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O Palácio dos Sentidos

O voo de São Paulo a Nova Deli fora uma sucessão de horas suspensas no tempo, onde a ansiedade de Camila oscilava entre o arrependimento gélido e uma expectativa febril. Ela mal conseguira tocar na comida refinada da primeira classe; o estômago parecia um nó apertado de nervos. Quando finalmente aterrissou e seguiu para o trecho final até as encostas do Himalaia, o cansaço era uma névoa sobre seus sentidos. No entanto, assim que o táxi atravessou os portões de ferro fundido do retiro, a névoa dissipou-se instantaneamente.

O lugar não era apenas um ashram; era um palácio que desafiava a sobriedade estética a que Camila estava acostumada. As paredes eram de um rosa terroso, adornadas com detalhes em azul-cobalto e ouro. Cúpulas vibrantes erguiam-se contra o céu de um azul profundo, e o ar estava saturado com o aroma denso de sândalo, incenso de nag champa e algo mais — um cheiro de terra úmida e flores tropicais que parecia pulsar.

Ao descer do carro, Camila sentiu o peso da sua mala de couro de grife como um lembrete incômodo da mulher que ela estava tentando deixar para trás. Uma funcionária da recepção, vestindo um sári de seda cor de açafrão, aproximou-se com um sorriso que parecia ler pensamentos.

— Namastê, Camila. Seja bem-vinda ao seu despertar — disse a mulher, unindo as mãos.

Ela entregou a Camila um kit de boas-vindas: uma caixa de madeira entalhada contendo pequenos frascos de óleos essenciais, uma guirlanda de calêndulas frescas e um conjunto de roupas de algodão orgânico, tão leves que pareciam flutuar.

— Por favor, vista-se com estas vestes e descanse — orientou a funcionária. — O Guru Mahesh faz questão de conhecer pessoalmente cada nova iniciada. Ele terá uma conversa a sós com você esta noite para entender suas demandas e os bloqueios que a trouxeram até aqui.

Enquanto caminhava para a ala dos aposentos, Camila observava o ambiente com os olhos de curadora de arte, mas o que via era muito mais vivo do que qualquer galeria. Mulheres de todos os tipos, tamanhos e etnias circulavam pelos pátios. Algumas já vestiam as roupas leves do retiro e pareciam caminhar com uma liberdade de movimentos que Camila nunca possuíra; outras, como ela, ainda carregavam no olhar a expressão perdida de quem acabara de naufragar em solo estrangeiro. Havia risos em alguns cantos, sussurros em outros, e um silêncio meditativo que pairava sobre a fonte central do palácio.

Ao chegar à porta do seu aposento, Camila parou bruscamente. O quarto era amplo, ventilado, com janelas que davam para o rio Ganges, mas havia duas camas de solteiro dispostas de forma simétrica.

— Um dormitório? — ela murmurou, sentindo uma pontada de irritação aristocrática.

Ela deixou a mala no chão e voltou apressadamente à recepção.

— Com licença, deve ter havido um erro — disse Camila, tentando manter o tom suave mas autoritário. — Eu solicitei — ou pelo menos presumi — um quarto isolado. Gostaria de uma suíte privada, por favor.

A funcionária do sári açafrão sorriu com a mesma paciência de antes.

— Camila, aqui no retiro, o processo de cura começa pela quebra das barreiras do ego e da individualidade. Compartilhar a experiência coletivamente, desde o repouso até os rituais, é fundamental. O isolamento é o lugar onde a dor se esconde; a convivência é onde ela se dissolve. Não temos quartos individuais.

Camila sentiu o impulso de protestar, de dizer que pagara uma pequena fortuna e que não estava acostumada a dividir seu espaço pessoal com estranhos desde os tempos de faculdade. Mas então, lembrou-se da frase de Ricardo: "Você é uma estátua de porcelana". As estátuas de porcelana ficam em caixas individuais. Ela queria ser outra coisa.

— Entendo — disse ela, engolindo o orgulho. — Obrigada.

Ela voltou para o quarto e começou a ajeitar suas coisas. Retirou seus cremes caros de Paris e as roupas de seda, colocando-os na pequena cômoda de madeira. Enquanto trocava o seu conjunto de viagem pelas roupas leves do kit — uma túnica branca e calças largas que permitiam que sua pele finalmente respirasse — a porta se abriu.

Uma jovem entrou, trazendo consigo uma energia solar. Devia ter cerca de vinte e dois anos. Tinha a pele bronzeada e um corpo impecavelmente torneado, com músculos que denunciavam uma vida ativa, talvez ioga ou dança. O rosto era limpo de maquiagem, mas os olhos brilhavam com uma curiosidade vibrante.

— Oi! Eu sou a Sofia — disse a moça, com um sotaque que Camila identificou como sendo do sul do Brasil. — Você deve ser a minha colega de quarto.

Camila, surpreendida pela vivacidade da garota, sentiu uma simpatia imediata. Havia algo de autêntico na forma como Sofia se movia.

— Camila — respondeu, estendendo a mão, mas sendo surpreendida por um abraço rápido e caloroso da colega.

— Que bom que você é brasileira também! — Sofia sentou-se na cama oposta, cruzando as pernas com agilidade. — Eu vim para abrir meus horizontes. Sinto que minha sexualidade é como um cavalo selvagem que eu ainda não aprendi a montar, sabe? Quero explorar tudo o que o Mahesh tem a ensinar. E você? O que te trouxe até o fim do mundo?

Camila sentou-se na beira da cama, sentindo o peso da confissão que estava prestes a fazer. Pela primeira vez, fora do ambiente seguro de Roberto e Justino, ela disse as palavras.

— Eu fui traída. Dez anos de casamento. Ele me disse que eu era "sem sal" e me trocou por uma experiência mais... viva.

Sofia ouviu com atenção, sem julgamento, mas com uma expressão de indignação solidária.

— Sem sal? Que audácia desse homem. Geralmente, as pessoas que dizem isso são as que não têm coragem de temperar a própria vida. Mas você veio ao lugar certo, Camila. Se o que você quer é descobrir o seu fogo, o Mahesh é o mestre das chamas.

— Você já o viu? — perguntou Camila, sentindo o coração acelerar.

— Já tive minha conversa a sós com ele logo que cheguei, algumas horas atrás — Sofia disse, os olhos brilhando de uma maneira quase reverente. — Ele é maravilhoso. Não é só a aparência dele, que é... bom, você vai ver. É a voz. É o jeito que ele olha para você. Ele não olha para as suas roupas ou para o seu status; ele olha para o que está vibrando embaixo da sua pele. Ele me disse coisas sobre mim mesma que eu nem tinha coragem de pensar.

As duas continuaram conversando enquanto a luz do sol começava a descer atrás das montanhas, pintando o Ganges de um laranja incandescente. Sofia contou sobre as suas expectativas, sobre como queria perder o medo de ser "excessiva" na cama, enquanto Camila falava sobre o medo oposto: o de nunca ter sido o suficiente. Elas falaram sobre os rituais que começariam no dia seguinte, sobre a alimentação vegetariana condimentada que já começava a perfumar o corredor, e sobre a estranha sensação de liberdade que vinha com o fato de ninguém ali saber quem era o Ricardo ou o que era a sua fundação de arte.

— Está quase na hora — disse Sofia, olhando para um pequeno relógio de pulso. — O encontro de vocês é no pavilhão de sândalo. É um lugar privado, lá no topo da ala leste.

Camila levantou-se, sentindo as pernas um pouco trêmulas dentro das calças largas de algodão. Ela se olhou no espelho. Sem a armadura da alfaiataria, sem os saltos altos, ela parecia mais vulnerável, mas também mais jovem. Seus cabelos estavam soltos, caindo suavemente sobre os ombros.

— Vai lá, Camila — encorajou Sofia. — Só seja a mulher que quer sentir algo de novo.

Camila assentiu, pegou o pequeno frasco de óleo que recebera no kit e aplicou uma gota nos pulsos. O cheiro era profundo e inebriante. Ela saiu do quarto e seguiu as lanternas de papel que iluminavam o caminho pelo jardim interno. Cada passo a levava para mais longe da sua mansão nos Jardins e para mais perto do encontro com o homem da foto.

Quando chegou diante do pavilhão de sândalo, o silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo murmúrio distante do rio. As cortinas de seda fina balançavam levemente com a brisa. Ela respirou fundo, empurrou a cortina e entrou. Lá dentro, a penumbra era quebrada apenas por velas de ghee, e no centro de um tapete de seda, o Guru Mahesh a esperava, exatamente como na imagem, mas com uma presença física que parecia alterar a pressão do ar ao seu redor.

O encontro que mudaria a trajetória de Camila estava prestes a começar.

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