Mundo de ficçãoIniciar sessãoPor volta do meio-dia, Anita recebeu um telefonema do seu senhorio.
A pessoa do outro lado da linha estava furiosa: "O que está acontecendo? Como você conseguiu bagunçar minha casa desse jeito?"
Anita perguntou com calma, num tom de quem já suspeitava de tudo: "O que aconteceu, exatamente?"
O proprietário estava a ferver de raiva. "Venha ver você mesma! Arrombaram a porta e destruíram tudo lá dentro. Perguntei à administração do condomínio e me disseram que foram seus familiares. Estou avisando — você vai me indenizar por esse prejuízo. Venha agora mesmo para calcularmos o valor."
Anita ficou surpresa, mas não perdeu a compostura. "Eu não estava em casa ontem e não sabia que fariam isso. No momento estou fora e não consigo voltar imediatamente. Que tal o seguinte: o senhor calcula os prejuízos, e eu ligo para eles para entender o que aconteceu?"
Ela não tentou esquivar-se da responsabilidade, e isso fez a raiva do proprietário diminuir pela metade. Ele concordou.
Cerca de meia hora depois do término da ligação, ele enviou uma mensagem com o valor estimado.
Anita sabia exatamente o que havia dentro do apartamento — e era evidente que o proprietário havia exagerado no cálculo. Mesmo assim, não deu muita importância a isso e ligou direto para Valter Fontes.
Ele atendeu rapidamente e já começou aos gritos: "Sua ingrata, como ousa me ligar?"
Anita foi direta: "Você foi ao meu apartamento ontem, arrombou a porta e destruiu tudo?"
"Não me venha com essa conversa", rebateu Valter. "Volte aqui agora mesmo e peça desculpas à sua mãe e à sua irmã — ou pode se esquecer desse emprego."
A voz de Anita ficou ainda mais fria que a dele: "Minha mãe está morta. Você se esqueceu de que fez um juramento ao lado do leito dela? Prometeu que cuidaria bem de mim, e que, se falhasse, seria atingido por um raio e teria uma morte horrível."
Ela continuou, com uma ponta de ironia: "Você acredita em fantasmas e em castigo divino mais do que em qualquer coisa neste mundo. Não tem medo de que um dia receba exatamente o que merece?"
"Cale a boca!" Valter berrou.
Mas dava para perceber que ele estava levemente abalado.
Na época em que sua mãe estava gravemente doente, ela chegara a planejar o divórcio — não por medo de ser um fardo, mas para dividir os bens e garantir alguma segurança para a filha. Valter se comportara impecavelmente durante todo aquele período, sempre ao lado dela, fazendo juramentos solenes de que passaria o resto da vida cuidando de Anita e jamais procuraria outra pessoa.
Sua mãe se comoveu e desistiu do divórcio. Resultado: após a morte dela, todos os seus bens foram parar nas mãos de Valter. Dois meses depois, Célia e Letícia Fontes já faziam parte da família.
Foi só então que Anita compreendeu o quanto seu pai era capaz, por trás daquela aparência inofensiva. Ele havia mantido uma vida paralela por anos, e Letícia era apenas dois anos mais nova do que ela. Durante todo aquele tempo, ele vivera confortavelmente dos dois lados.
Com a chegada de uma madrasta, a face verdadeira de Valter foi se revelando aos poucos.
Depois que Anita devolveu Miguel à família Mashini, ele chegou a cogitar revendê-la.
Anita respirou fundo. Não queria desperdiçar mais tempo com ele. "O proprietário já calculou os prejuízos. Se você não pagar o valor, chamarei a polícia imediatamente. Ontem havia câmeras, testemunhas na administração do condomínio e vizinhos que viram tudo. Não tente fugir disso."
"Você se atreve!" A voz de Valter subiu de tom, voltando às ameaças: "Parece que você realmente não quer mais esse emprego."
Anita respondeu sem hesitar: "De fato, não quero mais."
Era uma posição subalterna, com salário baixo e uma infinidade de tarefas insignificantes. Dadas as suas capacidades, ela jamais deveria ter chegado a esse ponto — foram três anos sendo sufocada por eles.
Valter gaguejou "você, você, você" por um longo momento, sem conseguir completar uma frase sequer.
Anita informou o valor que o senhorio havia calculado e disse com firmeza: "Se não transferir o dinheiro em meia hora, faço o boletim de ocorrência agora. Vamos ver se consigo."
Quando Alison saiu da reunião, havia alguém esperando na porta da sala de conferências.
O assistente entregou-lhe um documento com as duas mãos. "Senhor, isto é o que o senhor solicitou."
Alison pegou e respondeu com um leve "hm".
Voltou ao escritório, sentou-se, conferiu dados e revisou vários relatórios. Somente quando terminou a maior parte do trabalho é que pegou os documentos, folheou algumas páginas — e franzou a testa involuntariamente.
Na verdade, após o incidente de quatro anos atrás, ele havia pedido a alguém que investigasse a família Fontes a fundo.
Soube que, naquela noite da festa, a aparição de Anita em seu quarto havia sido pura coincidência.
Caso contrário, dado o seu temperamento, a empresa de Valter Fontes já teria falido há muito tempo.
Antes que terminasse de ler os documentos, bateram na porta do escritório. A porta se abriu.
Era Yago Mashini, que acabara de voltar de uma viagem de negócios. Entrou com um sorriso largo. "Irmão."
Jogou-se descontraidamente numa cadeira à frente da mesa. "Ouvi dizer que você trouxe aquela mulher de quatro anos atrás de volta para casa e está planejando ter outro filho com ela?"
Soltou um palavrão antes de continuar: "Quer salvar Miguel? Quer ter um bebê? Ótimo — mas não precisa ser assim. Podemos optar pela fertilização in vitro e simplesmente oferecer uma compensação financeira generosa. Problema resolvido."







