Mundo de ficçãoIniciar sessãoA sala de Roberto e Justino estava impregnada pelo aroma de chá de camomila e pelo som dos soluços intermitentes de Camila. Ela estava encolhida em um xale de casimira cinza, os olhos inchados e o rímel borrado formando sulcos escuros em seu rosto de porcelana, que agora parecia prestes a rachar. Já passava das duas da manhã, e a narrativa da traição de Ricardo fora repetida exaustivamente, cada vez com um detalhe mais doloroso sobre a "falta de sal" e a frieza técnica do quarto que ela outrora chamara de santuário.
— Ele destruiu tudo, Roberto — Camila fungou, aceitando mais um lenço. — Dez anos de devoção jogados no lixo por causa de uma... uma aventura qualquer com uma mulher que ele mal conhece. Eu fui o molde da perfeição para ele, e agora ele diz que o molde é vazio.
Roberto e Justino trocaram um olhar cúmplice, aquele tipo de olhar que amigos de longa data compartilham quando sabem que o remédio para uma ferida profunda precisa ser drástico. Eles conheciam Camila desde a época da faculdade e sabiam que, por trás daquela fachada de curadora de arte culta e aristocrática, havia uma mulher que nunca tinha se permitido sentir nada que não fosse aprovado por um manual de etiqueta social. Camila era o resultado de uma educação rígida e de um casamento que funcionava como uma redoma de vidro: bela de se ver, mas fria ao toque.
— Escuta aqui, Mila — começou Justino, sentando-se na mesa de centro e pegando o seu tablet. — O Ricardo é um idiota, isso é fato. Ele é um homem comum com um ego inflado. Mas ele disse algo que, por mais cruel que tenha sido, abriu uma porta que você manteve trancada a sete chaves. Você viveu numa redoma, querida. Você foi a esposa troféu de um único homem a vida inteira. Você conhece o cardápio de um restaurante só e acha que o mundo termina ali.
— E onde isso me levou? À humilhação! — ela exclamou, gesticulando com as mãos trêmulas.
— Exato. Porque você não conhece o seu próprio poder — interveio Roberto, aproximando-se com o tablet ligado e uma expressão de quem guarda um segredo precioso. — Olha para isso. Não rejeita de cara, apenas olha.
Ele estendeu o aparelho para Camila. Na tela, um flyer digital exibia cores vibrantes que pareciam pulsar: tons de açafrão, fúcsia e ouro. No centro, a imagem imponente de um homem indiano de traços fortes, usando um turbante azul profundo com uma pedra preciosa incrustada no centro da testa, simbolizando o terceiro olho. Ele estava sem camisa, exibindo um corpo escultural, bronzeado e untado em óleos, sentado em uma posição de lótus que exalava uma masculinidade magnética, serena e perigosamente viril.
"RETIRO SENSORIAL COM O GURU MAHESH: UMA SEMANA PARA A LIBERTAÇÃO E EXPLORAÇÃO TOTAL", dizia o título em letras douradas.
— Um retiro sexual? Na Índia? — Camila leu em voz alta, a voz falhando em um misto de choque e desdém. — Vocês enlouqueceram? Eu sou curadora de arte, eu trabalho com estética e história, não sou... uma dessas pessoas que saem por aí em busca de "orgasmos transcendentais" em cabanas de palha.
— Mila, deixa de ser cafona — Justino riu suavemente. — O ashram do Mahesh é mais luxuoso que qualquer hotel boutique que você já ficou em Paris. Mas não é sobre o luxo dos lençóis, é sobre o luxo do que você vai sentir. Você precisa de um choque térmico na alma. A promessa aqui não é só sexo casual; é a exploração sexual ao máximo, é quebrar as correntes da vergonha que o seu colégio de elite e o seu marido CEO colocaram em você.
Camila relutou, balançando a cabeça negativamente. A ideia de viajar para o outro lado do mundo para se envolver em algo tão explícito parecia uma afronta a tudo o que ela tinha sido até aquela manhã.
— Eu não consigo. O que as pessoas vão dizer? O que o meu pai diria? O que a diretoria da fundação pensaria se soubesse que eu fui para um... um bacanal místico?
— O seu pai não tem que saber, e as pessoas vão dizer que você está fazendo uma viagem espiritual de retiro e silêncio para se encontrar após o divórcio — argumentou Roberto. — Mas o que importa não é o que eles pensam, é o que aconteceu com a Fabiana. Lembra da Fabi? A nossa Fabi da galeria?
Camila parou por um segundo, os olhos fixos num ponto vago. — A Fabi? Claro que lembro. Ela sempre foi tão... contida. Quase uma freira leiga. Usava aquelas golas altas, falava baixo, e o marido dela, aquele advogado sem graça, a tratava como se ela fosse um móvel antigo. Ela parecia estar sempre pedindo desculpas por existir.
— Pois é. Essa Fabi morreu — Justino revelou, inclinando-se para frente com um sorriso malicioso. — Ela foi nesse mesmo retiro no ano passado, logo depois que se separou. Ela voltou da água para o vinho, Mila. Ou melhor, da água para o absinto.
— Como assim? — Camila sentiu uma pontada de curiosidade que venceu, por um instante, a sua tristeza.
— Ela nos contou tudo num jantar — disse Roberto. — A Fabi que você conhecia, aquela que tinha medo da própria sombra, foi destruída pelo Guru Mahesh. Ele ensinou a ela que o prazer é uma ferramenta de domínio. Ela nos descreveu rituais onde ela era o centro das atenções, onde ela aprendeu a comandar o desejo de vários homens ao mesmo tempo. Ela se tornou uma rainha do sexo, Camila. Ela não apenas faz; ela governa. Ela disse que a sensação de ter três, quatro homens aos seus pés, esperando por um sinal dela para saber quem teria o privilégio de tocá-la, foi o que devolveu a dignidade que o ex-marido tinha roubado.
— Vários homens? Ao mesmo tempo? — Camila estava pálida, mas seus lábios estavam entreabertos. — Isso soa... impossível para alguém como ela.
— Ela nos disse que o segredo do Mahesh é que ele te ensina a ser uma deusa — continuou Justino. — A Fabi agora tem amantes em todos os continentes. Ela controla o jogo. Ela não é mais a mulher que espera o marido chegar para ter um sexo protocolar. Ela é a dominadora da própria vida. Ela disse que, no retiro, o Guru faz você descobrir zonas de prazer que a medicina nem mapeou. Ela voltou com uma aura, Mila. Uma energia que faz os homens na rua pararem para vê-la passar, não porque ela é bonita, o que ela sempre foi, mas porque ela exala um poder que diz: "Eu sei exatamente como te levar ao céu e como te manter no inferno".
Camila olhou novamente para a foto do Guru no tablet. Havia algo naqueles olhos escuros que parecia prometer uma paz que não vinha da ausência de conflito, mas da abundância de sensações. A dor da traição ainda queimava no seu peito, uma ferida aberta pela frase "você não tem sal". Aquela frase era o combustível. Se ela era sem sal, se ela era uma estátua, talvez precisasse ser quebrada em mil pedaços para que algo novo pudesse ser esculpido.
— Você quer passar o resto da vida sendo a estátua de porcelana que o Ricardo quebrou e jogou no lixo? — Roberto perguntou com suavidade, quase um sussurro. — Ou quer voltar de lá sendo uma labareda que ele nunca vai ter a chance, nem a coragem, de tentar apagar? Imagina a cara dele quando você voltar e ele perceber que você descobriu segredos que ele, com toda a sua arrogância de CEO, nunca vai entender.
A conversa avançou pela madrugada profunda, enquanto os amigos desconstruíam meticulosamente cada um dos medos morais de Camila. Eles mostraram fotos do ashram, uma propriedade deslumbrante às margens do Ganges, com jardins secretos e templos dedicados ao corpo. Explicaram como a sexualidade era tratada ali como uma forma de oração, mas uma oração selvagem e libertadora, longe da vulgaridade e perto de um poder ancestral que Camila sequer sabia que possuía.
Camila, exausta de chorar e de se sentir insuficiente para o único homem que já amara, sentiu uma faísca de rebeldia começar a arder em algum lugar profundo de sua alma, abaixo das camadas de civilidade e repressão.
— Se eu fizer isso... — ela começou, a voz trêmula mas carregada de uma decisão nova. — Eu não vou ser mais a mesma pessoa, vou?
— Esse é o objetivo, meu amor — disse Justino, segurando a mão dela. — Você vai matar a "Camila do Ricardo" e dar à luz a Camila que manda no próprio destino.
Com o coração disparado e as mãos ainda geladas, Camila pegou o seu próprio cartão de crédito. Sob o olhar vibrante e encorajador de Roberto e Justino, ela começou a preencher o formulário de inscrição no site oficial do Guru Mahesh. Nome: Camila Vasconcellos. Profissão: Curadora. Motivação: "Reencontro com a própria essência".
O clique final no botão "Confirmar Inscrição e Pagamento" pareceu um tiro de largada que ecoou por toda a sala. Logo em seguida, ela abriu o site da companhia aérea. Não houve hesitação desta vez. Ela comprou a passagem de primeira classe para Nova Deli, com conexão para Dehradun.
— Eu vou — ela disse, respirando fundo, sentindo uma tontura de adrenalina que nunca experimentara antes, nem mesmo nos dias mais bem-sucedidos na fundação. — Eu vou para a Índia.
— Isso mesmo, garota! — Roberto gritou, abrindo uma garrafa de champanhe que guardava para ocasiões especiais. — Adeus, estátua de porcelana!
— Prepare-se, Mila — Justino piscou, brindando com ela. — O Guru Mahesh vai mostrar que o seu "sal" é, na verdade, uma especiaria tão forte que o Ricardo ia ter uma indigestão só de tentar provar. Você vai ser a rainha daquela Índia.
Camila encostou a cabeça no sofá, olhando para o teto, sentindo o álcool e a decisão misturarem-se no seu sangue. Pela primeira vez em dez anos, ela não tinha um plano mestre, não tinha uma agenda e não tinha um marido para agradar. Ela tinha apenas uma mala, um coração partido e uma semana marcada com um homem que prometia transformá-la em algo que ela nem ousava sonhar. A viagem para a libertação havia começado.







