Enfrentando o passado

Minha voz saiu tão aflita que ela não fez nenhuma pergunta.

Apenas correu de volta ao salão.

Passei os minutos seguintes andando de um lado para o outro.

Nunca havia sentido tanto medo.

Quando Fabiana voltou trazendo Alice pela mão, tomei minha decisão.

Não conseguiria permanecer ali nem mais um minuto.

Procurei dona Patrícia e inventei que estava passando muito mal.

Meu estado era tão convincente que ela acabou me liberando.

Alice reclamou durante todo o caminho até o estacionamento.

— Mas eu queria brincar mais...

Acariciei seus cabelos enquanto a acomodava no banco de trás.

— Outro dia a mamãe traz você de novo.

Ela fez um biquinho, mas acabou aceitando.

Durante todo o trajeto até em casa, minhas mãos permaneceram firmes no volante.

Por dentro...

Eu estava completamente destruída.

Assim que chegamos, pedi para minha avó ficar um pouco com Alice.

— Vou tomar um banho rápido.

Ela apenas assentiu.

Entrei no banheiro, tranquei a porta e comecei a tirar a roupa lentamente.

Até aquele momento eu ainda conseguia me controlar.

Mas bastou abrir o chuveiro.

A primeira corrente de água quente escorreu pelo meu corpo...

E todas as barreiras que eu havia construído desmoronaram.

Levei as mãos ao rosto e chorei.

Chorei como não chorava havia cinco anos.

A voz dele ainda ecoava na minha mente.

"Carol..."

Ele quase tocou meu braço.

Estava diferente.

Mais maduro.

A barba bem aparada lhe dava um ar ainda mais sério, e a tatuagem em um dos braços era uma novidade que eu jamais imaginei encontrar.

Fechei os olhos com força.

Aquilo era errado.

Muito errado.

Eu deveria odiá-lo.

Deveria sentir nojo.

Deveria desejar nunca mais vê-lo.

Então...

Por que meu coração ainda insistia em procurá-lo?

Por que, mesmo depois de tudo o que ele fez, uma parte de mim ainda o amava?

Apoiei a testa contra o azulejo frio do boxe.

A água continuava caindo sobre meu corpo.

Mas era incapaz de lavar a dor que eu carregava havia cinco anos.

Depois de um longo banho, saí do banheiro com o peito apertado.

Encontrei Alice aconchegada no colo da minha avó, assistindo televisão como se o mundo fosse um lugar simples e seguro.

Sorri, embora meu coração estivesse em pedaços.

— Vó, eu vou me deitar. Boa noite.

Forcei um sorriso para esconder o rosto abatido.

Assim que me ouviu, Alice escorregou do colo da bisavó e correu até mim.

— Mamãe... Posso dormir com você de novo?

Olhei para aqueles enormes olhos azuis e senti um aperto ainda maior no peito.

Talvez dormir ao lado da minha filha fosse exatamente o que eu precisava naquela noite.

— Pode, meu amor.

Ela sorriu, segurou minha mão e caminhou comigo até o quarto.

Assim que entrou, subiu na cama aos pulos, completamente animada, enquanto eu afastava os travesseiros.

— Alice... Chega de pular. Já está agitada demais.

Ela parou imediatamente, sentando-se na cama com um sorriso de orelha a orelha.

— Mamãe! Amanhã eu posso ir com você para o restaurante de novo?

Sorri de leve.

— E por que tanta vontade?

Ela bateu palminhas, empolgada.

— Porque eu fiz um amiguinho! O nome dele é Lucas. Ele disse que está na cidade por causa da virada do ano. Ele é muito legal! O padrinho dele ensinou a gente a brincar de pião. Você acredita?

Meu coração disparou.

— Ele falou que vai jantar lá de novo amanhã, porque eles estão hospedados numa pousada pertinho do restaurante. E prometeu levar um pião que brilha quando gira!

Cada palavra era como uma faca atravessando meu peito.

Sem conseguir evitar, as lágrimas voltaram a encher meus olhos.

Sentei-me na cama tentando recuperar o controle.

Alice percebeu imediatamente.

A animação desapareceu de seu rostinho.

Ela se aproximou devagar e acomodou-se no meu colo.

— Mamãe...

Sua voz saiu baixinha, cheia de preocupação.

Respirei fundo, enxuguei rapidamente as lágrimas e a abracei com força.

— Está tudo bem, meu amor.

Beijei seus cabelos.

— A mamãe só está com muita dor nos pés. Foi um dia cansativo.

Ela continuou me olhando, desconfiada.

— Amanhã você não vai comigo?

Balancei a cabeça.

— Amanhã não vai dar.

Vi a decepção surgir em seu rosto e completei, sorrindo:

— Mas prometo que, quando voltar do trabalho, vou trazer um pião que brilha no escuro só para você.

Os olhos dela voltaram a brilhar.

— Sério?

— Muito sério.

Ela abriu um sorriso encantador.

— Então, se você encontrar o Lucas, fala que eu também vou ter um pião que brilha! Assim, quando eu voltar ao restaurante, a gente brinca junto.

Meu sorriso vacilou por um instante.

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