Início / Romance / O resgate de um primeiro amor / Capítulo 4- Sussurros na Cozinha
Capítulo 4- Sussurros na Cozinha

Jonas estacionou o carro em frente de casa e bateu a porta como se ainda estivesse socando a cara de Jonas. Saiu sem olhar para Helena.

- Eu não quero conversar agora.

Ele disse, firme, quase gritando, e entrou em casa pisando forte e fungando, deixando claro o quanto estava com raiva.

Helena se encostou na parede e respirou fundo. A noite começava a ficar mais fria, e ela sentia o sereno cair na pele enquanto tentava segurar as lágrimas. As mãos ainda tremiam, e o coração seguia em disparada, não apenas pelo beijo de Jonas, mas pelo soco, pela raiva nos olhos do irmão, pela confusão que agora tomava conta de tudo.

Foi quando uma voz suave se aproximou da janela.

- Lelê...?

Era Íris.

Helena se virou devagar. A irmã vestia um moletom velho e estava com o cabelo preso de qualquer jeito, como se tivesse acabado de acordar.

- Eu ouvi o carro... e os gritos. O que aconteceu?

Helena se virou completamente, ficando de frente para a irmã.

- Nada que faça muito sentido agora...

Respondeu com um sorriso amargo.

- Vicente surtou...

Íris franziu o cenho.

- Como assim?

Helena suspirou, abaixando os olhos.

As duas entraram em casa em silêncio. A sala estava escura, e Vicente já havia se trancado no quarto. Íris puxou Helena para a cozinha, acendeu a luz fraca acima da pia e colocou a chaleira no fogo.

Sentaram-se à mesa. Íris cruzou os braços e não tirava os olhos da irmã.

- Fala. Quero saber de tudo.

Helena hesitou, mas então o desabafo veio, em voz baixa:

- Eu encontrei o Jonas hoje... por acaso. Ele apareceu do nada. A gente conversou... e se beijou.

Íris ergueu uma sobrancelha.

- Vocês se beijaram? Do nada?

- Foi ele quem me beijou... E eu não consegui parar.

Íris não julgou. Apenas ficou olhando por um tempo antes de dizer:

- E aí o Vicente viu?

Helena assentiu.

- Ele ficou furioso. Deu um soco no Jonas. E disse que, se ele chegasse perto de mim de novo, matava ele.

Íris arregalou os olhos, mas sua reação foi mais de desconforto do que surpresa.

- Sabia que o Vicente estava estranho esses dias... mas não imaginei que fosse algo assim.

Ela se levantou, desligou o fogo e começou a preparar o chá.

- Lelê, tem uma coisa que eu preciso te contar.

- O quê?

- Eu não sabia se devia dizer, mas agora acho que é melhor você saber...

Helena ficou em silêncio, esperando.

- Um tempo atrás, eu ouvi uma conversa entre o Vicente e o pai. Tinha vindo passar um tempo com o papai, eu estava no corredor, voltando do banheiro. Eles estavam na sala, e eu parei quando ouvi o nome do Jonas.

- E o que diziam?

- Vicente estava dizendo que o Jonas não podia mais se aproximar de ninguém da família. Que ele havia “mergulhado em sujeira”. Que “não podiam mais confiar”...

Ela fez aspas com os dedos, repetindo as palavras com exatidão.

Helena franziu a testa.

- Sujeira? Do que papai estava falando exatamente?

- Eu não sei. Nosso pai parecia irritado também. Disse algo como: “A gente fez o que tinha que fazer. Agora ele que fique longe.”

O silêncio entre elas ficou pesado, denso como fumaça.

- Lelê... eu não sei o que aconteceu no tempo em que você ficou fora. Mas alguma coisa muito séria rolou entre os três. Vicente, papai... e o Jonas.

Helena mordeu o lábio inferior. A cabeça rodava. Era como se tivesse voltado para uma cidade onde tudo parecida com a da sua infância, mas com tudo fora do lugar, como em um mundo paralelo ao que ela viveu sua infância e adolescência.

- Será que tem a ver com a mãe?

Íris hesitou, pensativa.

- Não sei. Nunca ouvi nada relacionado à mãe nessa conversa. Só sei que o clima ficou estranho depois que você veio visitar com o... com o teu marido, lembra? Depois daquela viagem, Vicente e Jonas nunca mais se falaram direito.

Helena fechou os olhos por um instante. Ela se lembrava daquela visita. Tudo parecia normal, mas agora, com a distância dos anos, pequenos detalhes começavam a incomodar. Olhares trocados. Silêncios prolongados. Frases interrompidas.

- Talvez tenha começado ali.

Sussurrou Helena, pensativa, mais para si mesma do que para a irmã.

- Talvez... _ Íris abaixou a voz. _Mas uma coisa é certa: estão escondendo algo de você. E já passou da hora de você descobrir o que é.

As duas ficaram ali, quietas, enquanto o cheiro do chá de camomila invadia a cozinha. Helena sentia os dedos formigarem. A dor no peito que achava ser saudade começava a parecer inquietação.

- Eu preciso conversar com o Jonas.

Disse ela, por fim.

- Preciso entender o que está acontecendo. Ou não vou conseguir respirar.

- Só toma cuidado, tá?

Íris estendeu a caneca para ela.

- Por quê?

Perguntou Helena, levantando uma sobrancelha.

- Tem coisa aí que, se vier à tona, pode mudar tudo.

Helena encarou a bebida quente nas mãos. Seu reflexo, distorcido no líquido amarelado, parecia o de outra mulher. Mais cansada. Mais dura. Mais decidida.

- Talvez seja hora disso acontecer.

- Eu entendo o que você quer dizer... Mas lembre-se que ele tem uma família... Tem filhos e...

Íris hesitou por um segundo, então completou:

- Uma esposa que sabe jogar sujo. E não tem nada a perder.

Helena apertou a caneca com mais força, como se o calor pudesse protegê-la do que a irmã acabara de dizer.

- Do que você tá falando?

Íris ficou em silêncio por alguns segundos e depois olhou para o corredor, como para se certificar de que ninguém estava vindo.

- Há alguns anos, Jonas pediu o divórcio... Dias antes, teve uma discussão muito feia entre ele e o sogro. Jonas chegou a dormir alguns dias na casa da mãe dele... Bem, não sei exatamente o que aconteceu, mas dias depois ele sofreu um acidente, ficou internado por alguns dias, e então os dois voltaram a viver juntos como se nada tivesse acontecido. Sei que parece besteira... Coisas assim podem acontecer, né!? Só que o mais assustador veio depois: o carro dele seria periciado. Não sei por quê, ninguém nunca explicou, mas, um dia antes da perícia, o carro foi roubado. Uma semana depois, apareceu carbonizado numa cidade vizinha...

- Meu Deus...

Helena estava em choque com a revelação.

- Você acha que a Maísa mandou fazer isso?

- Não. É mais fácil o pai dela ter mandado. Afinal, ele é o manda-chuva aqui...

Íris falou e tomou um gole do chá logo em seguida.

- Parece que a Maísa tinha razão. As coisas realmente mudaram por aqui...

- Como assim a Maísa tinha razão? Quando foi que você falou com essa maluca?

Helena tentou não rir da fala da irmã e da cara de espanto misturado com raiva que ela fez.

- No primeiro dia da festa de férias, lá na Don Cícero...

- Como assim você não me contou isso antes? Pois trate de me contar agora mesmo. Peraí que vou pegar uns petiscos pra nós.

Helena riu baixinho da irmã. Ela amava esses momentos de fofoca com Íris e já tinha esquecido o quanto era libertador ter alguém em quem podia confiar.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App