05 — REENCONTRO

KILLIAM

Era estranho admitir, mas, pela primeira vez em anos, eu me sentia vivo. Tentei ignorar a lembrança dela, não me deixar envolver. Mas isso parecia impossível — ainda mais depois da marca.

 “Ela é minha… nada mais importa”, rugiu meu lobo, feroz.

Percebi naquele momento que Aurora não era apenas uma loba que surgira do nada. Era um problema para mim… e para o meu coração também.

Eu podia fingir que tinha tudo sob controle, mas por dentro estava em chamas.

Desde que soube que ela visitaria minha alcateia, minha mente se transformou em um turbilhão de emoções: nervosismo, ansiedade, raiva… desejo.

No trabalho, cometi erros em coisas simples. Sempre que tentava me concentrar, a imagem dela surgia sem aviso, ocupando o espaço onde antes havia lógica.

Em certo momento, Suelen questionou o que estava acontecendo. Nunca fui de falhar — e para disfarçar, culpei o cansaço. Ela tinha o hábito irritante de enxergar além do que eu permitia que vissem.

Eu sabia que ela não acreditaria em uma única palavra. Em todos aqueles anos, ela nunca me viu reclamar de cansaço.

Meus pensamentos voltaram, mais uma vez, para ela… Aurora. Havia algo nela que despertava uma parte de mim que eu preferia manter na sombra.

Meu lobo não me deu um instante de paz. Queria tê-la perto, senti-la, enquanto eu fazia o possível para contê-lo.

Após fechar o restaurante, permaneci do lado de fora alguns minutos. Queria que minha presença fosse uma surpresa — sem que tivesse a chance de fugir novamente.

O fato de não ter certeza de que ela ficaria ali me irritava. Eu não poderia deixá-la partir — não depois de ela ter me marcado.

Depois de alguns minutos, dei ao meu lobo o que ele tanto desejava. A transformação doeu — como sempre doía — mas, junto da dor, veio a sensação libertadora.

No início, ele apenas correu sem rumo, para extravasar, para se sentir livre. As patas golpeavam o chão com força; a terra úmida cedia sob o peso do corpo; o vento frio cortava o pelo. Nada o detinha.

Então… ele focou na lembrança dela. No cheiro que ficou gravado em nós. Aquele aroma doce, sutil, impossível de esquecer. Meu lobo desacelerou. Ele sabia exatamente para onde seguir.

E, pela primeira vez naquela noite, eu não quis lutar contra ele.

Ele correu em direção à minha alcateia. Cada passo parecia um chamado… uma confissão que eu ainda não estava pronto para fazer.

Quando finalmente parou, estávamos diante do território. Era madrugada, e Nathan surgiu antes que eu pudesse dar mais alguns passos.

— Killiam? — a surpresa na voz dele era evidente. — O que diabos aconteceu? Você está bem?

Tentei soar casual, mas meu corpo denunciava a tensão que ainda vibrava sob a pele.

— Só precisava dar uma volta, respirar um pouco.

Ele franziu a testa, cruzando os braços.

— Desde quando você aparece aqui para respirar? Eu sempre precisei insistir para que viesse, mesmo sendo o alfa desta alcateia.

Tentei manter a seriedade, mas meu olhar desviou para a direção de onde eu sentia o cheiro dela. Nathan me observou por um instante. Não precisou de muito para perceber que eu mentia.

— O motivo de você estar aqui tem a ver com aquela loba, não é?

Passei a mão pelos cabelos, tentando aparentar naturalidade, embora a marca queimasse sob minha pele, lembrando-me do que eu já não podia negar.

Nathan sempre soube quando algo me perturbava. Mas o que me trazia ali… ele jamais imaginaria.

Aquela loba despertara algo em mim que eu não sentia há anos. E, de forma inesperada, havia me reivindicado como dela.

Fiquei em silêncio, e isso foi resposta suficiente. Nathan apenas sorriu. Não precisava dizer mais nada. Ele me conhecia de um jeito que ninguém mais conhecia — e, por isso, eu me sentia exposto.

— Você tem alguma informação sobre ela? — perguntei, mantendo a voz firme.

Ele negou com a cabeça.

— Não tivemos tempo para conversar… Suelen foi apresentar o território para ela. — Fez uma pausa. — Quando ela apareceu?

— Há alguns dias.

Ele me encarou, surpreso.

— Como nossos guerreiros não notaram a presença dela na região? Onde ela esteve esse tempo todo?

— É isso que pretendo descobrir. Procurei por ela durante dias e também não consegui rastreá-la. É como se quisesse permanecer oculta.

Se estava mesmo se escondendo, aquilo não podia ser ignorado. Pela postura, ela tentava se manter invisível — mas por quê?

Antes que eu continuasse, seu perfume me atingiu.

Ela parecia relaxada ao lado de Suelen e Joyce. Conversavam tranquilamente… até que os olhos dela pousaram em mim.

A mudança em sua postura foi nítida. Suelen, por outro lado, sorriu. Provavelmente desconfiava de meus motivos. Joyce apenas pareceu surpresa.

— O que faz aqui, Killiam? — Suelen perguntou, provocativa.

Joyce me lançou um olhar confuso por um segundo, mas logo se aproximou e me envolveu em um abraço.

— É bom te ver aqui.

Aurora permanecia tensa. Quase invisível. Ainda assim… impossível de ignorar.

— Só vim conferir algumas coisas. Nada demais.

Quando nossos olhos se encontraram, ela desviou como se o contato queimasse.

Meu sexto sentido — aquele que raramente falhava — sussurrava que ela não estava ali por acaso. E isso me deixava em alerta.

Porque, se havia algo que eu aprendera depois daquele ataque, era reconhecer o medo nos olhos dos outros.

E nos dela… havia terror.

Não o medo imediato de um perigo presente. Mas do tipo que nasce de uma ferida antiga que nunca cicatrizou. E, por algum motivo que eu ainda não entendia, aquilo me atingia.

Aurora era como um animal ferido. Se eu me aproximasse rápido demais, ela fugiria. E eu não queria que ela fugisse.

Maldição.

Ela não carregava nenhuma marca de reivindicação — disso eu tinha certeza. Mas outra lembrança me atingiu: as marcas em suas costas.

Não queria arruinar nosso momento, então não a questionei ali. Ainda assim, a revolta me consumiu.

Aquilo não era apenas violência.

Era posse.

Era a assinatura cruel de alguém que acreditava que ela lhe pertencia.

E quem quer que tivesse feito aquilo… provavelmente a tinha em rédeas curtas.

Meu lobo rosnou baixo — não para ela, mas para algo que eu ainda não via.

E naquele instante, mesmo sem admitir em voz alta, eu soube que quem quer que tivesse feito aquilo… teria que passar por mim para alcançá-la.

Porque, a partir de agora, ela era minha para proteger.

E para destruir quem ousasse tocá-la.

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