Mundo de ficçãoIniciar sessão— Pode deixar. Eu aviso.
Afaguei seu rosto com carinho. — Agora deite. Já está muito tarde. Ela obedeceu sem reclamar. Cobri seu corpinho com o lençol, beijei sua testa e esperei até que fechasse os olhos. — Já volto, meu amor. Apaguei a luz do quarto e fechei a porta com cuidado. Respirei fundo. Eu precisava conversar com alguém. Peguei o celular dentro da bolsa e fui para a varanda. Havia apenas uma pessoa que conhecia toda a minha história. Disquei o número imediatamente. Ela atendeu no segundo toque. — Carol? Aconteceu alguma coisa? Minha voz falhou antes mesmo de conseguir terminar a frase. — Vitória... ele apareceu. Do outro lado da linha, o silêncio durou apenas alguns segundos. — Como assim? — Vitória perguntou, assustada. — Ele descobriu sobre a Alice? Fechei os olhos e encostei a cabeça na parede da varanda. — Não... Pelo menos eu acho que não. Mas ele viu a Alice... Conversou com ela, ensinou ela a brincar de pião... E eu... Minha voz embargou. — Eu simplesmente não consigo parar de chorar. Vitória respirou fundo. — Fica aí. Estou indo. A ligação foi encerrada antes mesmo que eu pudesse responder. Sorri de leve. Vitória sempre foi assim. Impulsiva, completamente maluca às vezes... Mas, quando eu precisava dela, nunca me deixava sozinha. Como morava a poucas ruas dali, não demorou nem dez minutos para o portão abrir. Ela entrou às pressas, ainda ofegante, segurando um cigarro entre os dedos. Parou na varanda, deu um longo trago e caminhou até mim. — Agora me conta tudo. Sentei-me novamente e passei as mãos pelo rosto. — Eles apareceram no restaurante... Henrique, Izabel e William. Vitória arqueou as sobrancelhas. — Os três? Assenti. — Enquanto eu trabalhava, a Alice estava brincando na área kids... O filho do William e da Izabel também estava lá. Respirei fundo antes de continuar. — O Henrique ficou brincando com as crianças. Minha garganta voltou a apertar. — Ele ensinou a minha filha a girar um pião... Vitória soltou um palavrão baixo e levou a mão à testa. — Meu Deus... Fiquei alguns segundos em silêncio. — Sabe o pior? Ela apenas me olhou. — Ele passou tanto tempo ao lado da própria filha... e nem imaginou quem ela era. Vitória balançou a cabeça lentamente. — Isso está ficando cada vez mais complicado. Suspirei. — Eu estava juntando dinheiro para comprar minha casa... Desviei o olhar para o quintal. — Mas acho que vou usar esse dinheiro para ir embora daqui. Ela me encarou imediatamente. — Embora? Assenti. — Quando minha avó partir, meus parentes vão brigar por causa desta casa. Minha mãe vai aparecer querendo confusão, como sempre. Eu não quero mais viver cercada por tudo isso. Vitória apagou o cigarro no cinzeiro da varanda. — Carol... Você não pode fugir para sempre. Não respondi. — Você sabe que ele tem o direito de conhecer a filha. Fechei os olhos por um instante. — Eu sei... Ela suspirou. — Eu te falei isso cinco anos atrás. Resolvi mudar completamente de assunto. Apontei para o cigarro apagado. — E eu também te falei para parar de fumar esse negócio horroroso. Vitória olhou para o próprio cigarro e depois voltou a me encarar. — O que uma coisa tem a ver com a outra? Não consegui evitar. Caímos na risada. Era justamente por isso que eu amava aquela mulher. Mesmo nos meus piores dias, ela sempre conseguia arrancar um sorriso de mim. Depois que o riso diminuiu, fiquei olhando para o vazio. Sem perceber, um sorriso tímido surgiu nos meus lábios. — Ele está diferente... Vitória estreitou os olhos. — Diferente como? Engoli em seco. — Mais forte... Mais maduro... A barba ficou grande e combina muito com ele... E fez uma tatuagem enorme no braço esquerdo. Ela abriu um sorriso cheio de malícia. — Ué... Pensei que você tivesse raiva dele. Revirei os olhos. — E tenho. — Tem? Ela cruzou os braços. — Tenho. Vitória começou a rir. — Carol, você acabou de fazer uma análise completa do homem. Balancei a cabeça, sem graça. — Eu só estou dizendo que ele mudou fisicamente. — Claro... Ela segurava a risada. — Então me responde uma coisa. Respirei fundo. — O quê? — O que você sentiu quando olhou para ele? Meu coração acelerou novamente. Desviei o olhar. — Raiva. Vitória gargalhou. — Mentirosa. — Não estou mentindo. — Está, sim. Ela apontou o dedo para mim. — Eu te conheço melhor do que você imagina. Se fosse só raiva, você não estaria chorando até agora. Baixei a cabeça. Ela tinha razão. Mas eu não estava preparada para admitir isso. Vitória se levantou, ajeitando a bolsa no ombro. — Amanhã passo aqui de novo. Sorri. — Vai sair? — Vou. O pessoal marcou uma festa, e eu já estou atrasada. Caminhou até o portão, mas parou antes de sair. — E pensa no que eu te falei. Olhei para ela em silêncio. — Você pode tentar esconder a Alice do Henrique... Ela fez uma breve pausa. — Mas não vai conseguir esconder seus sentimentos de você mesma.






