Mundo de ficçãoIniciar sessãoKILLIAM
Aurora observou a fachada da minha casa por alguns segundos, como se tentasse decidir se atravessar aquela porta era um erro ou um risco necessário.
O medo ainda transparecia em seus olhos. Ela não se sentia segura — e, em parte, eu entendia. Confiança não se exige. Constrói-se. E ela ainda estava longe de me oferecer a dela.
Aquela era a casa que dividi com Jade. Eu não cruzava aquela porta havia muito tempo. As lembranças ainda estavam lá. Vivas. Pulsando nas paredes como ecos silenciosos.
Mas o mais incrível era que não doíam como antes — eram cicatrizes fechadas, marcas que já não sangravam, mas que nunca deixariam de existir.
Empurrei a porta e entrei.
O cheiro da madeira misturado ao leve perfume de lavanda ainda pairava no ambiente. Tudo permanecia praticamente igual, exceto pelas fotos que antes ocupavam alguns pontos estratégicos.
Joyce provavelmente as recolheu para me poupar.
Por um instante, fiquei parado, observando cada canto, sentindo o peso do silêncio e da nostalgia, até lembrar a mim mesmo o verdadeiro motivo de estar ali.
Aurora.
Ela entrou logo atrás de mim. Seus passos eram hesitantes, quase silencioso. E, mesmo sem olhar, eu sentia a tensão percorrer seu corpo.
— O que você quer falar comigo? — perguntou, direta.
Um sorriso discreto escapou de mim.
— Sua loba me marcou. E, quando acordei… você havia sumido.
Os lábios dela se entreabrirem, mas nenhuma explicação veio. O ar entre nós mudou.
Ela desviou o olhar, fingindo observar o ambiente, mas o rubor que subia por suas bochechas a denunciava.
— Isso não devia ter acontecido — murmurou, cruzando os braços como se tentasse se proteger. — Foi um erro.
— Um erro?
Reduzi a distância entre nós com calma calculada.
— Você sente o laço tanto quanto eu. O que pretende fazer? Fingir que ele não existe? Me rejeitar?
Os olhos dela voltaram aos meus, e ali havia luta. Conflito. Não era indiferença — era resistência.
— Eu nunca causaria esse tipo de dor à minha loba — murmurou, irritada com a insinuação.
Dei mais um passo, diminuindo o espaço que restava entre nós. Ergui a mão devagar, dando a ela tempo para recuar, mas ela permaneceu imóvel.
Meus dedos tocaram o contorno do rosto dela, deslizando pela pele quente até alcançarem sua nuca.
Ela ergueu os olhos, surpresa com a proximidade.
Inclinei o rosto e aproximei minha boca do ouvido dela.
— Então o que pretende fazer quanto a isso… pequena?
Ela tentou sustentar a firmeza, mas eu percebi o arrepio que percorreu sua pele, a respiração que se tornou irregular, os dedos trêmulos quando tentou ajeitar o cabelo atrás da orelha.
— Você está invadindo meu espaço pessoal — gaguejou, tentando soar firme.
— O que pretende fazer, Aurora? — repeti.
Eu não estava disposto a desistir.
Antes que ela encontrasse palavras, meus lábios tocaram os dela em um beijo delicado, contido, como se eu estivesse testando um limite invisível. Não houve pressa, nem imposição — apenas o encontro.
Por um momento, nada além daquele instante existia.
Quando me afastei, o conflito estava estampado em seus olhos. Havia uma barreira ali, algo que a impedia de mostrar completamente o que sentia.
Suas mãos repousavam em meu peito, e o simples contato fez meu corpo reagir com uma intensidade que eu precisei conter.
— Eu não posso — sussurrou, balançando a cabeça.
Ela respirou fundo, como quem tenta sufocar o que estava sentindo. E eu soube, com absoluta certeza, que ela escondia algo.
— Eu não vou forçar você a nada — disse, firme. — Mas também não vou fingir que isso não existe.
Ela assentiu, incapaz de responder.
— Vou deixar você descansar. Em outro momento, voltaremos a falar sobre isso. Mas não tente mais fugir.
Conduzi-a até o primeiro andar em silêncio. Cada passo ecoava como a trilha sonora de algo que nenhum de nós sabia controlar.
Abri a porta do quarto de hóspedes.
— Você pode ficar aqui.
Afastei-me, dando-lhe espaço, deixando claro que respeitava o limite que ela impunha — por enquanto.
— Boa noite.
Estava prestes a sair quando ouvi meu nome ser chamado.
— Killiam.
O som nos lábios dela teve um efeito imediato. Parei e me virei devagar.
— Obrigada por me deixar ficar… e por tudo isso — disse, indicando o quarto. — Você está me oferecendo mais do que eu mereço.
Por um instante, não encontrei resposta. Porque aquilo não era mais do que o mínimo.
Antes que eu conseguisse dizer qualquer coisa, ela fechou a porta. Fiquei ali parado por alguns segundos, encarando a madeira diante de mim, enquanto o silêncio da casa voltava a ocupar cada espaço — mas dessa vez, ele não estava vazio.
Ele carregava a promessa de algo que eu ainda não sabia se seria minha salvação… ou a minha ruína.
Na manhã seguinte, antes mesmo de descer as escadas, eu já sabia que ela estava ali. O aroma sutil e inconfundível me alcançou primeiro. Era o cheiro dela — suave e marcante ao mesmo tempo. Como se deixasse sua própria assinatura no ar, reclamando espaço sem precisar pedir permissão.
Quando terminei de descer, percebi que Aurora estava na cozinha.
Respirei fundo, ajustei a camisa como se aquilo pudesse me devolver algum controle e caminhei até lá, mesmo sabendo que sua simples presença tornava impossível qualquer fingimento.
— Você não precisava se levantar tão cedo — falei, tentando manter o tom leve enquanto me aproximava.
Ela se virou devagar, surpresa por me ver ali, mas o pequeno sorriso que surgiu em seus lábios me atingiu de um jeito estranho, desarmando defesas que eu nem sabia que estavam ativas.
— Bom dia também para você, Killiam! — retrucou, com um leve atrevimento que contrastava com a timidez que às vezes surgia em seus olhos.
A blusa que ela usava era fina demais para o frio daquela manhã. O tecido leve denunciava a pele arrepiada sob ele, embora ela fingisse não sentir nada.
— Você devia vestir algo mais quente — observei, deixando o olhar percorrer rapidamente seus braços nus antes de voltar ao rosto dela.
Ela me encarou por um segundo, como se não estivesse acostumada a alguém notar esse tipo de detalhe, e então apenas passou por mim, levando consigo aquele cheiro doce e inebriante que já começava a se tornar uma obsessão.
— Ainda não tomou café? — perguntei, tentando soar casual.
Ela negou com um leve aceno, os olhos fugindo dos meus por um instante.
— Estava preparando… — murmurou. O meio sorriso que apareceu dessa vez era tímido, mas sincero.
Só então prestei atenção ao que ela havia feito. O aroma que preenchia a cozinha era diferente de qualquer manhã comum. Havia bacon crocante, ovos temperados com algo que imaginei ser orégano.
E havia mais… pão ainda quente repousava sobre a bancada, recém-saído do forno, com o queijo derretido espalhado pela superfície, dourado nas bordas. E o café… forte, encorpado, exatamente do jeito que eu gostava.
Por um segundo — apenas um — me peguei imaginando como seria tê-la ali todas as manhãs, ocupando aquele espaço como se sempre tivesse pertencido a ele.
— Desse jeito, acho que vou ficar mal-acostumado — provoquei.
— Eu só queria agradecer pelo que você fez por mim — respondeu, e havia algo vulnerável por trás daquelas palavras.
— Você não precisa me agradecer por nada — falei, mais baixo.
Nossos olhos se encontraram e, dessa vez, nenhum de nós desviou. O mundo ao redor pareceu desacelerar. O vínculo vibrava em silêncio, quase palpável, chamando, exigindo, lembrando que o que nos unia não era simples atração.
Meu lobo se agitou dentro de mim, impaciente, pressionando contra as paredes do meu autocontrole
Aproximei-me devagar, atento a qualquer sinal de recuo, mas ela não se afastou. Seus olhos permaneceram nos meus, como se também estivesse sentindo o mesmo chamado silencioso.
Ergui a mão com cuidado e a deixei repousar em sua bochecha, sentindo o calor suave da pele contra minha palma. Ela fechou os olhos por um instante, e naquele gesto havia uma entrega contida que me atingiu mais do que qualquer palavra.
— Aurora… — murmurei, apenas para sentir o nome dela ganhar forma nos meus lábios.
Nossos rostos se aproximaram sem pressa, como se cada centímetro tivesse sido decidido muito antes daquele momento. Quando nossos lábios finalmente se tocaram, o resto do mundo perdeu importância.
O beijo começou suave, quase hesitante, mas a contenção durou pouco. À medida que ela se permitia sentir, meus dedos se entrelaçaram em seus cabelos, puxando-a para mais perto.
A respiração dela se misturou à minha, quente, irregular, e o toque de suas mãos em meu peito foi como um choque direto no meu sistema, firme e ao mesmo tempo inseguro, como se buscasse apoio ali.
Não era apenas um beijo. Era a confirmação de algo que já existia antes de qualquer um de nós ter coragem de admitir.
Meu lobo rugiu, exigindo mais, mas antes que o momento pudesse se aprofundar, a voz alta demais de Joyce cortou o ar da casa.
— KILLIAM!?
O feitiço se quebrou instantaneamente.
Aurora se afastou como se tivesse sido queimada. Os olhos se arregalaram, e ela levou a mão aos próprios lábios, ainda trêmulos, tomada por um constrangimento quase doloroso de se ver.
Dei um passo na direção dela, mas ela recuou, evitando meu olhar como se o que havia acontecido fosse um total absurdo. Respirei fundo, buscando a paciência que sabia que precisaria.
— Estou aqui, Joyce — respondi, mantendo a voz controlada, embora meus olhos continuassem presos em Aurora.
Poucos segundos depois, minha irmã surgiu na entrada da cozinha, ofegante e claramente irritada — mas a expressão dela mudou no mesmo instante em que percebeu a cena: a mesa posta, o cheiro acolhedor de café e Aurora parada ali, visivelmente desconcertada.
— Ah… eu não sabia que você a tinha trazido para cá. Me desculpe. Não quis atrapalhar.
Aurora corou na hora e, antes que a situação piorasse, resolvi intervir.
— Bom dia para você também, Joyce! — falei, repetindo exatamente as palavras que Aurora havia usado comigo minutos antes.
Joyce arqueou uma sobrancelha, surpresa, mas logo aquele sorriso curioso surgiu em seu rosto — o tipo que ela só exibia quando percebia que havia muito mais acontecendo do que estava sendo dito.
Ela explicou que fora até o alojamento procurar Aurora e não a encontrara lá.
— Eu a trouxe para o quarto de hóspede… — esclareci, escolhendo cada palavra com cuidado.
O gosto dela ainda permanecia nos meus lábios, e a simples lembrança do beijo tornava difícil manter a neutralidade.
Joyce me lançou um olhar avaliador.
— Você nunca fez isso antes. Imaginei que tivesse aborrecido a garota e ela tivesse ido embora.
Completamente desconcertada, Aurora caminhou até a pia, organizou o que estava ali e, com um sorriso educado, pediu licença.
— Vou me arrumar para ver onde posso ajudar na alcateia.
Esperei até que ela saísse antes de me voltar para minha irmã.
— Por que você a encarou como se estivesse tentando resolver um cálculo impossível.
Joyce bufou.
— Não tenta me enganar, Killiam. Eu senti. Havia alguma coisa entre vocês dois. Forte demais para ser ignorada.
— Não tem nada entre nós — respondi, seco.
Eu não falaria nada a Joyce se Aurora não estava pronta para assumir o que existia.
— Você realmente acha que eu vou acreditar nisso? Eu te conheço desde que nasci. O jeito como você olhava para ela... e como ela olhava para você. Isso não é “nada”.
— Nada que seja da sua conta — retruquei, mais áspero do que pretendia.
Joyce apenas sorriu.
— Se ainda não tem… não duvido que tenha muito em breve. Você sempre foi um péssimo mentiroso. Ela é uma loba em um território desconhecido, sem vínculo algum, e mesmo assim você a aceitou. Por quê?
Permaneci calado. Minha irmã tinha o dom de ser insuportavelmente perspicaz. Ela me observou por alguns segundos, como se estivesse decidindo até onde insistir.
— Tudo bem. Se você não quer admitir algo que está estampado em seu rosto, o problema é seu. Mas pense bem no que está fazendo.
Quando ela saiu da cozinha, o silêncio que ficou pareceu pesado demais. O café esfriava na bancada, o cheiro ainda presente no ar — e a lembrança do beijo continuava viva na minha boca.
E, enquanto eu permanecia ali, sozinho, uma pergunta começou a martelar com mais força do que qualquer outra: O que eu vou fazer com Aurora?







