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Perigo e desejo
Perigo e desejo
Por: Aria Vex
Capítulo 1- O primeiro olhar

A chuva caía sobre Lisboa como uma cortina fina, transformando as luzes da cidade em reflexos dourados e difusos. Sofia Duarte observou o próprio reflexo nas portas de vidro do hotel antes de entrar, como se procurasse ali uma versão mais confiante de si mesma.

Não encontrou.

Apenas uma jovem de vinte e poucos anos, com um casaco simples, cabelo ligeiramente desalinhado pela humidade e um olhar determinado misturado com nervosismo.

Respirou fundo.

Era apenas trabalho.

Nada mais.

As portas abriram-se automaticamente, revelando um lobby silencioso e luxuoso que parecia existir numa realidade paralela. O chão de mármore brilhava sob a iluminação suave, e o ar tinha um perfume discreto e caro que Sofia nunca tinha sentido antes.

Cada passo que dava fazia-a sentir observada, como se o ambiente inteiro percebesse que ela não pertencia ali.

Apertou a pasta contra o peito.

Entrar. Entregar documentos. Sair.

Simples.

Foi então que sentiu.

Não viu primeiro... sentiu.

Um olhar.

Levantou os olhos lentamente e encontrou-o.

Encostado ao bar, com um copo de whisky na mão, estava um homem que parecia completamente à vontade naquele mundo. Fato escuro perfeitamente ajustado, postura relaxada mas segura, uma presença que atraía atenção sem esforço.

Alexandre Valente.

Sofia reconheceu-o imediatamente. O nome surgia frequentemente em artigos sobre negócios e investimentos, sempre acompanhado de fotografias cuidadosamente controladas e descrições sobre a sua discrição quase lendária.

Mas nenhuma fotografia captava aquilo.

O olhar dele.

Intenso. Focado. Como se estivesse habituado a ler pessoas antes mesmo de falarem.

Quando os olhos deles se cruzaram, algo dentro dela apertou.

Ele não desviou.

Observou-a com curiosidade silenciosa, o canto da boca a erguer-se num sorriso leve, quase provocador.

Sofia desviou o olhar primeiro, irritada consigo mesma por reagir daquela forma.

Continuou a caminhar, tentando ignorar a sensação de que ele ainda a seguia com os olhos.

— Primeira vez aqui?

A voz surgiu perto demais.

Ela virou-se rapidamente e encontrou-o a poucos passos de distância.

Não tinha percebido quando ele se aproximara.

A voz dele era grave, baixa, envolvente.

— Nota-se assim tanto? — respondeu, tentando manter o tom firme.

Os olhos dele brilharam com algo entre diversão e interesse genuíno.

— Só para quem presta atenção.

Houve um silêncio breve, carregado.

Sofia percebeu a proximidade dele. Não era invasiva… mas era intensa. O tipo de presença que fazia o ar parecer mais pesado.

— Está perdida? — perguntou ele.

— Não. Tenho uma reunião.

— Imagino que sim.

O olhar dele deslizou até à pasta que ela segurava e depois voltou aos seus olhos, demorando-se mais do que seria considerado educado.

E ainda assim… ela não recuou.

Algo dentro dela recusava ceder.

— E o senhor? — perguntou, surpreendendo-se com a própria coragem.

Ele sorriu ligeiramente.

— Também estou exatamente onde devia estar.

A resposta soou como um duplo sentido.

Sofia sentiu um arrepio leve subir pela nuca.

Lá fora, a chuva intensificava-se, criando um som distante que parecia isolá-los do resto do mundo.

Por um momento estranho, teve a sensação de que tudo à volta tinha desaparecido — o lobby, as pessoas, o bar.

Restavam apenas os dois.

— Sofia — disse ela finalmente, estendendo a mão antes de pensar demasiado.

Os dedos dele envolveram os dela com firmeza e calor.

— Alexandre.

O toque durou apenas um segundo… mas foi suficiente para deixar uma sensação persistente.

Quando ele soltou a mão dela, Sofia sentiu uma estranha mistura de alívio e desapontamento.

— Acho que a sua reunião vai ser interessante — disse ele, a voz mais baixa.

— Porquê?

Ele inclinou-se ligeiramente, aproximando-se apenas o suficiente para que ela sentisse o calor da presença dele.

— Porque vai ser comigo.

O coração dela falhou um batimento.

E naquele instante, Sofia percebeu que entrar naquele hotel tinha sido o início de algo que não conseguiria controlar.

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