Helena estacionou diante da hípica e respirou fundo. O coração batia rápido, lembrando o beijo de dias atrás. Ainda sentia o gosto dele na boca, o toque das mãos, o olhar que falava mais do que palavras.
Não estava ali para se perder nessas lembranças, pelo menos, tentava se convencer disso. Marcara o encontro para entender a briga entre Jonas e Vicente. Precisa lembrar o motivo, mas a cada passo seu coração e corpo vibra com a possibilidade de estar mais uma vez perto de Jonas. Ao chegar no escritório, ela para e respira fundo, tentando acalmar seus pensamentos e se concentrar no que realmente importa. Ela b**e na porta do escritório. - Entra! a voz grave dele fez o peito dela acelerar. Ela abriu a porta e o viu, debruçado sobre a mesa, camisa de mangas dobradas, cabelo bagunçado. Ele ergueu o olhar e sorriu de leve. - Achei que tinha desistido de vir. - Não sou de desistir fácil. respondeu ela, fechando a porta. Ela ficou parada por um momento, olhando o ambiente: móveis escuros, cheiro de couro, um quadro de um cavalo preto na parede. Jonas voltou a olhar os papéis, mas Helena percebeu a tensão nos ombros dele. - Precisamos conversar sobre o Vicente... disse direto. Ele largou a caneta e suspirou. - Sobre o que exatamente? - Não minta para mim, você sabe o quê... ela cruzou os braços. - Especifique! Jonas respondeu, tentando ganhar tempo. Ele evantou, deu a volta na mesa e se aproximou devagar. A proximidade deixou Helena confusa. Por um instante, ela esqueceu o que ia dizer. - Helena, esquece isso... não é assunto para você. Ela ergueu o queixo. - Quando envolve meu irmão, é assunto meu. Eles ficaram em silêncio. Estavam tão perto que ela sentia o calor do corpo dele. O olhar de Jonas percorreu seu rosto e demorou nos lábios dela. Helena sabia o que viria. Parte dela queria resistir, mas outra parte desejava aquele momento. Ele segurou seu rosto e a beijou com urgência. Ela respondeu na mesma intensidade, segurando a nuca dele e sentindo os cabelos macios se espalharem por sua mão. O mundo ao redor desapareceu. Jonas a puxou para mais perto, corpo colado ao dela. Quando aprofundou o beijo, Helena gemeu baixinho, esquecendo o motivo que a trouxe ali. Ele a deitou no sofá com cuidado e, sem parar as carícias, deitou sobre ela. As mãos ficaram mais intensas e, quando Helena tirou a camisa dele, ouviram um barulho alto. - Maísa! disse Jonas. Ela tinha ido à hípica de surpresa para buscar Jonas. Sabia que ele passava mais tempo do que devia ali e queria confirmar uma suspeita. Quando viu pela janela Helena nos braços dele, seu sangue ferveu. Em vez de entrar, recuou e bateu uma porta com força, fazendo o barulho ecoar. Helena e Jonas se afastaram, ofegantes, sem saber se riam ou se preocupavam. Jonas vestiu a camisa apressado. A porta se abriu com um estrondo. Maísa entrou, o salto batendo no chão, e parou no centro, olhando para os dois. -Interrompi alguma coisa? Perguntou com um sorriso cortante. - Maísa? O que faz aqui? Jonas respondeu com voz dura. Ela ergueu a sobrancelha, cheia de desprezo. - Preciso de motivo para vir à minha hípica? Helena ficou em silêncio, sem baixar o olhar. - Chame esse lugar do que quiser: seu, do seu pai, do seu irmão... Não é meu, e eu sei disso. Aqui sou só mais um funcionário, mas não precisa ficar me lembrando disso o tempo todo... Sabe, um dia eu canso disso e nem seu funcionário serei mais. Ele fala de forma seca, com os olhos cheios de ódio encarando Maisa. - Você sabe que não quis dizer isso... Maísa falou baixo, arrependida. - Não interessa. Fala o que quer e vai embora. - Está brincando comigo? Vai fingir que essa aí não está na nossa frente? apontou para Helena. - O que quer aqui, Helena? Não cansa de correr atrás do meu marido? O silêncio sufocou o ambiente. - O que vim fazer aqui não é da sua conta. Maísa riu, debochada. - Tá brincando, né? Vem pro meu território, fica sozinha com meu marido e acha que isso não é da minha conta? Falou baixo, firme, se aproximando devagar, como um felino pronto para atacar. - Se quiser saber do assunto que me trouxe aqui, pergunte ao seu marido. Ele é que te deve explicação, não eu! Helena respondeu com o mesmo deboche. - Você não sabe o que é decência, né? Pra você é normal correr atrás de homem casado. Típico de gente sem vergonha como você. Helena riu alto. - Você me dando lição de moral? Sério? Para de ser hipócrita ou quer que eu te lembre do dia em que cheguei na cidade? O que prefere? O silêncio voltou. Jonas deu um passo à frente. - O que ela quer dizer com isso, Maísa? O que aconteceu naquele dia? Vocês nem se conheciam ainda... Helena? As duas se encararam. - Você acha que essa mulher tem algo decente pra dizer? Vamos embora, Jonas. - Não, Maísa. Se chegamos até aqui, vamos continuar. Helena, se em algum momento fui importante pra você, se ainda sente algo, me diga: o que aconteceu no dia em que chegou à cidade? O que isso tem a ver com Maísa? Maísa, com os olhos marejados, implorava em silêncio para que Helena ficasse quieta. Helena sabia que não tinha como fugir. Só restava falar a verdade. Respirou fundo, apertou as unhas nas mãos para controlar o tremor. - No dia em que cheguei na cidade, parei no bar do Zeca, na Vila Medeiros. - Sei qual é... - Comprei uma água e parei para beber. Foi quando vi Maísa saindo da casa da frente com um homem. Eles se beijaram, ela me encarou por alguns segundos e foi embora. Jonas encarou Helena e depois Maísa, que chorava silenciosa. Helena sabia que não havia mais volta. Tudo que viesse a partir dali seria culpa dela também. Mas não sentia medo. Estava decidida a lutar pelo homem que sempre amou e faria de tudo para tirá-lo da lama e da sujeira que sua vida se tornou.