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capítulo 6- Frente a frente

O silêncio na hípica parecia esmagador, como se cada parede, cada viga de madeira absorvesse o som do mundo exterior. O cheiro de feno recém-cortado misturava-se com o perfume de couro engraxado e a umidade da terra molhada. O vento, insistente, batia nas janelas altas, fazendo-as ranger, mas ninguém se movia.

Helena sentia o coração martelar no peito, cada batida ressoando como um tambor nas têmporas. Jonas permanecia imóvel, rígido como uma estátua, os punhos cerrados, os olhos fixos. Maísa, por sua vez, sustentava um sorriso que tentava ser leve, mas que não conseguia esconder as lágrimas recentes que escorreram pelo seu rosto.

— É verdade, Maísa? _ a voz de Jonas cortou o ar como uma lâmina. Não havia espaço para brincadeiras, não havia margem para evasivas. Ele não piscou, não desviou o olhar, e cada sílaba que saía de sua boca parecia pesar toneladas.

Maísa arqueou uma sobrancelha, seu sorriso se alargando levemente, quase desafiador.

- Essa idiotice? _ soltou, em uma risada curta e fria. - Não vou responder a isso.

Sem esperar qualquer reação, ela virou as costas e começou a caminhar pelo corredor de tábuas que levava aos estábulos. Cada passo ressoava, firme e quase arrogante, ecoando pelas paredes como um aviso silencioso. Jonas não hesitou; seguiu-a de perto. Helena, tentando manter a compostura, vinha logo atrás, tentando não se perder naquele turbilhão de emoções que parecia sugar o ar ao redor.

Quando Jonas a alcançou, moveu-se rápido, bloqueando sua passagem. Seu corpo era uma barreira firme, sólida, e seus olhos ardentes transmitiam impaciência e raiva contida.

-Sai da frente, Jonas _ disse Maísa, com a voz neutra, mas carregada de perigo contido.

- Não até você falar comigo _ respondeu ele, firme, a voz baixa, carregada de determinação. — Não vou ficar com essa dúvida.

Helena, atrás dele, cruzou os braços, tentando conter o tremor que subia pelo corpo.

- Por que não responde logo, Maísa? _ perguntou, a voz carregada de frustração. — Quem cala consente, não é?

Maísa inclinou a cabeça, mantendo o sorriso, como se se divertisse com a tensão ao redor.

- Isso é ridículo. Vocês só estão tentando desviar o foco do que acabaram de fazer. Estão tentando me fazer culpada para disfarçar a própria culpa.

- Do que você está falando, Maísa? _ Jonas perguntou, a voz agora quase falhando de tensão.

- Eu vi vocês dois se agarrando no sofá. Acham que sou como vocês? Sem caráter, sem decência?

Jonas se calou, o rosto endurecido, mas Helena não conseguiu se conter. Um passo à frente, a raiva tomando conta de cada músculo do corpo:

- Chega dessa palhaçada! Fala logo a verdade. Jonas vai descobrir de qualquer jeito. Vai ser muito mais bonito se sair da sua boca, não acha?

O silêncio se alongou, pesado, sufocante. Maísa apenas respirava, os olhos brilhando de desafio. Jonas deu um passo à frente, diminuindo a distância, a voz mais baixa, ameaçadora.

- Eu quero a verdade. Só isso.

Maísa soltou um suspiro quase teatral, como quem saboreia a tensão que causava.

- A verdade? _ repetiu, lenta, alongando cada sílaba. — Está na sua frente, você só não vê porque não quer...

Ela tentou passar, mas Jonas permaneceu firme. Cada baia, cada cavalo, parecia observar, como se o mundo tivesse diminuído e se resumido àquele corredor estreito e carregado de tensão. Helena prendeu a respiração, antecipando o próximo movimento de Maísa.

- Quer mesmo saber? _ continuou ela, um brilho quase cruel nos olhos. — A verdade é que eu cansei disso. Já disse que sou inocente, mas está na cara que você não quer acreditar. Pois faça como quiser. A partir daqui, eu não darei satisfação a você nem a ninguém. E você... vai ter volta. Se meteu no meu caminho, agora aguente as consequências.

Cada palavra era pesada, como um golpe certeiro, e Helena sentiu o frio percorrer a espinha. Ela sabia do que Maísa era capaz, ou ao menos suspeitava, mas não sentiu medo. Apenas uma mistura de apreensão e determinação.

Maísa deu um passo para trás, desviou pelo corredor lateral e desapareceu entre os estábulos. O som das botas se perdeu no relinchar de um cavalo, deixando Jonas parado por alguns segundos, absorvendo o impacto daquilo que ouvira. Sua respiração pesada denunciava que ele tentava digerir cada palavra, cada ameaça velada.

Helena se aproximou lentamente, o coração ainda acelerado.

- O que ela quis dizer com isso? _ murmurou, quase para si mesma. A voz carregava raiva, mas também uma sombra de medo.

-Acho que acabamos de abrir uma porta que talvez seja melhor não abrir... _ respondeu Jonas, mais para si do que para Helena. Ele olhava para baixo, perdido, como se vagasse por lugares desconhecidos, enquanto sua voz carregava uma ansiedade difícil de decifrar.

Sem necessidade de palavras, a decisão foi unânime. Foram atrás dela. O corredor, agora ainda mais estreito, parecia se comprimir ao redor deles. As sombras das baias se alongavam, e cada cavalo parecia uma testemunha silenciosa de algo prestes a explodir. Viraram a esquina, mas Maísa não estava lá.

- Droga!

Jonas murmurou, a frustração evidente. Acelerou o passo, impulsionado pelo desejo de alcançar respostas.

Encontraram uma porta lateral aberta, que dava para o pátio externo. O vento era cortante, carregando o cheiro de terra molhada e feno. O sol escondia-se atrás de nuvens pesadas, e o frio parecia penetrar nos ossos.

- Ela saiu por aqui.

constatou Helena, olhando as marcas no chão de cascalho, um rastro silencioso de sua passagem.

- E rápido ... respondeu Jonas. — Vamos.

Correram pelo pátio, o coração batendo acelerado, até que ouviram o som de um motor: o carro de Maísa sendo ligado e partindo. Ela havia desaparecido, deixando-os apenas com a dúvida.

- Helena... o que você contou foi sério demais. Você está mesmo falando a verdade?

Jonas perguntou, a dúvida pesada em sua voz.

- Eu jamais inventaria algo tão absurdo.

respondeu ela, firme.

- Gostaria que houvesse uma forma de provar, assim não restaria mais dúvidas.

Helena cruzou os braços, tentando se proteger do frio que não vinha apenas do vento, mas também da incerteza que pairava sobre eles.

- Em que lugar você disse que a viu mesmo?

Jonas continuou, tentando organizar os pensamentos.

- Na entrada da cidade, na Vila Medeiros...

- Mas não existe nem um parente dela por lá. O que ela estaria fazendo nesse lugar?

- Jonas, preste atenção. Eu vi Maísa beijando outro homem no portão da casa. Foi isso que ela foi fazer lá...

A dúvida nos olhos de Jonas era clara, mas Helena sabia que ele precisava de provas, de algo concreto que confirmasse sua palavra.

- Eu vou dar um jeito de te provar que não estou mentindo _ disse ela, com a determinação crescendo a cada sílaba. — E aí você faz o que quiser com ela. Eu vou provar, você vai ver!

Ajeitou a bolsa no ombro e saiu pisando firme, cada passo uma declaração de sua decisão. Por um lado, entendia a hesitação de Jonas, afinal, era sua esposa, mãe de seus filhos. Por outro, Jonas a conhecia bem o suficiente para saber que ela jamais mentiria sobre algo tão sério.

Enquanto caminhava, sua mente fervilhava de possibilidades. Mil maneiras de obter provas surgiam e desapareciam, mas nenhuma parecia suficiente. Mesmo assim, ela não desistiria. Era apenas uma questão de tempo até que conseguisse a evidência que colocaria fim à dúvida de Jonas.

Cada sombra, cada movimento à sua volta, parecia conspirar contra ela, mas também a impulsionava. Helena sentia o peso de cada escolha, cada decisão. Mas havia algo mais forte dentro dela: a certeza de que a verdade precisava ser revelada, custasse o que custasse.

E assim, com o vento frio batendo no rosto e o crepitar distante de cascos, Helena avançava, determinada a enfrentar o que viesse, a provar que a verdade nunca pode ser escondida por muito tempo.

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