Mundo ficciónIniciar sesiónISABELLA
O silêncio no escritório da mansão Lombardi parecia pesar mais a cada segundo. Meus olhos corriam de um lado para o outro, tentando entender o que acontecia ali, tentando captar cada expressão, cada gesto. Mas, principalmente, os olhos dele. Alessandro Lombardi, o Don. Ele parecia tão imponente, tão distante, tão… inacessível.
Donna Raffaella, por outro lado, parecia ser o oposto. A mãe de Alessandro estava sentada com uma postura rígida, mas os olhos, esses sim, eram penetrantes, sempre avaliando, como se estivesse me estudando a cada movimento que eu fazia.
– Pode se sentar, senhorita Marconetti – disse Donna Raffaella, com um tom firme, gesticulando para a poltrona à minha frente. Ela não se sentou, mas me observou de forma atenta enquanto eu me acomodava.
Eu estava nervosa, mas tentei disfarçar. Assentei com a cabeça, o estômago apertado, enquanto olhava para os dois. Eles pareciam um time bem entrosado, ambos imponentes e exigentes, e eu sentia que qualquer deslize poderia ser fatal.
A conversa começou com Alessandro. Ele parecia imerso na análise do meu currículo, como se cada detalhe fosse importante para ele.
– Vejo que tem um diploma em Gestão e que já teve seu próprio restaurante – disse ele, a voz grave, sem expressão, como se estivesse apenas lendo algo no papel. – Mas, pelo que consta, o restaurante foi fechado. Pode me contar o motivo?
– Sim, eu... – comecei, hesitando por um momento. Tinha que ser cuidadosa com o que falaria. – Eu tive que fechar o restaurante por motivos pessoais. Foi uma decisão difícil, mas necessária.
Alessandro não demonstrou nenhuma reação imediata, mas seus olhos ficaram mais atentos. Ele continuou me analisando com uma intensidade desconcertante.
– Motivos pessoais, é? – ele repetiu, como se estivesse ponderando a resposta. – E se, por algum motivo, você tivesse que abandonar este cargo, a babá, por motivos pessoais, o que aconteceria? Como lidaria com isso?
Meu coração pulou no peito. Uma pergunta enigmática, sem dúvida uma armadilha. Mas eu precisava ser rápida e certeira, sem parecer nervosa.
Eu ri suavemente, mas o silêncio imediato que seguiu fez a risada parecer forçada. Recompus minha postura o mais rápido possível, engolindo qualquer traço de desconforto.
– A diferença entre cuidar de crianças e administrar um restaurante é clara, senhor Lombardi. Cada cargo exige um comprometimento diferente, mas ambos precisam ser tratados com seriedade. Não posso prever o futuro, mas posso garantir que me comprometo com as minhas responsabilidades, seja em um restaurante ou cuidando de crianças. E acredito que, neste caso, a responsabilidade com as crianças é ainda maior.
Eu olhei para Donna Raffaella, tentando interpretar sua reação. Ela não parecia nem satisfeita nem insatisfeita, mas seus olhos estavam avaliando cada palavra que eu dizia, como se estivesse esperando por algo mais. Alessandro, por sua vez, não parecia muito convencido, mas se manteve em silêncio, ainda observando-me com aquela intensidade implacável.
– E o que tem feito recentemente, senhorita Marconetti? – ele perguntou, quebrando o silêncio.
Essa era a parte delicada. O que eu diria? A verdade? Não. Não poderia contar o que realmente andava fazendo. A mentira tinha que ser bem construída.
– Eu sou professora de dança – menti, tentando falar com confiança. – Dou aulas todos os dias, às 19h. Este emprego seria uma boa oportunidade, porque me permitiria trabalhar durante o dia, sem comprometer meu horário de trabalho.
Alessandro me observou com atenção. Seu olhar parecia medir cada palavra que eu dizia. Ele estava tentando encontrar algo, um sinal de mentira, talvez. Eu segurei firme, esperando que ele não percebesse o tremor na minha voz.
Donna Raffaella, sem perder o ritmo, fez a próxima pergunta.
– E com crianças? Tem experiência, senhorita Marconetti? – Ela me analisou com um olhar quase desdenhoso, como se estivesse buscando alguma falha.
Respirei fundo. Não poderia mentir, mas também não podia dizer a verdade completa.
– Eu tomei conta da minha sobrinha algumas vezes – respondi, de forma simples. Não era mentira, mas também não era exatamente a experiência que ela queria ouvir.
Donna Raffaella pareceu não gostar da resposta, mas não retrucou. Seus olhos ficaram ainda mais apertados, analisando-me com um olhar crítico, como se estivesse julgando minha competência, ou a falta dela. Alessandro, no entanto, não parecia tão interessado nas respostas simples. Ele se inclinou um pouco para frente, a expressão no rosto agora mais séria.
– E se, por exemplo, um dos meus filhos se engasgasse com algo? Como você agiria? – Ele fez uma pausa, a voz baixa e controlada. – Imagine que você está sozinha com uma das crianças, e ela começa a engasgar. O que faria?
A pergunta caiu como uma bomba. Era uma armadilha, eu sabia. Ele queria ver como eu lidaria com uma situação de risco, como se eu estivesse sendo testada em um momento de crise. Respirei fundo, tentando manter a calma.
– Primeiro, eu garantiria que a criança estivesse calma – comecei, medindo bem cada palavra. – Tentaria fazer a manobra de desobstrução das vias aéreas imediatamente, mantendo a criança em uma posição segura. Caso não conseguisse resolver rapidamente, chamaria ajuda médica o mais rápido possível. O mais importante seria manter a calma e agir com eficiência, para não piorar a situação.
Alessandro me olhou com um leve brilho nos olhos, como se, pela primeira vez, estivesse surpreso com a minha resposta. Eu sabia que ele esperava algo mais hesitante, mais incerto, mas minha resposta foi firme, segura. Ele não disse nada, apenas ficou em silêncio, observando-me com uma expressão que eu não conseguia interpretar.
Então ele trocou um olhar rápido com sua mãe. Donna Raffaella se levantou, e eu percebi que o momento da decisão estava chegando.
– Pode esperar na sala enquanto discutimos entre nós – disse ela, sua voz implacável.
Assunta apareceu no instante seguinte, abrindo a porta e gesticulando para que eu a seguisse. Ela se moveu rapidamente, e quando cheguei à sala, ela me entregou o chá que eu tinha pedido antes, seu olhar ainda curioso, como se estivesse tentando ler meus pensamentos.
Sentada ali, esperando, cada minuto parecia se arrastar. O chá quente na xícara não aliviava o nó que se formava em meu estômago. Assunta, ao perceber meu nervosismo, não conseguiu esconder um sorriso.
– Vai se surpreender, senhorita Marconetti – disse ela, com um sorriso enigmático. A ironia em sua voz era palpável.
Eu a olhei, sem saber o que pensar.
– Eu também ficaria surpresa, caso me contratem – respondi, tentando dar um sorriso, mas sem esconder o nervosismo.
Assunta se recostou na parede, e um silêncio pairou entre nós. Eu não sabia o que pensar sobre ela, mas algo me dizia que ela sabia mais do que estava disposta a dizer.
– Há quanto tempo a senhora trabalha para a família Lombardi? – perguntei, tentando desviar um pouco do clima pesado.
Assunta olhou-me, surpresa pela pergunta.
– Trinta anos – respondeu ela, com um tom de quem sabia o peso de cada palavra.
– Trinta anos? – murmurei, impressionada. – Uau.
Assunta riu suavemente, como se achasse graça da minha reação.
– Mais tempo do que você tem de vida, senhorita – ela disse, antes de dar uma última risada abafada.
Eu sorri, mas não pude deixar de sentir a tensão crescer dentro de mim. Era impossível negar que algo grande estava prestes a acontecer.
Logo a porta se abriu, e Donna Raffaella entrou novamente, com Alessandro logo atrás. O clima estava mais tenso do que nunca.
Alessandro se sentou, e a decisão foi dada sem rodeios.
– Senhorita Marconetti – ele começou, a voz firme e direta. – Eu não costumo contratar mulheres jovens e inexperientes para cuidar dos meus filhos. Mas, por algum motivo, decidi lhe dar uma oportunidade. Não me faça arrepender disso.
Eu assenti, ainda sem palavras, mas o peso das palavras dele era claro.
– As regras são simples – ele continuou, a voz implacável. – Nada de roupas chamativas ou inadequadas. Nenhum namorado ou visita masculina na mansão. Muita discrição. Nenhum atraso. Caso cometa um erro, será dispensada imediatamente.
Eu apenas assenti, sentindo o peso de cada palavra.
Donna Raffaella me entregou um pequeno dossiê com a rotina das crianças, suas preferências alimentares e atividades, e eu o recebi em silêncio.
– Quando começo? – perguntei, tentando manter a voz firme.
Alessandro levantou-se da cadeira, ajustando a postura como se fosse dar uma última ordem.
– Amanhã, às seis da manhã. Sem atrasos – disse, sua voz fria e implacável. Ele me olhou uma última vez, e a intensidade do seu olhar fez meu estômago dar um salto. – Não me faça arrepender da minha escolha.
Eu assenti rapidamente, sentindo a pressão de suas palavras e a responsabilidade daquilo que acabara de aceitar. Mesmo que fosse apenas uma babá, sabia que esse emprego tinha o potencial de mudar minha vida de maneiras que eu ainda não conseguia imaginar.
Com um último olhar fulminante, Alessandro se virou, caminhando em direção à porta do escritório. Sua presença parecia ocupar toda a sala, e a maneira como ele se movia exibia uma confiança imensa. Ele passou pela porta, e Donna Raffaella seguiu-o, saindo logo atrás dele, sem dizer uma palavra a mais.
Eu fiquei por um momento, sentindo o peso daquilo tudo. O silêncio na sala parecia pesar como uma manta. Eles haviam decidido, e agora eu tinha que cumprir o que me foi imposto.
Donna Raffaella reapareceu logo em seguida, com sua postura impecável, seus olhos ainda avaliando cada passo que eu dava. Ela me fez um gesto suave, como se me convidasse a segui-la, e me conduziu até a porta da mansão, onde a luz suave da tarde já começava a desaparecer.
A mansão parecia ainda mais grandiosa agora que eu estava prestes a deixar aquele lugar. Cada detalhe, cada janela de vidro, cada pilar de mármore parecia me observar de volta, como se eu fosse apenas uma pequena peça na engrenagem daquela família poderosa.
– Estarei esperando você amanhã, às seis – disse Donna Raffaella, com a mesma postura rígida, sem perder sua compostura de matriarca da casa. Sua voz era formal, mas não havia acolhimento em suas palavras. Apenas um aviso.
Ela não sorriu. A despedida foi curta, como se estivesse apenas cumprindo uma obrigação. O contraste entre a cortesia de suas palavras e a frieza de sua expressão me fez entender que, para ela, eu era apenas mais uma funcionária que teria que se adaptar às regras rígidas daquela casa. Nada mais.
Eu assenti, ainda sentindo a tensão nos ombros.
– Até amanhã, senhora – disse, de maneira cortês, mas com o coração um pouco apertado.
Ela me observou se afastar até o carro, sua postura inabalável enquanto se mantinha parada na porta da mansão, como uma sentinela. Não havia qualquer sinal de afeto ou simpatia. Ela estava fazendo o seu trabalho, e eu sabia que, a partir de agora, nossa relação seria exclusivamente profissional.
Entrei no carro com a sensação de estar deixando para trás algo muito maior do que eu imaginava. O Fiat velho, que mal dava sinais de vida, se arrastava pela entrada de pedra da mansão, e eu deixava o portão imenso da família Lombardi para trás. O som do motor roncando e as ruas desertas à minha frente me davam uma sensação de liberdade, mas também de um peso crescente.
O que eu tinha acabado de fazer? Eu havia aceitado trabalhar para a família Lombardi, em um ambiente de luxo, com regras implacáveis e uma tensão palpável. Mas eu sabia, no fundo, que isso era apenas o começo. Não era só um trabalho como babá. Não. Havia algo mais, algo nas entrelinhas, que eu ainda não conseguia compreender. Algo que me atraía e ao mesmo tempo me assustava.
Enquanto dirigia pela estrada tranquila, com o vento entrando pelas janelas abertas e Rex quieto no banco de trás, eu me permiti respirar fundo. O amanhã começaria cedo, e eu teria que estar pronta para enfrentar tudo o que estava por vir. Para lidar com Alessandro, com a mansão, com as crianças, e talvez até com as pessoas que eu ainda não havia conhecido, mas que certamente faziam parte daquele mundo imenso e silencioso.
Mas, por enquanto, eu estava sozinha. E, ao olhar para o espelho retrovisor, a mansão Lombardi desapareceu lentamente no horizonte.
E eu senti, lá no fundo, que aquela virada seria muito maior do que uma simples mudança de emprego. Algo estava prestes a acontecer, e eu não tinha ideia de até onde isso me levaria.
Mas, uma coisa eu sabia: eu não poderia voltar atrás.
O futuro, com todas as suas incógnitas, me esperava.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu estava disposta a enfrentá-lo.







