Mundo ficciónIniciar sesiónVincent Harrington:
Meses antes
Voltar a Silverwood sempre me trazia um sentimento bom de acolhimento. Era literalmente um retorno ao lar.
Ao mesmo tempo, quando meu carro cruzava pelo portal da cidadezinha onde cresci, eu me sentia como se tivesse sido transportado para outro mundo. Para uma realidade paralela que parecia ter parado no tempo.
Lá, eu me deparava novamente com as casas em um estilo mais rústico, as saídas no decorrer da estrada que davam para ruas de terra que levavam a fazendas com uma quantidade interminável de terras, um centro comercial modesto, composto por poucos estabelecimentos cujos donos eram conhecidos pelos nomes por todos os moradores, e um ritmo de vida bem diferente daquele com o qual eu havia me acostumado desde que me mudei para Nova Iorque.
A viagem tinha sido bem longa e cansativa. Foram dois dias inteiros de estrada, parando à noite em um hotel para dormir. Eu poderia tranquilamente ter pegado um voo até Houston, que ficava bem próxima, e pedir para alguém ir me buscar no aeroporto. Mas dirigir era uma das coisas que eu mais amava na vida.
Eram pouco mais de dez da noite quando cheguei. Um horário que, na minha vida de universitário em uma cidade que nunca dormia, poderia ser considerado cedo. Mas, ali em Silverwood, era muito tarde, ainda que fosse sexta-feira. A maior parte da economia dali vinha do trabalho nas fazendas, e o dia no campo começava antes do sol nascer.
Por isso, eu sabia que não adiantaria passar na casa dos meus pais, onde ficaria durante todo o verão no decorrer daquelas que seriam as minhas últimas férias da faculdade antes de eu me formar. Eu provavelmente já os encontraria dormindo.
Portanto, dirigi diretamente para o bar do Harold. Ponto de encontro obrigatório em todas as ocasiões em que eu retornava para a cidade.
Não que o local fosse muito atraente. Era apenas o único estabelecimento de Silverwood que permanecia aberto até cerca de duas da manhã. Isso o tornava o único point de diversão para as noites.
Logo que entrei, fui recebido pelo cheiro familiar que misturava tabaco, álcool e madeira velha. De imediato avistei meus fiéis companheiros de noitadas, já me esperando na nossa mesa de sempre. Os quatro se levantaram para me receberem com abraços e tapinhas nas costas.
— E aí, cara? Fez uma boa viagem? Foi tudo tranquilo na estrada? — meu primo Alexander me perguntou.
Obviamente que uma preocupação assim viria dele ou do nosso amigo Nathan, que eram os dois mais responsáveis e certinhos do nosso grupo. Não era à toa que fossem, também, os únicos casados dali.
Os outros dois, Logan e Ethan, também meus primos, já atropelavam a pergunta de Alexander com falas empolgadas sobre os planos para a diversão durante o verão e zombarias por eu supostamente ter me tornado um "engomadinho de Nova Iorque".
Enquanto eles falavam sem parar, fiz um sinal para o velho Harold, que acenou de volta e perguntou se eu ia querer o de sempre. Fiz um sinal de positivo e enfim respondi aos meus companheiros de mesa.
— A viagem foi ótima, não me tornei um engomadinho e, sim, pretendo aproveitar muito esse verão. Depois que eu me formar, só Deus sabe quando terei uma pausa para voltar para cá.
— Porque você tá se tornando a porra de um engomadinho empresário — Logan acrescentou. Era o mais jovem entre nós, com vinte e dois anos.
Os mais velhos, Nathan e Alexander, tinham vinte e cinco, o que fazia com que fôssemos todos da mesma faixa etária. Crescemos juntos, os quatro primos homens da família Harrington e nosso amigo Nathan Cole, que acabou se juntando ao nosso grupo por ser amigo de Ethan desde a escola.
— Algumas pessoas querem mais da vida do que ser para sempre um "Cowboy de Silverwood" — rebati, sem cerimônias.
Aquela era uma das coisas que eu mais gostava na companhia daqueles caras. Não precisávamos medir palavras ou ter medo de soar ofensivos uns com os outros. A sinceridade em um nível que beirava a grosseria fazia parte do nosso "jeito Harrington".
— Você pode sair de Silverwood em busca de uma vida chique e endinheirada em Nova Iorque, Vincent. — Ethan virou goela abaixo o último gole que restava de sua cerveja. — Mas, confia, Silverwood nunca vai sair de você.
Como se eu tivesse qualquer pretensão de que saísse.
Eu gostava daquela cidade. Minha família, meus amigos, minhas origens e minhas melhores lembranças estavam ali. Mas sempre tive em mente que não seria o lugar para construir um futuro. Desde moleque, sempre quis fazer algo na área da tecnologia, e não seria naquele fim de mundo no meio do mato e com uma população que não chegava a dois mil habitantes que isso seria possível.
Tinha acabado de abrir uma pequena empresa de tecnologia em Nova Iorque, em sociedade com dois colegas de faculdade, e estava determinado a fazê-la crescer.
O velho Harold se aproximou, me deu boas-vindas com um tapa em minhas costas e entregou a minha cerveja, antes de se afastar correndo, indo atender outra mesa. As coisas pareciam movimentadas por ali naquela noite.
— Por que inferno o Harold não contrata mais gente para trabalhar aqui com ele? — indaguei logo que ele se afastou.
Foi Alexander quem respondeu:
— Sabe como é, né? Negócio familiar. Tem a irmã dele na cozinha e o sobrinho ajudando com... sei lá o quê.
— Harold ainda insiste naquele sobrinho parasita dele? — Eu me lembrava bem do sujeito, embora não me recordasse do seu nome, já que sempre o chamávamos de "o sobrinho parasita do Harold".
Ele era mais velho que nós – certamente já devia estar beirando os trinta – e sempre tinha sido um sujeito mal-educado, antipático e desagradável. Era comum vê-lo por ali fingindo que trabalhava, mas sumindo corriqueiramente para fumar do lado de fora do bar, importunando mulheres desacompanhadas ou às vezes dormindo atrás do balcão.
Logan, no entanto, fez uma observação:
— Ethan e eu viemos aqui outro dia, e tinha uma garota nova servindo as mesas.
— Ah, é — o mencionado confirmou. — Mas ela não está aqui hoje. Será que o velho mal contratou e já demitiu a menina?
— Sério? — Nathan perguntou. Parecia tão surpreso quanto eu pelo fato de Harold ter enfim se disposto a pagar um salário a qualquer pessoa que não fosse da sua família. — Quem é ela?
— Não faço ideia — Logan respondeu. — Acho que é nova na cidade. Nunca a vi por aqui.
— Certamente é nova — Ethan confirmou, abrindo um meio-sorriso que já lhe era padrão sempre que contava sobre suas conquistas entre as mulheres bonitas da cidade ou quando ao menos mencionava sobre estar de olho em alguma delas. — Eu com certeza me lembraria bem se já tivesse visto aquela belezinha em Silverwood.







