O Toque do Sândalo

O corredor que levava à sala particular do Guru era um túnel de sensações. O chão de mármore polido retinha o frescor da noite, contrastando com o calor que emanava das tochas presas às paredes. O perfume de sândalo, antes apenas uma nota suave no pátio, aqui era denso, quase palpável, misturando-se ao aroma de flores de jasmim que pendiam de vasos suspensos. Camila caminhava com passos incertos, a túnica de algodão roçando em suas pernas de uma maneira que a deixava desconfortavelmente consciente da própria nudez sob o tecido leve.

A sala de Mahesh não era um escritório, mas um santuário de luxo sensorial. As paredes eram revestidas de seda em tons de terracota, e o teto, alto e abobadado, exibia afrescos de divindades hindus em abraços eternos. Não havia cadeiras. O chão era coberto por tapetes persas sobrepostos e dezenas de almofadas de veludo bordadas com fios de ouro. No centro, o Guru esperava.

Mahesh estava sentado em uma almofada circular, em posição perfeita de meditação. Ele vestia uma camisa branca de linho, completamente desabotoada, revelando o peitoral musculoso e a pele bronzeada que brilhava suavemente sob a luz das velas. A calça branca, também de tecido leve, ajustava-se às suas coxas robustas, evidenciando uma virilidade que fazia o ar parecer mais pesado. Ele não se moveu quando ela entrou, mas seus olhos escuros seguiram cada movimento dela com uma intensidade que fazia o estômago de Camila contrair.

— Entre, Camila. Sente-se à minha frente.

A voz dele era um barítono profundo, uma vibração que ela sentiu mais no peito do que nos ouvidos. Camila aproximou-se, sentindo-se pequena e desajeitada. Ela tentou cruzar as pernas na posição de lótus, emulando a postura dele, mas seus joelhos pareciam rígidos e o tecido da túnica se embaraçou em suas coxas.

— Desculpe... eu não sou muito boa nisso.

Ela sentiu o rosto esquentar, a vergonha de sua própria falta de jeito subindo como uma maré.

— Não se preocupe com a forma agora, Camila. O corpo aprende a fluir no tempo certo.

Ele abriu um sorriso lento, que não era apenas amigável, mas carregado de uma compreensão que a desarmava. Mahesh estendeu as mãos, as palmas voltadas para cima, esperando.

— Coloque suas mãos sobre as minhas. Palma com palma.

Camila hesitou por um segundo. A pele dele parecia emanar um calor próprio. Quando finalmente encostou suas mãos nas dele, um choque elétrico percorreu seus braços. As mãos de Mahesh eram grandes, firmes e levemente ásperas, enquanto as dela eram frias e trêmulas.

— Feche os olhos. Apenas respire.

Ela obedeceu. O som da respiração dele era rítmico, profundo e calmo. No início, o coração de Camila martelava contra as costelas, uma resposta instintiva ao medo e à repressão que a acompanhavam há anos. Mas, aos poucos, o calor das palmas dele começou a se infiltrar em seu sistema. A tensão nos ombros cedeu. O aroma do sândalo parecia entrar em seus pulmões e relaxar cada músculo.

Pela primeira vez em dias, a imagem da traição de Ricardo começou a desbotar. O sentimento de inadequação foi substituído por uma sensação nova, um formigamento suave que começava na base da espinha e subia lentamente. Era algo próximo do sensual, um despertar tímido de nervos que ela mantivera adormecidos por uma vida inteira de recato.

— Eu consegui me conectar com você.

A voz dele soou perto, embora ele não tivesse se movido. Camila abriu os olhos e encontrou o olhar dele. Não havia julgamento, apenas uma clareza assustadora.

— Você teve uma vida recatada, Camila. Guardou-se em uma caixa de vidro. Provavelmente, fez amor apenas com um homem em toda a sua existência.

Camila sentiu o fôlego escapar. Ela não disse nada, mas sua mente trabalhava freneticamente. Como ele poderia saber? Como o simples toque das palmas das mãos poderia revelar o segredo de sua intimidade solitária e limitada? 

— Este retiro é o lugar perfeito para o que você busca. Você evoluirá muito em sua busca pela evolução sexual. As barreiras  são altas, mas o fogo que existe dentro de você é mais forte. Que as bênçãos dos deuses do amor guiem seus próximos passos.

Mahesh soltou as mãos dela com uma delicadeza que a deixou sentindo falta do contato imediato. O ar frio da sala pareceu tocar suas palmas agora vazias.

— Muito obrigado por compartilhar sua história comigo. Pode se retirar, Camila. Descanse.

Ela se levantou, sentindo-se zonza, como se tivesse acabado de acordar de um transe profundo. Suas pernas pareciam leves demais, e o mundo ao redor tinha cores mais nítidas e sons mais abafados.

Ao atravessar a cortina de seda na saída, outra mulher passou por ela, entrando na sala com um olhar meio perdido. Camila caminhou pelo corredor sem saber ao certo para onde ir, as palmas das mãos ainda queimando com o rastro do toque do Guru.

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