais tanto efeito.

Por um segundo, viu apenas a artificialidade de tudo aquilo — da cor, do sorriso, da relação.

Tudo parecia plastificado.

Respirou fundo antes de responder:

— Claro. — A palavra saiu baixa, quase num suspiro.

Silvia sorriu, satisfeita, e entrelaçou os dedos nos dele, como se quisesse reafirmar uma posse.

Enquanto dirigia, Silvia falava sobre o sucesso da noite, sobre como todos pareciam impressionados.

Ele apenas assentia, sem realmente ouvir.

A voz dela era um ruído distante, indistinto, como o zunido de um inseto preso dentro de um quarto escuro.

O vidro refletia seu próprio rosto — a expressão cansada, os olhos pesados, o sorriso morto.

E de repente, sem querer, pensou em Helena de novo.

Em como ela ficava em silêncio quando voltavam juntos de algum evento.

Nunca precisavam falar muito; o silêncio entre eles era confortável.

Parou o carro em frente ao prédio de Silvia.

Ela se inclinou, esperançosa, os lábios já prontos para o beijo.

Mas ele desviou sutilmente, tocando-lhe o ombro.

— Amanhã a gente se fala — disse, frio.

O olhar dela escureceu por um segundo, mas logo ela recompôs o sorriso, tentando não demonstrar o incômodo.

— Claro, boa noite então!

Ele observou enquanto ela caminhava até a entrada, o som dos saltos dela no piso de mármore o irritava — um som oco, ritmado, vazio.

Quando a porta se fechou atrás dela, ficou ali por um momento, imóvel, as mãos firmes no volante.

Então desligou o farol, encostou a cabeça no banco e fechou os olhos.

A solidão caiu sobre ele como uma sombra familiar.

O sucesso, as aparências, as conquistas — tudo parecia pequeno demais diante do vazio que crescia dentro dele.

Quando chegou em casa, Helena já dormia.

A luz suave do abajur desenhava sobre o quarto sombras delicadas, e ela, deitada de lado, parecia alheia a tudo.

O rosto sereno, os lábios entreabertos em um descanso que parecia puro, intocado. Tão tranquila... como se fosse dela toda a paz do mundo.

Cássio parou na porta, imóvel.

Dentro dele, porém, havia uma tempestade.

Um turbilhão que se revezava entre raiva, culpa e algo que ele se recusava a nomear.

Queria acordá-la.

Gritar com ela por tê-lo constrangido. Exigir que lhe explicasse o que, afinal, pretendia com aquela atitude — com aquela indiferença que o ferira mais do que qualquer ofensa poderia.

Queria puni-la por tentar desarmá-lo diante de todos.

Queria vê-la vacilar, se desculpar, implorar.

Mas, ao mesmo tempo... queria tomá-la nos braços.

Sentir o calor da pele dela sob a sua.

Beijá-la até que o mundo se calasse, até que nada mais existisse.

Era esse o poder dela — o mesmo que ele fingia ignorar, mas que o consumia em silêncio.

Aproximou-se da cama com passos lentos.

Por um instante, apenas a observou.

A linha delicada do pescoço, o modo como o cabelo caía sobre o travesseiro, o respirar compassado que denunciava o sono profundo.

Sua mão subiu, quase por instinto, até pairar sobre o rosto dela — mas parou, suspensa no ar.

Não ousou tocar.

Temeu que, ao fazê-lo, ela abrisse os olhos e ele visse o que mais o aterrorizava: aquele olhar vazio que viu a noite toda.

Engoliu em seco.

Deitou-se ao lado dela, ainda sem coragem de encostar-se.

O colchão afundou levemente sob seu peso, e Helena se moveu apenas o suficiente para suspirar — um som pequeno, suave, que o atravessou como uma confissão.

Cássio fechou os olhos, mas o sono não veio fácil.

Pensamentos se empilhavam uns sobre os outros, barulhentos demais para o silêncio do quarto.

Ele revia cada gesto, cada palavra dita naquela noite, cada olhar que ela lhe lançara.

Lutou com os próprios pensamentos até que o cansaço venceu.

E, quando finalmente adormeceu, a última imagem que lhe veio foi o rosto de Helena.

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