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— Continue respirando, Arabella. Falta pouco agora.
Como era possível que o momento mais feliz da minha vida fosse também tomado por tanta tristeza e solidão?
A sala do hospital era iluminada por uma luz branca e fria, mas, dentro de mim, tudo parecia arder em chamas.
A dor vinha em ondas, fazendo minhas mãos agarrarem com força os lençóis da cama hospitalar, enquanto eu tentava regular minha respiração conforme me instruíam.
Meu pai era o familiar que estava ao meu lado, segurando forte a minha mão, sendo o meu porto seguro. A presença dele era essencial, era o que fazia eu me sentir protegida e acolhida.
Mas nada apagava o vazio da ausência de quem deveria estar ali.
Do pai daqueles bebês.
Do homem que eu havia amado. E que havia nos rejeitado.
— Está quase lá, só mais um pouco — a médica disse, com a voz tranquila de quem já estava bem acostumada a ver mulheres naquela situação.
— Vamos lá, filha, você é forte — meu pai falou baixinho ao meu lado.
Queria acreditar nele.
Precisava acreditar nele.
Porque ser forte, para mim, não era mais uma opção. Foi a mais vital das necessidades desde o momento que descobri estar grávida e entendi que estaria sozinha para criar aquela criança.
Ou melhor: aquelas crianças, já que logo fui surpreendida com a notícia de que teria gêmeos. Um menino e uma menina.
A dor dessa lembrança, do abandono do homem que amei e que acreditei que também tivesse algum sentimento por mim, queimava mais do que qualquer contração.
— Eu não consigo, pai — falei, em um sussurro desesperado. — Eu não consigo fazer isso sozinha.
Ele apertou minha mão com ainda mais força.
— Consegue sim, Arabella. Esses bebês têm a mãe mais forte e corajosa que podiam ter. Agora, concentre-se neles. Vai dar tudo certo.
Outra onda de dor me atingiu e lágrimas escaparam dos meus olhos sem que eu pudesse contê-las.
A médica anunciou que era hora de empurrar, e foi o que eu fiz. Em meio à dor, senti a mão do meu pai deslizando sobre os meus cabelos, em um gesto carinhoso que me remeteu à minha infância.
Então o som de um choro ecoou pela sala, e a primeira onda de alívio atingiu o meu peito. Toda a dor pareceu desaparecer por um momento, sendo substituída pela emoção mais avassaladora que eu já havia sentido na vida.
— É a nossa menina... — meu pai falou, emocionado, dando um beijo no alto da minha cabeça.
— Sua garotinha nasceu, filha.
Uma enfermeira segurou o primeiro bebê diante de mim, e eu ri em meio ao choro, tentando absorver o máximo da visão dos traços tão delicados e perfeitos da minha filha.
Mas não me deixaram olhá-la por muito tempo antes de levá-la para os primeiros cuidados. E outra contração pareceu rasgar o meu corpo, anunciando que meu outro bebê também estava a caminho.
Voltei a empurrar, com toda a força que tinha, até ouvir o som de um novo choro.
Lágrimas correram livres pelo meu rosto e eu admirei o meu garotinho. Tão frágil, tão pequeno... tão lindo.
Segurei os dois, cada um em um dos meus braços, e o calor daqueles dois corpinhos junto ao meu fez o meu coração transbordar com o amor mais potente que eu poderia imaginar que qualquer pessoa seria capaz de sentir na vida.
— Oi, meu amor... — sussurrei, passando meus olhos de um para o outro. — Oi, minha vida...
Os olhinhos deles mal abriam. Suas mãozinhas eram tão minúsculas. Seus corpinhos eram tão frágeis.
Ainda assim, tê-los em meus braços me trazia tanta força.
— Eu estou aqui — voltei a sussurrar para os dois. — Não importa o que aconteça, eu sempre estarei aqui. Vocês nunca estarão sozinhos. Nós nunca estaremos sozinhos, porque nós três somos um time agora.
Meu pai voltou a beijar a minha cabeça, admirando os netos e repetindo o quanto eram lindos.
E eu fechei os olhos por um momento, repetindo para mim mesma aquelas palavras que disse aos meus bebês.
Tudo ia ficar bem. Eu ia criar os meus filhos com a ajuda e o apoio do meu pai, e eles cresceriam felizes e saudáveis.
Toda a dor tinha ficado para trás. Agora só havia amor.
O amor mais puro e potente que poderia existir.
Um amor que nenhum abandono poderia apagar. Mas eu não consegui deixar de pensar em se, algum dia, o poderoso Vincent Harrington entenderia a dimensão de tudo o que deixou para trás. De tudo o que deixava de viver naquele momento ao meu lado.
E de, involuntariamente, recordar de todos os acontecimentos que tinham me levado até ali.
De tudo o que, agora, parecia pertencer a outra vida.
Ao verão em que tudo começou.







