Dias se passaram sem que Helena visse Jonas ou sua família. Ela ia quase todos os dias à casa de dona Ana, não para ver Jonas, mas para matar a saudade. Dona Ana, assim como Jonas, fazia parte da sua história. Sua mãe, a falecida Lorena, sempre tomava chimarrão com dona Ana depois do trabalho. Jonas era amigo dos primos de Helena, todos três ou quatro anos mais velhos que ela. Frequentaram a mesma escola, iam às mesmas festas e estavam sempre juntos.
Helena e Jonas sempre se deram bem, e à medida que cresciam, todos sabiam que aquilo daria em namoro. Aos 15 anos, Helena se apaixonou de verdade por Jonas. Muitos diziam que ela já era apaixonada antes, só não tinha se dado conta. Jonas, com 18 anos na época, já trabalhava desde os 17. Era independente, muito bonito e querido pelas meninas do bairro, não apenas pela aparência, mas pelo carisma também. Ele era muito disputado, chegou a namorar brevemente uma ou duas garotas da cidade, mas os relacionamentos nunca duravam muito. Dona Ana era implacável com qualquer uma que se aproximasse demais dele. Dizia que Jonas estava destinado a Helena, o que alimentava uma rivalidade velada das moças do bairro com ela. Mas Helena nunca ligou. Nunca foi de ter muitas amigas. Na verdade, sempre foi tímida. Se não fossem seus irmãos mais novos, talvez sua infância tivesse sido mais solitária. Íris, sua irmã três anos mais nova, era completamente o oposto dela: extrovertida, cheia de amigos, chamada para festas e sempre o centro das atenções. Isso salvou parte da juventude de Helena, pois onde Íris ia, ela também era incluída. Vicente, seu irmão seis anos mais novo, era muito parecido com ela. Sempre foram confidentes. Os dois se entendiam de uma forma silenciosa e profunda. Apesar da pouca idade, Vicente era o mais inteligente e maduro dos três. Mesmo tendo perdido a mãe muito pequeno, manteve-se firme. Muitas vezes, era o ponto de equilíbrio da casa. Tinha um carinho especial por Jonas, já que, sendo o único filho homem, não conseguia dividir suas dúvidas com o pai, com quem vivia em conflito. Por isso, Helena estranhou muito quando Vicente lhe contou, com frieza, que não falava com Jonas havia anos. Aquela conversa ficou na cabeça de Helena, mas ela preferiu não insistir. Mudou de assunto, tentando aliviar o clima. Naquela noite, deitada na cama e olhando para o teto, Helena pensou que seus irmãos precisavam de um respiro. Um momento leve, longe de tudo aquilo que andava tão pesado ultimamente. Então teve uma ideia que a animou: levar todos para passar quatro dias em um parque aquático na cidade vizinha. Era algo simples, mas que poderia fazer bem a todos. Decidiu que falaria com eles na manhã seguinte e assim mandou mensagem convidando eles para um dia de compras. Eles aceitam e Helena pede para Íris levar Heitor e Júlia juntos e ela aceitou. Na manhã seguinte, os irmãos se encontraram no lugar combinado e passaram o dia visitando lojas, rindo juntos e comendo besteiras. A leveza daquele momento era rara, e Helena fazia questão de aproveitá-lo ao máximo. Ja no final do dia, Íris resolveu levar as crianças para casa. - As crianças estão caindo de sono... olha só, não aguentam nem comer as batatas fritas deles. Disse ela, rindo, ao apontar para os pequenos praticamente dormindo à mesa. Helena concordou, e então Íris saiu com as crianças, deixando apenas ela e Vicente no centro para curtir mais um pouco. A noite foi se arrastando quente e lenta, como todo fim de noite de verão no interior gaúcho. Helena se sentia leve, quase como num sonho. Como Vicente ficou encarregado de dirigir, ela se permitiu beber um pouco. Fazia tantos anos que não se permitia isso que, no terceiro copo, já sentia o corpo flutuar. Os dois caminharam pela praça, agora quase vazia. Vicente decidiu ir ao banheiro e combinou de se encontrarem no carro. Helena seguiu sozinha. Quando estava se aproximando do carro, outro veículo estacionou um pouco à frente. Dele desceu um grupo de jovens entre 18 e 23 anos, todos filhos de conhecidos. Abriram o porta-malas e colocaram para tocar uma música antiga, uma daquelas que bastam dois acordes para trazer lembranças. Helena sentiu os olhos se encherem de lágrimas. Aquela música a transportou para as festas da escola, os momentos com os amigos, e, principalmente... para o beijo de Jonas. Nesse instante, sentiu uma presença atrás de si e virou-se rapidamente. Era ele. - Me desculpa... não quis te assustar _disse Jonas, com a voz baixa. Ela não respondeu. Ficou apenas parada, observando cada detalhe dele. Era impressionante como o tempo só o deixava mais bonito. - Está tudo bem? - Sim... eu só estou um pouco... leve, distraída. Deve ser por causa dos drinks... - Você vai dirigir assim? - Não, não... o Vicente veio junto. Deve estar vindo do banheiro... Ela olhou para trás dele, procurando por Vicente, mas não viu ninguém. Nesse momento, tocou um trecho da música que eles dançaram juntos, um dia antes dela ir embora da cidade. - Essa música... _ sussurrou Jonas. - Eu sei... _ respondeu Helena, com a voz embargada. O clima entre os dois era tenso, quase palpável. Dava para ouvir, no silêncio entre eles, os corações batendo como se fossem um só. Antes que Helena pudesse fazer qualquer coisa, Jonas a puxou para perto e a beijou. No começo, o beijo foi calmo, quase tímido. Mas rapidamente se transformou em algo profundo, carregado de lembranças, saudade e desejo. Ela sentiu os sentidos se dissolverem. Tudo ao redor desapareceu. Restavam apenas os dois, presos naquele instante que parecia destinado a acontecer. Mas então a realidade os alcançou. - Helena! A voz de Vicente cortou o ar. Ela se afasta de Jonas assustada. Vicente, tomado pela fúria, deu um soco em Jonas, que quase caiu para trás. Helena, em choque, pensou que ele reagiria, mas Jonas apenas limpou o sangue da boca, em silêncio, olhando com tristeza para Vicente. - Se afasta da minha irmã, seu maluco. Você não vai arrastar ela pra essa sujeira que virou a tua vida. Nunca mais chega perto dela ou eu te mato, entendeu? Helena se colocou entre os dois, impedindo o irmão de continuar. - Mano, o que é isso? Desde quando você se tornou violento? - Pra defender minha família, eu faço qualquer coisa. Vamos, Helena. Fica longe desse maluco. Ele a pegou pelo braço, guiando-a até o carro. - Calma, Vicente... pra quê isso tudo? - Entra no carro, Helena. Em casa a gente conversa... Ela entrou. Sabia que discutir ali não resolveria. Vicente, apesar da raiva, era um bom motorista. Mesmo assim, ela preferiu não dizer mais nada. O caminho para casa foi em silêncio. Helena olhava pela janela, sem conseguir entender como tudo tinha se transformado tão rápido. Amigos de infância agora se odiavam. O homem que ela amava parecia viver envolto em sombras, e o irmão que sempre fora seu apoio agora escondia segredos e rancores. O que sua ausência causou nas pessoas que tanto ama? Será que ela conseguiria juntar os cacos daquilo que um dia foi tão perfeito, mas que hoje não passava de mistério e dor?