Capítulo 02

Eduardo

Já era tarde da noite quando Eduardo Monteiro encerrou a última reunião do dia, os diretores saiam visivelmente exaustos, menos Eduardo. 

A sala era iluminada apenas pela luz da cidade que se espalhava pelas janelas de vidro. Sobre a mesa ficou apenas um pasta com o nome “Clara Vasconcelos”

Eduardo se recostou na cadeira. Por um instante, a frieza calculista deu lugar a uma lembrança distante. Fechou os olhos, como se buscasse um eco do passado.

A música. O salão iluminado. O piano preenchendo o ar com notas suaves e, ao mesmo tempo, arrebatadoras.

E então a viu. 

A jovem pianista de olhos cor de mel brilhantes. Os cabelos no mesmo tom presos em um coque baixo elegante, algumas mechas soltas emoldurando o rosto. O vestido branco longo, simples, mas sofisticado que a deixava radiante, como se tivesse luz própria. 

Ela tocava com a alma e ele jamais esqueceu a emoção incômoda que sentiu, porque acreditava estar imune a qualquer encanto.

Agora, o destino a colocou de volta em seu caminho.

— Helena Vasconcelos… — murmurou, experimentando a estranheza de pronunciar o nome em voz alta. 

O Grupo Monteiro enfrentava pressões de todos os lados: acionistas exigindo estabilidade, colunas sociais questionando sua vida pessoal e, como se não bastasse, Viviane Teles, uma sombra do passado disposta a reivindicar o que um dia fora dela.

Era claro o que precisava ser feito. Um casamento traria a aparência de equilíbrio que a família Monteiro necessitava, e afastaria de vez Viviane de sua vida. E, ao mesmo tempo, resolveria as dívidas da família Vasconcelos.

Consciente. Conveniente. Impecável.

Eduardo suspirou, os olhos frios de quem estava prestes a fazer mais um negócio.

Mas, ao fundo de seus pensamentos, uma voz silenciosa sussurrava outra verdade: não era coincidência que Helena Vasconcelos tivesse surgido novamente em sua vida e uma decisão foi tomada. 

Na frieza de uma sala iluminada por arranha-céus, um contrato começou a ser escrito.

*****

Clara Vasconcelos

Na manhã seguinte, Clara estava no escritório da empresa, com o olhar fixo e angustiado sobre os papéis espalhados à sua frente.

A folha de pagamento daquele mês parecia pesar mais do que todas as outras, a contabilidade fora clara: não haveria recursos suficientes para quitar os salários em dia.

Abalada e sobrecarregada, Clara sentiu que deveria desistir de tudo. Não tinha forças para continuar lutando, ela nunca esteve à frente dos negócios da família, mas após a morte do marido, ela e Helena foram lançadas, sem preparo, à responsabilidade de manter a empresa de pé e estavam falhando.

Uma batida na porta a tirou de seu devaneio, Célia, a secretária a mais de quinze anos entrou com uma expressão de apreensão.

— Clara, — Disse ela em voz baixa, não havia formalidade entre as duas, era mais uma relação de amizade que patroa e empregada.

— O que foi Célia? — O semblante abatido de Clara fez o olhar de Célia entristecer.

— Tem um homem querendo falar com você. Ele disse que se chama Eduardo Monteiro.

Clara franziu a testa intrigada. Não podia ser quem ela pensava.

— Tem certeza que é esse o nome?

— Absoluta… E é um homem muito bonito, diria até absurdamente lindo. — Célia sorriu.

— Peça para ele entrar.

Clara ficou olhando para a porta com uma sensação estranha. O que um homem como Eduardo Monteiro teria para falar com ela? Qual o interesse dele em uma pequena empresa de rochas ornamentais? E… praticamente falida.

*****

Instantes depois da saída de Célia, a porta tornou a abrir. Um homem alto entrou, de porte atlético, pele levemente bronzeada. Tinha olhos e cabelos escuros e um rosto difícil de esquecer, maxilar quadrado, traços marcantes, quase esculpidos. Mas era o olhar que mais impressionava: profundo, penetrante, como se fosse capaz de atravessar qualquer defesa. Vestia um impecável terno de três peças, que só reforçava sua presença imponente.

Clara se levantou imediatamente, impactada.

O homem percorreu o escritório com um olhar rápido. O ambiente era pequeno, de mobília  simples, mas de um raro bom gosto. Clara, manteve a cordialidade e estendeu a mão.

— Clara Vasconcelos.

Ele a cumprimentou com um aperto firme, porém surpreendentemente suave.

— Eduardo Monteiro. Muito prazer.

— O prazer é meu, sente-se, por favor.

Clara indicou a cadeira à frente da mesa. Ele se acomodou, mas a impressão era de que o espaço se tornava pequeno demais para sua presença.

— Senhor Monteiro, em que posso ajudá-lo? Está interessado em alguma de nossas pedras? — perguntou, mantendo o tom profissional.

Eduardo não respondeu de imediato. Seus olhos pousaram sobre os papéis espalhados na mesa, como se já soubesse exatamente o que estava diante dele.

— Senhora Vasconcelos… sei que sua empresa está passando por um momento crítico.

Houve uma breve pausa e Clara sentiu o desconforto crescer, mas permaneceu em silêncio.

— Tenho uma proposta — continuou ele, com tranquilidade — que pode permitir à senhora quitar todas as suas dívidas.

Clara o encarou, surpresa e escutou atenta a proposta, quando ele terminou de falar frio e objetivo como se tratasse de um contrato qualquer, Clara piscou várias vezes tentando decifrar se aquilo era real. Mas o olhar dele não deixava dúvidas: Eduardo Monteiro falava com absoluta seriedade.

*****

Clara e Helena

— Mamãe... isso só pode ser alguma brincadeira? — perguntou, com a voz embargada.

Clara Vasconcelos, de rosto cansado e mãos trêmulas, segurou a filha pela mão. O olhar materno, carregado de lágrimas.

— Eu também pensei, mas foi ele pessoalmente que fez a proposta… ele disse que é só um negócio… — a voz de Clara tremeu. — Um contrato que beneficia ambos os lados.

— Mas que tipo de benefício um homem como Eduardo Monteiro teria com um… um contrato como esse?

— Ele não me disse. — Respondeu Clara. — Mas é a única maneira de salvar não só nossa casa, mas também o legado que seu pai nos deixou.

— Mas eu nem o conheço. 

— Pelo que entendi, ele a conhece de algum lugar.

Helena não tinha lembrança de ter se encontrado com Eduardo Monteiro antes, tudo que sabia sobre ele, que era o herdeiro de um império empresarial. Conhecido por sua  frieza e por vezes cruel nos negócios.

Esse homem havia feito uma oferta que parecia mais um ultimato: um casamento de conveniência. Em troca, toda a dívida da família Vasconcelos seria quitada.

Casar-se com um homem que nem conhecia, cujo coração era famoso por ser de gelo... era esse o preço para salvar o legado da família e a segurança de sua mãe?

A mãe se aproximou e envolveu-a num abraço.

— Minha filha, sei que é injusto... Mas não quero que se sacrifique assim. — Clara acariciou-lhe os cabelos. 

Não havia como negar que a proposta era tentadora, se não conseguisse renegociar as dívidas, a falência seria inevitável e elas perderiam tudo e ficariam praticamente na miséria.

Com as empresas em declínio, Helena passou a dar aulas de piano, fazer pequenas  apresentações e tocar em casamentos. Mas o que conseguia ganhar mal dava para a manutenção da grande casa. Já que a empresa operava no vermelho a meses e os salários dos empregados estavam atrasados.

Se perdessem a casa, teriam que se mudar para alguma casa ou apartamento modesto e o pior deixar a casa onde cresceu e as lembranças de seu querido pai.

Respirou fundo, secou os olhos e disse, com voz firme:

— Eu vou aceitar.

Clara a fitou, surpresa pela firmeza na decisão.

— Helena... tem certeza?

— Não é pelo contrato, nem pelo nome Monteiro. É por nós duas. — Helena ergueu o rosto, deixando transparecer a coragem que nascia em meio à dor. 

Enquanto a noite caía, Helena compreendia que acabara de dar o primeiro passo para um destino incerto, onde o amor parecia impossível. Mas ela ainda não sabia que, por trás do frio contrato, escondia-se o maior desafio e também o maior presente de sua vida.

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