Mundo de ficçãoIniciar sessão
Helena Vasconcelos
— Deve haver algum jeito… — disse Helena Vasconcelos, olhando fixamente para os papéis espalhados sobre a mesa.
Ela estava no banco tentando renegociar as dívidas. O prazo final se aproximava, e ela simplesmente não tinha recursos para quitar os empréstimos.
— Sinto muito, senhorita — respondeu o gerente, com um tom compreensivo. — Sem o pagamento até o vencimento, a dívida será considerada inadimplente e o banco terá de executar as garantias do contrato.
— Mas, se isso acontecer… — a voz de Helena vacilou — …vou perder a casa e a empresa da minha família.
— Eu entendo sua situação — disse ele, com pesar. — Porém, sem uma proposta de pagamento ou entrada para renegociação, o processo segue automaticamente para execução das garantias.
Helena abaixou os olhos, desanimada.
Ela e a mãe haviam feito de tudo para manter os negócios que o pai deixara. Mas as dívidas acumuladas, somadas à crise no setor de rochas ornamentais, havia sufocado a empresa pouco a pouco.
Na tentativa desesperada de salvar o negócio, Helena ofereceu tudo o que possuía como garantia: a própria casa, a empresa da família e até o carro.
Helena levantou-se devagar da cadeira. Recolheu os papéis com as mãos trêmulas, agradeceu ao gerente com um leve aceno de cabeça e saiu.
*****
Eduardo Monteiro
Alguns passos adiante, um homem que observava o movimento do banco e percebeu a cena.
Eduardo Monteiro acompanhou a jovem com os olhos enquanto ela atravessava o salão e saía pela porta giratória de vidro.
Ele não tinha dúvida que conhecia de algum lugar. Mas de onde?
Guiado por um impulso, caminhou até a mesa do gerente com quem Helena falara instantes antes.
O gerente levantou-se surpreso ao vê-lo se aproximar. Eduardo Monteiro era o proprietário do Banco Nexus e aquela era uma de suas raras visitas.
— Aquela jovem que acabou de sair — disse ele, apontando discretamente para a porta por onde Helena havia desaparecido — quem era?
O gerente pareceu surpreso com a pergunta.
— O nome dela é Helena Vasconcelos, senhor. Veio tentar renegociar alguns empréstimos da empresa da família.
— E o que aconteceu?
O gerente suspirou.
— A situação dela é muito complicada. As dívidas venceram, as garantias já estão todas comprometidas. Se não houver pagamento ou entrada para renegociação, o sistema vai encaminhar o contrato para execução das garantias.
Eduardo ficou em silêncio por alguns segundos, então estendeu a mão.
— Me mostre os papéis.
O gerente prontamente entregou a pasta. Eduardo abriu os documentos, folheando rapidamente, depois a fechou com calma.
— Deixe isso comigo — disse em tom firme. — Eu mesmo vou resolver esse caso.
O gerente piscou surpreso e ficou olhando Eduardo se afastar com passos firmes.
Enquanto isso, do lado de fora do banco, Helena Vasconcelos descia os degraus sem imaginar que, naquele exato momento, o destino começava silenciosamente a mudar.
*****
Eduardo entrou em sua sala reservada na agência e fechou a porta com calma. O espaço era amplo, iluminado pelos paineis de vidro, moderno e clean.
Colocou a pasta sobre a mesa e abriu novamente os documentos.
As folhas revelavam números preocupantes: empréstimos acumulados, garantias comprometidas, prazos vencendo.
Pegou o telefone interno.
— Murilo, peça ao gerente que venha até minha sala.
Minutos depois, Murilo entrou com o gerente
— O senhor pediu para me chamar?
Eduardo colocou a pasta sobre a mesa e a empurrou levemente na direção dele.
— Suspenda qualquer procedimento de execução dessas garantias.
O gerente arregalou os olhos.
— Suspender, senhor?
— Sim. — A voz dele era calma, mas firme. — Vamos reestruturar essa dívida.
— Entendo… quer que eu prepare uma proposta de renegociação?
Eduardo levantou-se e caminhou até a janela, olhando o movimento da rua lá embaixo.
— Antes preciso de algumas informações, por enquanto deixe como está. — respondeu ele. — É só.
— Com licença, senhor.
O gerente saiu discretamente, mas sua mente estava confusa, nunca uma dívida fora tratada daquela forma e se perguntou se o senhor Monteiro conhecia Helena, se ela o conhecesse, provavelmente teria apelado diretamente para ele.
Eduardo permaneceu diante do painel de vidro, depois virou-se para seu assistente.
— Murilo, quero um levantamento completo da empresa Vasconcelos Rochas Ornamentais: patrimônio, produção, mercado, tudo.
O assistente assentiu.
— E mais uma coisa — continuou Eduardo, virando-se novamente para ele.
— Sim, senhor.
— Descubra onde posso encontrar Clara Vasconcelos.
Murilo, o jovem assistente não demonstrou qualquer reação, ele estava ali para cumprir ordens sem questionar.
— Mais alguma coisa, senhor.
— Não pode ir.
— Com licença, senhor.
Eduardo permaneceu de pé diante da grande janela e uma imagem do passado surgiu em sua mente, agora lembrava de onde conhecia aquela moça.
*****
Helena
Lá fora, sem imaginar o que se passava no banco Nexus, Helena caminhava pela calçada tentando conter o choro. Ela entrou no carro e segurou firmemente o volante e finalmente as lágrimas caíram livremente, acreditava que acabara de perder tudo.
Helena dirigiu de volta para casa. O carro avançava pelas ruas da cidade, mas sua mente parecia distante, presa às palavras que ainda ecoavam.
“Execução das garantias.”
Quando finalmente entrou pelo portão da antiga casa da família, o peso da realidade pareceu ainda maior. A construção ampla, cercada por um pequeno jardim, não tão bem cuidado como outrora, havia sido orgulho de seu pai durante anos.
Helena desligou o carro, respirou fundo e tentou recompor o rosto antes de entrar. Assim que abriu a porta, na sala, sentada próxima à janela, estava sua mãe.
Clara Vasconcelos levantou os olhos imediatamente ao ver a filha entrar. O rosto de Helena, por mais que tentasse disfarçar, já dizia tudo.
— Filha… — disse ela, levantando-se devagar. — O que aconteceu no banco?
Helena tentou responder, mas a voz falhou. Colocou a bolsa sobre a mesa e respirou fundo, lutando contra as lágrimas.
— Eles… eles não aceitaram renegociar… sem uma entrada — conseguiu dizer, quase num sussurro. — Disseram que, se não pagarmos até o vencimento, vão executar as garantias.
O silêncio que se seguiu pareceu pesado demais dentro da casa. A mãe sentiu um aperto no coração, absorvendo o golpe.
— Então… a empresa…
Helena assentiu lentamente.
— E a casa também. Tudo está no contrato.
Por alguns segundos, nenhuma das duas falou. Apenas se abraçaram no meio da sala, tentando encontrar força uma na outra.
— Nós fizemos tudo que podíamos — disse Clara, com a voz embargada. — Seu pai teria orgulho de você.
Helena fechou os olhos, respirou fundo e secou o rosto.
— Ainda não acabou — disse Helena, tentando reunir coragem. — Eu vou procurar investidores… talvez vender parte da empresa… qualquer coisa.
A mãe a observou com ternura e preocupação.
— Você sempre foi forte como seu pai.
Helena tentou sorrir, mas o sorriso veio frágil.
— Eu preciso ser.
Naquele momento, nenhuma das duas sabia que, em outra parte da cidade, alguém já começava a mover as peças que poderiam mudar completamente o destino da família Vasconcelos.
E que o nome de Helena Vasconcelos já estava novamente sobre a mesa de um homem muito mais poderoso e que não era só o dono de um banco.







