Camila vinha se segurando num fio desde a mensagem anônima, o pedaço de tecido na cerca sul, o alerta disparando no meio da madrugada e Rafael voltando para o quarto cheirando a diesel e perigo. Dormir ali com ele ao lado e o filho entre os dois criara uma ilusão de abrigo, mas a ilusão não aguentava o peso do que sabia: o passado dos pais, o ódio do caminhoneiro, o possível cúmplice escondido em alguma oficina esquecida, a foto do portão, a frase cruel sobre “limpar a sujeira”.
Naquela tarde, o corpo decidiu o que a cabeça adiava. Nazaré desceu para a cozinha, o bebê dormia enfim num sono pesado, e o rádio da segurança parecia mais distante. Camila sentiu que, se não parasse, quebraria no meio.
Entrou no banheiro do quarto de Rafael com passos rápidos de quem foge sem admitir. Girou a tranca, apoiou as costas na porta e deixou o ar sair num sopro longo.
Ela caminhou até a pia e ergueu o queixo sob a luz fria. Viu olheiras marcadas, cabelo preso às pressas, a blusa larga manchada de l