QUANDO O PASSADO VOLTA
QUANDO O PASSADO VOLTA
Por: Tônia Fernandes
####CAPÍTULO 01

O CONVITE

O cheiro de frutas frescas cortadas sobre a bancada da cozinha preenchia o ambiente enquanto eu mantinha as mãos unidas, tentando transparecer uma calma que definitivamente não sentia. M

— inha mãe ergueu os olhos devagar do teto de mármore, secou as mãos com calma no pano de prato e fixou em mim aquele olhar clínico que só as mães possuem — um olhar capaz de atravessar qualquer fachada defensiva e enxergar a verdade nua e crua.

— Mamãe, o Caleb me convidou para tomar um sorvete — comecei, sustentando a voz com certa hesitação. — Não tem problema, não é?

Ela suspirou fundo, apoiando as mãos na borda da bancada antes de responder.

— Filha, o Caleb já tem vinte e três anos. É um homem feito, prestes a ir para o doutorado. Essa amizade de vocês é um território perigoso. Você está terminando o high school, ainda tem um mundo inteiro pela frente, e eu conheço o jeito como você olha para ele. Sei o quanto você é apaixonada por esse rapaz, Harasha. Tenho medo de ver você se machucando ou deixando que essa expectativa prejudique o seu futuro.

Senti um calor súbito subir pelas minhas bochechas.

— Por mais que eu tentasse disfarçar, nunca fui realmente capaz de esconder o impacto que Caleb exercia sobre mim desde a infância. Bastava que ele entrasse na sala ou me direcionasse um daqueles sorrisos tranquilos para que meu ritmo cardíaco perdesse o controle.

— Não precisa se preocupar, mamãe — argumentei, tentando soar o mais racional possível. —

Nós só vamos tomar um sorvete e assistir a um filme. Acho que ele quer conversar um pouco antes de viajar para Cambridge. É penas uma despedida amigável.

Minha mãe se aproximou e segurou meu rosto entre as mãos com uma delicadeza que quase me fez estremecer.

— Tudo bem — murmurou ela, esboçando um sorriso afetuoso. — Apenas tome cuidado com o seu coração, minha filha.

No meu quarto, encarei o espelho com uma inquietação diferente da habitual. Acostumada a me esconder sob moletons largos e roupas sem formato para camuflar minhas inseguranças físicas, decidi que hoje faria um esforço. Escolhi um vestido florido simples, mas que assentava suavemente na cintura.

Refiz minhas tranças com um cuidado quase obsessivo, passei uma camada leve de brilho labial e borrifei um perfume suave nos pulsos. Pela primeira vez em muito tempo, encarando meu próprio reflexo, não vi apenas a garota invisível da escola; vi alguém que podia, afinal, ser notada.

Quando a campainha tocou, a aceleração no meu peito foi imediata. Desci as escadas apressada, ouvindo a recomendação de minha mãe ecoar ao fundo, e abri a porta principal. Caleb estava parado na entrada. V

estia um jeans escuro ajustado, uma camiseta azul-marinho que destacava o tom dos seus olhos e ostentava aquele cabelo levemente desalinhado pelo vento. Ele parecia saído de uma revista, carregando uma aura de maturidade e confiança que destoava completamente dos garotos da minha idade.

— Você está linda, Harasha — disse ele, com uma espontaneidade desmontante assim que seus olhos encontraram os meus.

— Obrigada — respondi em um sussurro, sentindo minha garganta secar.

Ele estendeu a mão na minha direção em um gesto natural e convidativo. Ao selar meus dedos nos dele, sentindo o contraste da sua mão firme e quente contra a minha, caminhamos até o carro. Durante o trajeto, Caleb conduziu a conversa com a facilidade de sempre, perguntando sobre minhas provas finais, fazendo piadas leves sobre a rotina acadêmica e comentando que havia reservado a tarde para estarmos juntos antes que sua rotina de mudanças ocupasse todo o seu tempo.

No cinema, mergulhamos no ar condicionado frio e no aroma inconfundível de pipoca fresca.

Caleb fez questão de comprar o maior balde disponível, acompanhado de refrigerantes e chocolates, ignorando minhas tentativas de dividir a conta com um aceno descontraído de cabeça, afirmando que fazer questão daqueles detalhes era uma tradição que ele não pretendia quebrar. Durante a exibição, enquanto a luz da tela oscilava sobre seu perfil esculpido, peguei-me observando o modo como ele se concentrava na história. Q

uestionava a mim mesma sobre quantas garotas na minha escola dariam tudo para estar no meu lugar, compartilhando a penumbra daquela sala ao lado dele.

Após a sessão, atravessamos a rua em direção a uma sorveteria tradicional, banhada pela luz alaranjada do fim de tarde que começava a tingir o horizonte. Ajeitamo-nos em uma mesa reservada perto da janela panorâmica. Caleb apoiou os cotovelos sobre a superfície de madeira, entrelaçou os dedos e me encarou com uma intensidade renovada.

— Eu queria te fazer um convite especial — começou ele, diminuindo o tom de voz. — Amanhã é o baile da sua formatura, não é?

— É, sim — respondi, assentindo devagar.

— Quero ser o seu acompanhante — declarou, sem hesitar. — Vou viajar para a pós-graduação logo em seguida, e não queria ir embora sem participar desse momento com você. Sei que você ainda não tinha ajustado os detalhes com ninguém para o baile. Por isso pensei... se você aceitar, seria uma honra estar ao seu lado.

Pisquei algumas vezes, tentando processar as palavras que pareciam desconectadas da minha realidade.

— Você está falando sério? — perguntei, sentindo os olhos marejarem instantaneamente. — Caleb, ninguém na escola demonstrou interesse em ir comigo. Eu sou basicamente o patinho feio daquele lugar.

Caleb balançou a cabeça de imediato, assumindo uma expressão séria e quase repreensiva.

— Pare de falar assim de si mesma — desaprovou ele, alcançando minha mão sobre a mesa. — Você não é feia, Harasha. Você só tem o costume de se esconder do mundo. Eu conheço a garota incrível, inteligente e linda que existe aí dentro, e é com ela que eu quero ir ao baile.

O peso daquelas palavras reverberou no meu peito de uma forma tão profunda que cheguei a prender a respiração. Quando terminamos o sorvete, ele consultou o relógio de pulso e voltou o olhar para mim com um mistério velado.

— Tem mais uma coisa. Preciso te mostrar algo lá em casa.

— E os seus pais? — questionei, hesitante.

— Meu pai precisou viajar para Zurique a negócios e minha mãe o acompanhou. Meus irmãos continuam no campus da faculdade, então a casa está vazia, exceto pela governanta.

Concordei com um leve aceno, embora um arrepio inexplicável tivesse percorrido minha espinha. Acompanhei-o até a mansão da família dele em silêncio. O carro cruzou os imponentes portões de ferro trabalhado e parou diante da fachada imponente. Margaret, a governanta, recebeu-nos na porta principal com um cumprimento afável e um sorriso acolhedor antes de nos deixar à vontade.

Caleb me guiou pela ampla escadaria de madeira nobre até o segundo andar. A cada passo no corredor silencioso, meu coração martelava contra as costelas. Ele abriu a porta do seu quarto — um espaço amplo, sóbrio e impecavelmente organizado —, mas minha atenção foi imediatamente capturada por uma grande caixa de bordas aveludadas disposta sobre a cama de casal.

— Comprei isso para você — revelou ele, caminhando até o móvel e indicando a embalagem.

Aproiximei-me devagar, com as mãos levemente trêmulas enquanto retirava a tampa da caixa. O ar fugiu completamente dos meus pulmões. Ajeitado sobre o papel de seda, repousava um vestido azul-noturno de caimento impecável, confeccionado em um tecido fluido que parecia alterar sua tonalidade conforme refletia a iluminação ambiente. Pequenos bordados em pedraria sutil contornavam a linha da cintura, prometendo um caimento perfeito.

— Caleb... isso é... é simplesmente maravilhoso — balbuciei, levando as mãos à boca para conter um soltuço enquanto as lágrimas cruzavam meu rosto.

— Quero que você se sinta incrível amanhã — respondeu ele, mantendo um olhar caloroso.

Sem racionalizar, dei um passo à frente e envolvi seu pescoço em um abraço apertado, enterrando meu rosto em seu ombro. Sentir o perfume dele, a firmeza dos seus braços ao redor da minha cintura e a promessa implícita daquela noite me fez acreditar que eu estava, finalmente, no centro do seu mundo. Foi ali, mantida naquele abraço, que me entreguei completamente à ilusão de que tudo mudaria a partir daquele instante.

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