Mundo de ficçãoIniciar sessãoAURORA
Se algum dia eu pudesse criar raízes, queria que fosse em um lugar como aquele. Um lugar onde eu não precisasse esconder quem sou ou o que sinto.
Eu me sentia feliz com a conexão que havia criado com as meninas, e isso me trazia uma sensação estranha — quase perigosa — de pertencimento.
Mas eu sabia que não poderia ficar ali por muito tempo. Jamais colocaria aquelas pessoas em risco. Não depois de tudo o que já haviam passado.
Sem que eu esperasse, um aroma característico chegou até mim — tangerina, pimenta rosa e sândalo. Não precisei vê-lo para sentir sua presença.
Killiam.
Meu corpo se retesou. A loba dentro de mim se agitou.
Ela o reivindicara para si.
E isso me assustava mais do que eu gostaria de admitir.
Eu não estava mais sozinha em minhas próprias decisões; havia outra parte de mim reagindo de maneiras que eu mal conseguia controlar.
— Gostou de nossa alcateia? — A pergunta de Nathan me tirou dos pensamentos.
— Sim. Ela é encantadora — afirmei, sem conseguir esconder o encantamento, tentando ignorar o olhar de Killiam sobre mim.
— E o que decidiu? Pretende ficar?
Respirei fundo.
— Eu queria… mas não posso pertencer a lugar nenhum.
Minhas palavras pareceram atingi-los como um soco. Joyce e Suelen me encaravam, estupefatas.
— Mas isso não é aconselhável a nenhum lobo — retrucou Nathan, preocupado. — Você precisa pertencer a algum lugar. Todo lobo precisa de uma alcateia… da ligação com a matilha.
Encarei Killiam primeiro. Naquele instante, ele pareceu enxergar além das minhas defesas.
Não era apenas dor.
Eram cicatrizes.
Algumas, profundas demais, gravadas onde ninguém podia alcançar.
Meu olhar voltou para Nathan.
— Já fiz parte de uma — contei — e, no fim, me transformaram em prisioneira. Agora não desejo mais isso. E, se permanecer aqui for um problema… eu vou embora.
Killiam emitiu um rosnado contido, seguido de um suspiro frustrado. Passou a mão pelos cabelos, balançando a cabeça, visivelmente contrariado. E eu entendia o motivo.
Minha loba o havia marcado — e eu acabara de ameaçar partir.
— Você pode ficar, mesmo sem vínculo com a alcateia — afirmou ele, a voz firme, mas o olhar acolhedor.
Os demais, embora silenciosos, observavam a troca entre nós com surpresa.
— Eu não quero incomodar, Killiam — respondi, sentindo o olhar dele cravado em mim. — Eles já me permitiram conhecer tudo isso. Agora sei que nem todo lugar é como aquele de onde vim.
Ele deu um passo à frente. Não houve ameaça — apenas presença. E ainda assim, algo dentro de mim cedeu.
— Você não causa incômodo algum — respondeu com convicção. — Está livre para ficar. Aqui, pelo menos, estará menos vulnerável do que onde quer que esteja ficando.
O tom dele carrega uma mistura de cuidado e autoridade que me deixou intrigada.
Não era apenas uma oferta de abrigo. Era uma promessa silenciosa de proteção. E, por mais que eu quisesse resistir, parte de mim sabia que não seria fácil ir embora depois daquilo.
Ficamos presos pelo olhar. E, por um instante, nada além dele importou.
Um arranhar de garganta nos trouxe de volta, e meu coração disparou.
Havia algo em Killiam que me desequilibrava — uma força silenciosa que parecia me puxar, me confundir, me desarmar de dentro para fora.
Um rubor quente subiu pelo meu rosto quando percebi que todos haviam notado. Minha loba parecia ter captado algo que me escapara — e ronronava satisfeita.
— Você também vai ficar, Killiam? — Joyce perguntou, alternando o olhar entre nós.
— Ainda não decidi… — respondeu ele, sem desviar os olhos dos meus.
Suelen sugeriu que fôssemos comer, e agradeci silenciosamente pela interrupção. E mesmo enquanto nos movíamos, eu sentia a postura protetora de Killiam — como uma corrente invisível impedindo que eu me afastasse completamente.
A cozinha que surgiu adiante era ampla, iluminada e acolhedora. O aroma de temperos frescos misturado a algo adocicado que me fez salivar.
Tudo ali parecia impecável. Lobos se serviam, rindo, conversando em um ambiente acolhedor. Não havia rigidez. Nem ordens secas. Nem olhares desconfiados.
Apenas harmonia.
— Que lugar é esse? — perguntei, incapaz de esconder o espanto.
Nathan explicou que embora cada casa tivesse sua própria cozinha, muitos preferiam compartilhar as refeições ali. Nesse momento, Killiam se afastou para conversar com outro lobo, e Suelen sorriu para mim.
— Agora você não vai mais precisar caçar seu próprio alimento.
Meu olhar buscou Killiam instintivamente, mas desviei rápido demais.
— Ele foi generoso em dizer que eu podia ficar… mas não quero trazer problemas para ele.
— Não se preocupe com ele. Se te deu essa opção, é porque sabe exatamente o que faz. E, embora às vezes rosne como um animal enfurecido, ele não morde.
Eu ri baixo — até ouvir alguém pigarrear atrás de nós.
Claro. Killiam.
Meu olhar cruzou com o dele por um segundo, mas logo desviei e caminhei até a mesa, sentindo meu corpo arrepiar sob sua presença.
As horas passaram leve demais. Risadas, conversas, uma sensação quase normal de convivência. Quando Suelen se despediu e, logo depois Nathan e Joyce começaram a discutir onde eu ficaria, estranhei que direcionassem a pergunta a Killiam.
Ele respondeu antes que eu pudesse entender.
— Eu cuidarei disso.
A voz grave ecoando como um trovão calmo.
Nathan arqueou as sobrancelhas, surpreso, mas assentiu. Joyce sorriu, divertida com algo que eu ainda não compreendia completamente.
Minhas bochechas aqueceram quando ficamos sozinhos. O silêncio que se instalou não era vazio. Era carregado.
Killiam permaneceu sentado, girando o líquido âmbar no copo. Os olhos dele, porém, continuavam presos em mim. Sempre em mim. E aquele olhar desmontava minhas defesas.
Eu queria desviar — mas não conseguia.
Como se cada camada que eu tentava manter — medo, vergonha, autoproteção — fosse arrancada, sem qualquer esforço. Meu coração acelerou. Levantei-me, tentando parecer natural.
— Então… vai me mostrar onde posso ficar? —
Quis soar firme. Mas a voz saiu trêmula.
Ele pousou o copo sobre a mesa e se levantou.
— Claro, mas antes vamos conversar.
A voz saiu baixa.
— Siga-me.
Eu o segui, com o estômago revirando e o coração descompassado, com a sensação clara de que o verdadeiro perigo não estava fora dos limites da alcateia…
Mas caminhava bem diante de mim.
Após alguns minutos — que pareceu longo demais — chegamos a uma casa moderna e elegante. A fachada de vidro não permitia ver o interior, e ela estava cercada pela floresta.
— De quem é essa casa? — perguntei, admirada.
— Minha.
Ele estava atento à minha reação. Era impossível esconder a surpresa que surgiu em meu rosto. A casa era linda.
E, de repente, a ideia de que eu talvez estivesse prestes a atravessar outra porta perigosa voltou a apertar meu peito.
Porque, dessa vez, o risco não vinha do medo.
Vinha do que eu começava a sentir… esperança.







