Rebecca se acomodou no banco traseiro do táxi enquanto a cidade se desfazia do outro lado da janela. O carro avançava por ruas estreitas, ladeadas por árvores antigas e casas que pareciam paradas em outra época. A última parada foi uma grade preta com pintura descascada e um portão que rangeu ao se abrir.
A propriedade Callaway se erguia modesta entre um jardim descuidado e muros cobertos de hera. Não era a maior, nem a mais luxuosa de todas que figuravam na lista de imóveis de seu pai, mas justamente por isso era perfeita para o que precisava agora: um lugar onde passar despercebida.
O táxi parou com um leve ranger de freios e Rebecca desceu com sua pequena mala de couro gasto, sentindo como o ar fresco da manhã batia em seu rosto. A porta da casa se abriu antes que tocasse a campainha e lá estava seu pai, com aqueles braços abertos nos quais não se refugiava há dois anos.
Curtis Callaway estava mais magro do que ela se lembrava, com o cabelo mais branco, mas com aqueles mesmos olhos que, ao vê-la, se iluminaram como se o tempo não tivesse passado.
Não houve palavras no início. Ele saiu à varanda, desceu um degrau e a abraçou. E se até aquele momento Rebecca tinha aprendido a chorar em silêncio, deixou que as lágrimas corressem sem se esconder. Afundou o rosto no ombro do pai e respirou o cheiro familiar de madeira, de tabaco suave e de um leve toque de colônia antiga.
— Você está aqui — murmurou Curtis, apenas se separando para olhá-la.
Sua voz soava rouca, como se tivesse esperado demais para dizer isso; e Rebecca realmente tentou sorrir, mas seu gesto ficou no meio do caminho, preso entre o alívio e a tristeza.
— Sim, pai.
Os olhos de Curtis se moveram do seu rosto para a mala; e o brilho afetuoso se tensionou, como se uma sombra passasse por cima.
— E o Henry? — perguntou, com aquela voz grave que não precisava subir de tom para se impor.
Rebecca engoliu em seco e negou.
— Não... não vim com ele.
Curtis franziu a testa, avaliando tudo o que ela não dizia, e aquele gesto de raiva sem disfarce fez Rebecca segurar seu braço...
— Pai, não...
— Você não precisa me dizer nada. Vejo tudo nos seus olhos, filha — afirmou, quase como uma sentença. — Não preciso saber mais.
Ela suspirou, sentindo que as palavras grudavam em sua garganta, enquanto entravam na casa com passo suave.
— Não posso culpá-lo por não me amar. Eu já sabia.
Mas seu pai negou com a cabeça com um movimento decidido.
— Eu confiei no Henry para que te protegesse! Não tinha que te amar, Rebecca, mas sim cuidar de você... e não te fazer sofrer! — Sua voz se endureceu. — Por isso o livrei de passar dois anos na cadeia comigo!
Rebecca piscou, surpresa que ele dissesse com tanta franqueza, como se já não houvesse nada a perder.
— Pai...
— Não, filha! — Curtis levantou uma mão para cortar qualquer tentativa de defesa. — O amor é opcional. A lealdade, não.
O silêncio que seguiu estava carregado de história, como se ambos lembrassem conversas que nunca tinham tido, e Rebecca se obrigou a mudar de assunto, como quem guarda uma ferida para outro momento.
— Prefiro pensar no futuro — disse, endireitando as costas como se isso fosse suficiente para se recompor. — Tenho muito a fazer... muito a preparar.
Então seu pai lhe deu um beijo na testa e ela subiu as escadas. O ranger dos degraus lhe pareceu familiar, como se o tempo não tivesse passado. Deixou a mala de lado no quarto, pegou o telefone, discou um número e esperou.
— John — disse quando atenderam do outro lado. — Já tenho o contrato, te envio agora mesmo e... já estou pronta para o próximo passo — sentenciou e a resposta de John Anders foi breve e afirmativa, como se não houvesse necessidade de mais palavras entre eles.
Aquela noite o jantar teve todo o aconchego que tinha faltado a Rebecca por dois anos, mas no final Curtis rompeu o silêncio com uma voz carregada de memória e rancor. A sala de jantar estava iluminada por uma luminária pendente que oscilava apenas, projetando sombras que se moviam sobre as paredes.
— Minha exoneração já foi efetivada, mas não permiti que os detalhes saíssem na imprensa — sentenciou com gravidade. — Não quero que ninguém saiba que estou livre... ainda.
Rebecca o olhou com atenção, com o garfo suspenso no ar.
— Como se comprovou que foi uma acusação falsa? — perguntou e seu pai soltou uma risada breve, amarga, que não tinha nada de humor.
— Mais que acusação falsa foi uma traição. Alguém muito próximo de mim me incriminou. Muito poucos podiam ter feito isso...
— E entre eles estão os Sheppard — compreendeu Rebecca.
— Não acreditei que o Henry fosse capaz, mas sabendo o que te fez esses anos...
Rebecca sentiu uma pontada de raiva misturada com incredulidade e a imagem daquela família altiva se desenhou em sua mente.
— Então vamos descobri-los... todos os que nos machucaram... e vamos fazê-los cair.
Curtis assentiu, satisfeito de vê-la com aquela determinação que tanto lhe lembrava sua falecida esposa, e por um momento, o orgulho suavizou as linhas duras de seu rosto.
Toda a sua fortuna já estava de novo em suas mãos, a que todos conheciam e muito mais, muita coisa que ninguém imaginava; e com isso podia conseguir mais que uma simples vingança para sua filha e para ele.
Aquela noite, em seu quarto, Rebecca se sentou na beira da cama e pela primeira vez em muito tempo, se permitiu chorar por Henry. Chorar sem tentar se convencer de que não doía. Foi um choro silencioso, mas com a certeza de que seria o último por ele, como se cada lágrima que caía esvaziasse um pouco mais o peso que carregava no peito.
Não imaginava que enquanto isso, do outro lado da cidade, Henry caminhava pelo corredor de sua mansão, passando uma e outra vez em frente ao quarto que tinha sido dela... até que parou. Não ouviu aquela risada leve com a qual ela costumava sair para recebê-lo, nem o som da sua voz cantando alguma melodia distraída. Não havia cheiro do seu perfume, nem a música baixa que às vezes deixava ligada.
Empurrou a porta e o vazio que tanto tinha ansiado o atingiu. As paredes nuas, a cama perfeitamente feita e ao mesmo tempo a presença de todas as suas coisas... porque ela não tinha levado nada. Ficou alguns segundos ali, sem saber que diabos estava fazendo, até que o telefone no bolso começou a tocar.
— Doutor Sagan...? — murmurou e seu advogado lhe respondeu com uma saudação breve.
"Senhor Sheppard, queria avisá-lo que já temos data para a audiência de divórcio com o juiz. Será em três dias."
— Tão rápido?...
"Isso mesmo, a senhora Callaway deve ter movido contatos importantes, então suspeito que nos dará problemas".
Henry ficou paralisado, com uma mistura de surpresa e uma pontada de inquietação.
— Que tipo de problemas?