04

Oito semanas. Alisson Harper sentia que cada um daqueles dias havia sido uma batalha contra a própria memória. Sua promoção a Diretora de Criação Sênior exigia uma energia que ela já não tinha; sua mente oscilava entre o orgulho profissional e a lembrança de uma noite que não deveria existir.

Naquela manhã, o mundo decidiu parar de girar. Alisson acordou com o corpo transformado em sua própria prisão. O teto do seu quarto parecia balançar no meio do nada. Não era apenas a exaustão; foi o cheiro de café subindo do andar de baixo que embrulhou seu estômago de forma violenta. Cobriu a boca e correu para o banheiro, caindo de joelhos.

Lembrou-se das palavras de sua colega na sexta-feira: *"Alisson, você está doente. Esses enjoos não são normais"*. Com os dedos tremendo tanto que quase não conseguia segurar a pequena caixa da farmácia, fez o teste que comprou após aquela dúvida ser plantada. Não, ela não estava doente, e no fundo sabia o que podia estar acontecendo, embora estivesse aterrorizada. Os três minutos de espera foram um vazio de silêncio absoluto, quebrado apenas pelo tique-taque de um relógio que parecia contar os segundos de sua antiga vida. Quando abaixou o olhar, o veredito foi instantâneo: duas listras vermelhas, nítidas e cruéis.

— Não... — sua voz falhou em um sussurro. — Foi só uma vez. Uma maldita vez. Isso tem que ser um erro...

Um estrondo na sala a fez pular. O som da porta batendo contra a parede e o eco de saltos rápidos e erráticos anunciaram seu segundo pesadelo do dia: Brenda. Sua mãe entrou no quarto como um furacão devastando tudo por onde passava. Tinha o cabelo loiro bagunçado, a maquiagem borrada da noite anterior e aquele cheiro rançoso de cigarro e desespero que sempre a acompanhava após uma derrota no cassino.

— Alisson! — gritou Brenda, começando a revirar as gavetas, jogando as roupas no chão com violência. — Preciso de dinheiro! Aqueles caras me seguiram até a esquina. Me dê o que tiver, agora!

— Mãe, para... não tenho nada — Alisson tentou esconder o teste de gravidez nas costas, mas sua palidez a denunciou.

Brenda parou. Seus olhos, que estavam injetados de sangue, cravaram-se no movimento desajeitado da filha. Com uma agilidade felina e cruel, arrancou o teste da mão dela.

— Mas o que temos aqui? — Brenda soltou uma gargalhada carregada de veneno, uma risada sem nenhum rastro de alegria. — Ora, ora! A filha perfeita, a que sempre me olha de cima, acabou sendo uma vagabunda descuidada. Você está grávida, Alisson! Que estúpida!

— Me devolve isso! É a minha vida! — Alisson tentou recuperá-lo, mas sua mãe a empurrou para trás com desprezo.

— Sua vida? Se você acha que vou parar de receber a minha parte porque agora tem um fardo para sustentar, está muito enganada — Brenda a segurou pela mandíbula com um puxão doloroso, obrigando-a a encará-la. — Livre-se disso. Não vou permitir que um pirralho arruíne o meu fluxo de caixa. Faça isso logo ou vai se arrepender!

Brenda saiu do apartamento disparando um último insulto, deixando Alisson tremendo no chão. A dor na mandíbula não era nada comparada ao frio que sentia na alma. Sempre esteve sozinha, mas agora, a solidão tinha o peso de uma nova vida.

A segunda-feira chegou com um sol frio. Alisson caminhou pelos corredores da agência como um autômato. O ambiente estava carregado; os funcionários murmuravam pelos cantos e o nervosismo era palpável no ar. Tentou se concentrar no notebook, mas os resultados da clínica que guardava na bolsa — *"Gravidez confirmada: 8 semanas"* — pareciam queimar através do tecido.

Já não era apenas um teste positivo, mas também exames de sangue que validaram seu temor.

De repente, o burburinho morreu. Um silêncio sepulcral se espalhou a partir da recepção. O diretor de Recursos Humanos limpou a garganta, com uma rigidez que Alisson nunca tinha visto nele.

— Atenção, todos. Após a aposentadoria do senhor Fitzwilliam, seu filho, o senhor Massimiliano Magnus Fitzwilliam Lombardo, assume o cargo de Diretor-Geral e Presidente a partir deste momento.

O coração de Alisson parou. Um novo presidente enchia todos de expectativas. As portas do elevador se abriram. Um homem de estatura imponente avançou pelo corredor central. Vestia um terno de três peças azul meia-noite que parecia uma armadura de poder. Cada passo de seus sapatos italianos ressoava contra o piso de mármore com uma autoridade que exigia submissão.

Alisson sentiu o oxigênio abandonar seus pulmões. Era ele. Não era um sonho, nem uma peça pregada pela sua mente. O homem que a havia colocado no carro, aquele que curara seu joelho com uma delicadeza inesperada e o que a fizera gemer o nome dele, agora era o seu dono profissional.

Massimiliano escaneou o escritório com olhos profundos. Por um segundo, seus olhares se cruzaram. Alisson empalideceu tanto que precisou se agarrar à beirada da mesa. Ele não piscou. Não houve surpresa, nem um gesto de reconhecimento. Simplesmente passou direto, como se ela fosse parte da mobília.

Alisson só conseguiu respirar quando ele já não estava mais lá. Enquanto os outros falavam sobre o imponente presidente, ela tremia da cabeça aos pés.

Minutos depois, Peter Jackson aproximou-se dela.

— Senhorita Harper. O senhor Fitzwilliam Lombardo solicita a sua presença. Agora — avisou o assistente daquele homem.

— Tudo bem...

Embora não tenha contestado, durante o trajeto ela se questionava por que ele ia querer vê-la. Ia demiti-la? Claro, porque ela o chamou de assassino, causou problemas naquela noite e... balançou a cabeça.

Alisson entrou na sala presidencial com as pernas bambas. Massimiliano estava de costas, observando a cidade através da enorme janela como um monarca vigiando seu reino. Ou melhor, um tirano inatingível.

— Sente-se — ordenou. A voz dele atravessou seu corpo com força, a ponto de arrepiar os pelos da sua nuca, e então sentiu algo mais que a forçou a afastar a lembrança dos dois perdendo o controle.

Ela sentou-se na beirada da cadeira. Massimiliano virou-se lentamente e, sem dizer uma palavra, deixou cair um objeto sobre a mesa. *Clac*. O som da prata contra o mármore foi como um tiro. Era o seu bracelete: *A.A.H.S*.

— Você deixou esquecido — apontou ele, cruzando os braços sobre o peito. Sua presença invadia todo o espaço. — Você foge muito bem para alguém que parece tão... recatada.

— Eu... não sabia quem o senhor era, senhor — sussurrou ela, pegando a joia com dedos gélidos, o objeto que já tinha dado como perdido.

Massimiliano inclinou-se sobre a mesa, encurtando a distância até que ela pôde sentir novamente o cheiro do perfume caro que gritava poder e domínio.

— Sua docilidade hoje é fascinante — murmurou ele com ironia. — Naquela noite você era uma gata com garras que me chamava de assassino. Qual das duas é a sua verdadeira face, Alisson?

Ela abaixou a cabeça. Queria gritar que ele também era diferente quando perdia o controle, mas o nó na garganta a impediu.

— Só estou aqui como funcionária e continuarei fazendo meu trabalho. É apenas isso, senhor.

— Escute bem — continuou ele, e sua voz se tornou ainda mais áspera. — A partir de agora, somos desconhecidos. O que aconteceu foi um erro, produto do álcool e de uma péssima noite. Eu apaguei isso da minha memória e sugiro que faça o mesmo se quiser manter este emprego. Aqui não haverá tratamentos especiais, nem flexibilidade, nem passado. Fui claro?

As palavras foram lanças. Ele estava apagando a existência da criatura que ela carregava dentro de si antes mesmo de saber que existia. E parecia absurdo que ele usasse o álcool como desculpa, quando ele mesmo não estava bêbado naquela noite. Ela se conteve; não ia perder o emprego que tanto custou para manter.

— Perfeitamente claro, senhor Fitzwilliam — respondeu ela, levantando-se com a pouca dignidade que lhe restava. — Se não tem mais nada a me dizer, com licença.

Alisson saiu da sala com as costas eretas, embora sentisse que sangrava por dentro. Tinha um segredo no ventre, um inimigo como chefe e uma mãe que a odiava. A vida poderia ser mais cruel e pior?

Massimiliano, após o encontro, sentiu-se estranho. Vê-la ali, depois de semanas se perguntando o que teria sido dela, foi algo esquisito, mas não uma surpresa.

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