Mundo de ficçãoIniciar sessãoISabella
Eu não acredito em coincidências.
Acredito em escolhas mal calculadas.
Aceitar trabalhar na Moretti Holdings não é um impulso emocional. É uma decisão estratégica. Crescimento exige exposição ao desconforto. E eu não fujo mais de ambientes que me desafiam.
Mas isso não significa que eu esteja imune.
Segunda-feira começa antes do despertador tocar. Eu acordo às cinco e cinquenta e três. Fico alguns segundos olhando para o teto, sentindo o peso da semana antes mesmo de ela começar.
Não é medo.
É preparação.
Oliver ainda dorme. Eu observo o corpo pequeno encolhido sob o cobertor. Ele tem o hábito de segurar a ponta da fronha quando dorme, como se estivesse garantindo que nada vá escapar.
Eu me pergunto, às vezes, se ele herdou isso de mim.
Controle.
Eu preparo o café em silêncio. Reviso mentalmente os relatórios que estudei no fim de semana. Sei exatamente quais números ele vai questionar. Sei quais decisões estratégicas ele tomou nos últimos anos. Sei onde a empresa expandiu e onde recuou.
Eu sempre fui boa em antecipar movimentos.
Às sete e cinquenta e cinco estou no estacionamento da empresa.
Cinco minutos antes.
O prédio parece ainda maior quando você sabe que trabalhará ali todos os dias.
Eu entro.
A recepção já me reconhece.
— Senhorita Bennett, o senhor Moretti solicitou que a senhora vá direto à sala executiva quando chegar.
Claro que solicitou.
Ele gosta de observar desempenho desde o primeiro minuto.
Eu subo.
O corredor do último andar é silencioso demais para uma segunda-feira. Vidros escuros. Portas fechadas. Carpete que abafa qualquer som.
Eu bato duas vezes.
— Entre...
A voz dele continua a mesma. Firme. Contida.
Alexander está de pé, olhando a cidade pela parede de vidro. Ele não se vira imediatamente quando entro. Termina o que está analisando no tablet antes de me conceder atenção.
Isso não é descaso.
É hierarquia.
— Pontual — ele comenta sem olhar para o relógio.
— Cinco minutos antes...
Agora ele se vira.
Há algo diferente na forma como me observa hoje. Não é surpresa. Não é lembrança.
É avaliação constante.
— Gosto de profissionais que entendem tempo.
Eu sustento o olhar.
— Tempo é ativo. Não despesa.
Um leve movimento no canto da boca dele. Não chega a ser sorriso. Mas é reconhecimento.
Ele caminha até a mesa e me entrega uma pasta.
— Quero que revise a proposta de aquisição da filial de Montreal. Identifique riscos que o conselho possa ignorar.
Teste.
Não é sobre Montreal.
É sobre mim.
Eu sento.
Abro a pasta.
Leio.
Analiso.
Silêncio.
Ele não sai da sala. Permanece ali, trabalhando no notebook, mas sei que está atento a cada microexpressão minha.
Não me incomoda.
Pressão nunca me incomodou.
Depois de quarenta minutos, eu fecho a pasta.
— A cláusula sete compromete fluxo de caixa no terceiro ano. O cenário projetado está otimista demais. Se houver retração mínima de mercado, o retorno previsto cai vinte e dois por cento.
Ele levanta os olhos lentamente.
— Continue...
— E o contrato de permanência da diretoria local é curto demais. Há risco de evasão de liderança após a aquisição.
Silêncio.
Ele se recosta na cadeira.
— Foi isso que identifiquei também.
Claro que foi.
Alexander não lidera uma holding desse porte ignorando detalhes básicos.
— Então por que perguntou?
Ele não responde imediatamente.
— Porque queria saber se você ainda enxerga além do óbvio.
Ainda.
Eu ignoro a palavra.
— Eu nunca enxerguei o óbvio apenas.
Ele me observa por alguns segundos longos demais.
Há tensão ali, mas não é romântica.
É histórica.
— O conselho vai se reunir às dez. Quero que apresente esses pontos...
— Eu?
— Você assumiu o cargo. Assuma a exposição.
Eu assinto.
Ele sempre acreditou que liderança se mede pela capacidade de sustentar pressão pública.
Às nove e cinquenta e cinco estamos na sala de reuniões.
Cinco minutos antes.
Ele nota.
Claro que nota.
A reunião começa às dez em ponto. Investidores. Conselheiros. Advogados.
Eu exponho os riscos com precisão. Sem hesitação. Sem insegurança.
Quando termino, há silêncio.
Um dos conselheiros pergunta:
— A senhorita acredita que devemos recuar?
— Eu acredito que devemos renegociar.
Objetividade sempre gera respeito.
Ao final, a decisão é adiar a assinatura.
Alexander não comenta nada ali.
Mas, quando a sala esvazia, ele fecha a porta.
— Você não hesitou...
— Não havia motivo.
Ele caminha até a mesa, apoiando as mãos na superfície de vidro.
— Muitas pessoas hesitam quando sabem que estou observando.
Eu me levanto.
— Eu não trabalho para impressionar você.
A frase sai antes que eu filtre.
Silêncio.
Ele absorve.
Não há irritação.
Há algo mais perigoso.
Interesse.
— Isso é bom.
Eu sustento o olhar.
— Profissionais não devem trabalhar para impressionar.
— E para quê devem trabalhar?
— Para entregar resultado.
Ele se aproxima um passo.
A distância entre nós diminui, mas ainda é segura.
— E você entrega?
— Sempre entreguei.
Há camadas nessa resposta.
Ele percebe.
Claro que percebe.
O telefone dele vibra sobre a mesa. Ele ignora.
— Seu desempenho hoje foi acima da média.
— Esse é o padrão.
Ele inclina levemente a cabeça.
O mesmo gesto.
— Você mudou...
— Todos mudam em cinco anos.
O número paira no ar.
Cinco anos.
Ele não comenta.
Mas registra.
Sempre registra.
Eu saio da sala às onze e vinte.
O restante do dia passa entre relatórios e alinhamentos estratégicos. Eu mergulho no trabalho porque trabalho é território seguro. Não envolve passado. Não envolve emoção. Não envolve fragilidade.
Às dezessete e cinquenta e cinco eu desligo o computador.
Cinco minutos antes das dezoito.
Equilíbrio.
Quando entro no elevador, ele entra logo depois.
Sozinhos.
O espaço fechado altera a atmosfera.
Ele aperta o botão do térreo.
Silêncio.
— Você está bem? — ele pergunta.
A pergunta não é corporativa.
É pessoal.
Eu olho para frente.
— Estou excelente profissionalmente.
Ele quase sorri.
— Não foi isso que eu perguntei...
Eu o encaro.
— E eu não respondo perguntas vagas.
Ele sustenta o olhar.
— Sempre foi assim...
— Sempre fui clara.
O elevador desacelera.
As portas se abrem.
Eu saio primeiro.
Mas sinto o olhar dele nas minhas costas.
Não é desconfiança.
Não ainda.
É curiosidade.
E curiosidade, em Alexander Moretti, nunca é casual.
Quando chego em casa, Oliver corre até mim.
Ele segura minhas pernas como se eu tivesse voltado de uma viagem longa.
— Você gostou do trabalho novo?
Eu o pego no colo.
— Eu sempre gosto quando faço algo bem.
Ele toca meu rosto com as duas mãos pequenas.
— Você parece diferente.
Crianças percebem o que adultos ignoram.
— Diferente como?
— Pensando.
Eu sorrio.
Ele não sabe que o homem que eu reencontrei hoje faz parte da origem dele.
Ele não sabe que as decisões daquele homem alteraram o curso da nossa vida.
E, por enquanto, é melhor assim.
Mas, enquanto coloco Oliver para dormir, uma pergunta se instala na minha mente.
Alexander me observou hoje como quem revisita uma variável antiga.
Não houve acusação.
Não houve menção ao passado.
Mas houve análise.
E homens como ele não analisam sem intenção.
Eu não temo o reencontro.
Mas eu respeito o risco.
Porque cinco anos podem mudar uma pessoa.
Mas não apagam o que ficou sem resposta.
E algo me diz que, desta vez, ele não vai aceitar silêncio como encerramento.







